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Postado em 08-08-2015
Arquivado em (Artigos) por vitor em 08-08-2015 00:50

Zé Dirceu: biografia “pirata” ou autorizada?

Maria Aparecida Torneros

O Zé Dirceu é mesmo figura polêmica. Nos conhecemos, há décadas, trocamos correspondência muitas vezes, criamos laços respeitosos de amizade , mas ele sabe, nunca fui petista. Como ele, também fui para as ruas, em 68. Não me engajei na luta armada e perdi muitos amigos e amigas que o fizeram.

Entretanto, como cidadã brasileira da sua geração, sonho ainda com um Brasil decente, nos meus 65 anos. Exerci no dia a dia as profissões de jornalista e professora universitária por mais de 40 anos.

Vivo, modestamente, da minha aposentadoria, e ao longo do tempo, fiz um único pedido ao ex ministro, que hoje está preso, por investigações na Lava Jato, e cumpre pena por condenação no Mensalao. Disse que gostaria de escrever uma biografia dele, romanceada, já que o considero um personagem.

Quando escrevi meu primeiro livro, em 2008, ele foi um dos três prefaciadores. Justo para a terceira parte do livro com artigos meus publicados no Observatório da Imprensa. Nesse prefácio ele menciona a tal biografia, e a apelidou de “pirata”.

Nos últimos tempos, pouco nos falamos, mas no mês passado, recebi um email dele, em
13 de junho de 2015, onde destaco o trecho em que diz:

“Cida, como é a vida, escolhas e conseqüências.
Cuide- se e escreva minha biografia , a do Otávio tem a marca da Veja mas o debate na imprensa desnudou os erros grosseiros e as digitais da revista ….
Por isso sempre fui contra a autorização prévia do biografado, mas é preciso aprovar direito de resposta e reparação ou mesmo proibição do livro comprovado crime contra memória, imagem e honra.
Bjs e vindo a BSB venha almoçar conosco e conhecer minha pequena paixão Maria Antônia
Zé”.

Respondi que ia pensar. Minhas constantes crises de coluna me limitam viagens e mamãe no momento, é minha prioridade, nos seus quase 89, com sintomas de demência senil.

Voltei ao meu livro e reli seu texto, no prefácio. Trecho do prefácio do meu livro A mulher necessária, de 2008.

“Cida é uma contadora de historias e retratista do nosso dia a dia,vive com paixão tudo o que nos acontece e chora,ri,sofre,festeja, nossas vitorias e derrotas,nossas ilusões e desilusões.

Jornalista e escritora, tem peleado para que eu autorize que escreva uma biografia sobre minha vida e caminha para fazê-lo não autorizada,numa cumplicidade que foi se consolidando via internet,via blogs,via vida,fatos e atos que vão nos unindo e nos aproximando.”

Pois é, pois Zé, eu me pergunto sobre seus caminhos e descaminhos, olho sua imagem ao ser preso novamente, imagino o quanto reflete sobre escolhas e conseqüências, e não consigo ainda me decidir a escrever uma história sua, uma delas, pois você tem tantas.

Sou contadora também de muitas histórias, e algumas parecem capítulos de seriados televisivos. Confundem ficção com realidade. E são dolorosas muitas vezes. Ou de muitos altos e baixos, ou de duvidosas escolhas, ou ainda de cobranças sociais e humanas imprevisíveis.

Torço por sua saúde para que acompanhe o crescimento da sua nova paixão, a pequena Maria Antônia, e, caso eu venha a escrever uma biografia sua, que tenha isenção para recontar o que tanto já se noticiou sobre sua vida de guerrilheiro, político, condenado por corrupção, arrogante ou humilde, bipolar, ou coerente, pai, amigo ou inimigo, homem livre para escolhas e prisioneiro das consequências.

