ago
01


Dilma e governadores no Alvorada:”olha o passarinho!”


ARTIGO DA SEMANA

Governadores e Dilma no País do Faz de Conta

Vitor Hugo Soares

Em épocas temerárias, nas horas de travessias complicadas e tempestuosas – tipo as desta passagem complicada de julho para agosto – há, no Brasil, os que oram, os que lutam e os que choram. Recordo minha mãe, que fazia as três coisas quase ao mesmo tempo em outros períodos parecidos de crises, embora menos cavernosos que os atuais.

Sertaneja de fé e de coragem que foi até morrer, dona Jandira apostava piamente, antes e acima de tudo, no poder das suas preces e dos seus santos de devoção: “o divino e manso São José” e Santo Antônio, pregador impetuoso de Pádua, padroeiro de Glória, a cidade da minha infância à beira do São Francisco, rio da minha aldeia que mingua a olhos vistos e pede socorro urgente, sem ser escutado.

A presidente Dilma Rousseff (PT) prefere pedir arrego aos governadores estaduais, na improvisada e óbvia reunião do Palácio da Alvorada no penúltimo dia de julho. Quase todos eles (os do PT e dos demais partidos representados em volta da mesa da cúpula de Brasília) personagens chorosos e obedientes.

Mal (ou bem?) comparando, tipos lagartixas que, praticamente, só fazem mexer a cabeça em aprovação às palavras e propostas da mandatária. “Homens moluscos” (que ganham o formato e se adaptam a quaisquer mãos do poder da vez), na definição perfeita do mestre penalista Thomas Bacellar, nas suas aulas brilhantes e corajosas na Faculdade de Direito da UFBA dos anos 60/70, da ditadura. Ou depois, no comando da seccional baiana da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Em Brasília, quinta-feira, um retrato sem retoque de um País de faz de conta, que nem a grandiosa cenografia palaciana dos arautos e propagandistas do governo consegue disfarçar. Nesse cenário, presidente e governadores de mãos e ideias ralas ou vazias (refiro-me às questões de princípios), de cuia na mão, nesta nova viagem ao coração do poder.

A mesma disposição submersa de raspar o cofre da viúva (se ainda restar algo a raspar). Pedir mais dinheiro para a gastança compartilhada com empreiteiras corruptoras que financiam campanhas, políticos e governantes (numa corrupção endêmica que a Lava Jato quase diariamente põe a nu e o bravo e competente juiz Sérgio Moro, sempre alguns passos à frente da geléia geral reinante, tenta estancar).

Almejam “mais do mesmo” nas eleições municipais do ano que vem. Alcançar a “meta principal” (manutenção do projeto de mando e do status), sem princípios.Pensamentos programas largados às favas. Encenam mais uma vez, perigosa e improvisadamente, alheios (presidente e chefes estaduais) ao vozerio indignado que cresce e se propaga nas ruas, ou se reflete nos números das pesquisas de opinião.

Vejam, por exemplo, a proposta do “pacto nacional pela redução dos homicídios”, que ganhou as principais manchetes, após o encontro no Alvorada. Praticamente tudo se resume a uma cooperação entre os governos federal e estaduais, de repressão em torno “do trivial dona Maria”, desde os idos do golpe de 64: aumento da ação repressiva das polícias, mais confrontos, mais armas, mais cadeias, mais mortes no final das contas, que ninguém se engane.

O governador da Bahia, Rui Costa, saiu do silêncio intelectual e administrativo em que se mantém, para aplaudir “a companheira presidenta” e pedir que reuniões do tipo sejam mais frequentes e regulares: “para que temas como segurança pública e novos financiamentos para a saúde, se tornem objetos consistentes de debates”. Quanta originalidade!!!

Logo ele, que no primeiro dia de mandato, saudou como “gol de placa” a ação feroz e sangrenta de efetivos da RONDESP (grupo e elite da PM baiana, que resultou na morte de 12 pessoas, quase todas sem nenhuma passagem na polícia. “O massacre do Cabula”, como seguem denominando a Anistia Internacional e os promotores públicos da Bahia que tratam do assunto, embora em sentença-relâmpago (a expressão é do jornal espanhol El País, em contundente reportagem sobre o caso), uma juíza tenha decidido pela absolvição dos nove PMs acusados da execução. Decisão já devidamente contestada em instâncias superiores da justiça.

Nada a estranhar – a não ser o que aparenta ser o extremo “da falta de noção”, como sintetiza uma minha sobrinha – do incrível governo da multiplicação de”metas zero”, a exemplo do prometido pela presidente, no “improviso” da cerimônia de lançamento do programa Pronatec Jovem, no Palácio do Planalto. Saudado com palmas, mesmo que envergonhadas, pelo ministro-chefe da Casa Civil, Aloízio Mercadante), personagem também do encontro no Alvorada. Tem vídeo circulando intensamente nas redes sociais, para os que ainda se recusam a acreditar que a mandatária brasileira tenha chegado a tal ponto. É só conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Be Sociable, Share!

Comentários

luiz alfredo motta fontana on 1 agosto, 2015 at 6:13 #

A derradeira noite!

– Oh bem paga uma dose?

A frase mais conhecida dos velhos lupanares, poderia ser representativa da distinta reunião.

Cada qual com seus dotes, cada um com suas especialidades. Todos cientes e sôfregos, todos em busca da da “normalidade” perdida.

“Nunca antes neste país” a famosa luz vermelha dos alpendres causara tantos aborrecimentos.

– Somos apenas “marafonas”, que esperavam de nós?

Lá fora, velhos clientes, mudavam de calçada.

– E se a senhora mudasse a decoração? Talvez uma luz azul?

E assim agosto chegou!


luis augusto on 1 agosto, 2015 at 7:50 #

Caro Vítor, parabéns pelo brilhantismo da análise e do texto.


Taciano Lemos de Carvalho on 1 agosto, 2015 at 8:33 #

Que análise!! Parabéns, Vitor.

Que análise!! Parabéns, Vitor.

Foi feita a mais perfeita tomografia computadorizada desses tempos