Artigo do El País, publicado hoje, a ele assim se refere :
“Cumprindo pena em regime domiciliar, após ficar 11 meses preso, o ex-ministro dava poucas entrevistas, mas começou a fazer movimentos públicos nos últimos meses quando começou ser citado nas investigações da Lava Jato. No último dia 7 de junho, reportagem do Estado de S. Paulo revelou que ele teria dito a amigos que guarda mágoa de Lula e de Dilma Rousseff pela atitude “covarde” que ambos assumiram durante a crise do mensalão e o escândalo da Petrobras
Dirceu repete que todas as acusações de corrupção são injustas. Considera-se perseguido por seu papel no PT e pelo sucesso que diz ter obtido em sua reinvenção, após o mensalão, como consultor de negócios — uma performance turbinada pelos seus contatos com empresários em seus anos no poder e por suas credenciais na esquerda latino-americana. O trabalho da JD consultoria rendeu, entre 2006 e 2013, um faturamento de 39,1 milhões de reais, mas, para a nova a acusação do Ministério Público, essa cifra teria relação com a máfia investigada pela Lava Jato. No blog mantido por ele, em que ele analisava os rumos da política brasileira, a equipe do ex-político afirmou que o dinheiro obtido pela empresa vinha dos cerca de 60 clientes que ele mantinha, entre os quais a espanhola Telefónica e o magnata mexicano Carlos Slim, a quem ele ajudava a agendar encontros com Hugo Chávez ou Raúl Castro e construir estratégias para atuação em mercados brasileiros e externos, como América Latina, Europa e Estados Unidos.
Com o sigilo bancário quebrado desde janeiro, ele não recebeu com surpresa a notícia de sua prisão. De fato, seus advogados haviam tentado duas vezes, sem sucesso, conseguir para ele um habeas corpus preventivo. Relato do jornal Folha de S.Paulo afirma que amigos que o visitaram recentemente o encontraram abatido e cansado. Perdeu peso e passava as manhãs vendo desenho animado ao lado da filha de 5 anos. Nada poderia ser mais distante dos seus dias de enfático líder estudantil contra a ditadura.”

Um desafio para qualquer biógrafo, o Zé Dirceu amigo do Fernando Morais, que já escreve também uma biografia dele, segue sendo “guerrilheiro” aos quase 70 anos.

Cida Torneros é jornalista e escritora. Mora no Rio de Janeiro.

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Comentários

jader on 8 agosto, 2015 at 8:51 #

http://jornalggn.com.br/blog/urariano-mota/jose-dirceu-alice-no-pais-das-maravilhas-e-hiroshima-por-urariano-mota

Urariano Mota
José Dirceu, Alice no País das Maravilhas e Hiroshima*, por Urariano Mota
URARIANO MOTA
SAB, 08/08/2015 – 08:01
Por Urariano Mota

Os apelos da política imediata parecem alienar a gente da história do mundo. Nesta semana, completam-se 70 anos do genocídio das bombas sobre Hiroshima e Nagasáqui. No dia 6, o governo dos Estados Unidos lançou a bomba atômica sobre Hiroshima. No dia 9, ampliou o seu crime sobre o povo de Nagasáqui. E no entanto, crimes tamanhos contra a humanidade parecem desaparecer ante os apelos urgentes da política nacional, que exigem a reflexão imediata, porque um golpe de Estado está em marcha.

Esta semana, como um passo a mais que leve ao presídio e à desmoralização do líder Lula, se deu a nova prisão do ex-ministro José Dirceu. Ele, que já se encontrava aprisionado, talvez porque pudesse fugir da prisão domiciliar, foi novamente preso e transferido para a polícia federal da conspiração de Curitiba. Digo da conspiração porque delegados federais da Lava Jato já insultaram Lula e Dilma nas redes sociais. Mas o ministro da Justiça, no Olimpo, não tomou conhecimento.

Continuemos. Quando houve o julgamento de José Dirceu, naquela primeira farsa, a do Mensalão, escrevi que ele havia sofrido um julgamento de Alice. Ou seja, aquele julgamento que Lewis Carrol escrevera para Alice no País das Maravilhas. Por sinal, no mês passado se completaram 150 anos da publicação do livro. E quanto é atual no absurdo e arbitrariedade da cena do julgamento de Alice. Acompanhem e sintam a semelhança profunda que há ali e nas páginas de José Dirceu esta semana.

“- Não, não! – berrou a Rainha. – Primeiro a sentença, depois o veredicto”.

Se substituímos a Rainha pelo conjunto imprensa e tribunal do Brasil, perceberemos que aqui também a condenação estava antes sentenciada. Mas continuemos com Alice:

“Neste momento o Rei, que estivera ocupado por algum tempo escrevendo em seu caderno de notas, gritou:

– Silêncio! – e leu: ‘Artigo Quarenta e Dois: Todas as pessoas com mais de um quilômetro e meio de altura devem deixar o tribunal.’

Todo o mundo olhou para Alice.

– E não irei de jeito nenhum – disse Alice; – além do mais, este artigo não é legal: você acabou de inventá-lo.

O Rei empalideceu e fechou apressadamente seu caderno de notas. ‘Façam o seu veredicto’, disse ao júri, com voz baixa e trêmula….

– Com licença de Vossa Majestade, ainda há provas a examinar – disse o Coelho Branco dando um salto: – este documento acaba de ser encontrado.

– Do que se trata? – indagou a Rainha.

– Ainda não abri – respondeu o Coelho Branco. – Mas parece ser uma carta, escrita pelo prisioneiro para alguém.

– Só pode ser isso – disse o Rei, -a menos que tenha sido escrita para ninguém, o que não é muito usual.

– A quem é endereçada? – perguntou um dos ministros.

– Não é propriamente endereçada…- disse o Coelho Branco, – na verdade, não há nada escrito do lado de fora. Enquanto falava, desdobrou o papel, acrescentando: – Nem é uma carta, afinal de contas: são versos.

– Estão escritos com a caligrafia do prisioneiro? – perguntou outro.

– Não, não estão – respondeu o Coelho Branco – e isso é o mais estranho de tudo. (Todos pareciam perplexos.)

– Ele deve ter imitado a caligrafia de outra pessoa – disse o Rei. (Todos animaram-se outra vez.)

– Com licença de Vossa Majestade – disse o réu, – eu não escrevi isso, e ninguém poderá provar o contrário: não há nenhum nome assinado embaixo.

– Se você não assinou – disse o Rei – isso só piora a situação. Você certamente deve ter feito algo de errado, ou então teria assinado seu nome como qualquer pessoa honesta…

– Isso prova a sua culpa, é claro – disse a Rainha: – Logo, cortem a sua cabeça!”

Precisa dizer mais? O simulacro desse julgamento, da sentença que vem antes das provas, é repetido aqui mais uma vez na Lava Jato. Aqui, também, os critérios de condenação mudam conforme o objeto e objetivo do momento. Antes se denunciava um cartel de empresas na Petrobras que inflacionava preços para repassar uma parte ao Partido dos Trabalhadores. Agora, se estende ao governo Lula, que sob o comando do representante de Deus, mais conhecido pelo nome de José Dirceu, comprava apoio de deputados e senadores. O alvo é Lula, evidentemente. José Dirceu é a ponte que leva à maior liderança popular do Brasil.

Como da vida de José Dirceu não sairá uma delação, há de se procurar um delator com suficiente leviandade e cinismo para afirmar “Lula foi subornado por mim!”. E esta será a prova para a sentença prévia: cortem a cabeça do ex-presidente.

Enquanto o congresso sob a cabeça de Eduardo Cunha se articula para o impeachment da presidenta Dilma, e se fecha o cerco para a desmoralização da esquerda no Brasil, o mundo inteiro lembra os 70 anos das bombas sobre os japoneses, jogadas pelo império dos Estados Unidos. Mas se olharmos bem, existe um fio comum que une as bombas de Hiroshima e Nagasáqui às últimas prisões da Lava Jato. O vice-almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, autoridade em energia nuclear, que contrariava os interesses-norte-americanos, está preso. E agora, antes de Lula, os fascistas avançam sobre José Dirceu.

No belo poema A Rosa de Hiroshima, Vinícius de Moraes escreveu:

“Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Mas, oh, não se esqueçam

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida e inválida

A rosa com cirrose

A antirrosa atômica

Sem cor sem perfume

Sem rosa, sem nada”

Para os desdobramentos do que se convencionou chamar Lava Jato, talvez possamos dizer: pensem nas crianças, nas meninas, nas mulheres, nas feridas que se abrem com a ação da direita a mando do império dos Estados Unidos. Eles fazem enfim a mesma rosa radioativa, estúpida e inválida, a rosa com cirrose que destrói as conquistas do último governo popular depois de João Goulart. A antirrosa que é lava, mas de vulcão sobre a Petrobras e o Brasil.


vitor on 8 agosto, 2015 at 13:55 #

Sentimentos à flor da pele.Verdadeiro, denso, corajoso, bem escrito. Parabéns, Cida. BP se orgulha muito de tê-la entre os seus.


Mariana Soares on 8 agosto, 2015 at 22:18 #

Cida querida, creio que já lhe disse, mais de uma vez, que, quando se trata de José Dirceu, sempre estamos em lados opostos.
Não obstante, seus textos sobre ele revelam, com muita sensibilidade, uma outra pessoa, que certamente você conhece e nos traz à tona.
Fiquei muito emocionada mesmo com seu texto e, daqui do meu cantinho, falei baixinho, mas querendo que ele ouvisse: “que sorte desse cara ter uma pessoa como a Cida que o admira ou admirou”…
Só não sei se ele merece, mas isto não tem a menor importância…O que vale mesmo nesse mundo cruel e insensível, é que existe alguém corajosamente sensível como vc!
Viva a você, Cida! Vc me faz, nem que seja por alguns minutos, esquecer que existe gente como José Dirceu no mundo.


Cida Torneros on 9 agosto, 2015 at 10:16 #

caros. Jader ,Mariana. E Vitor . Nada. Sou a nao ser um ser humano aprendiz . E Como diz meu filho ateu. Sou contaminada pelos. Conceitos. Cristaos .Beijos e bencaos para vcs neste domingo . Cida


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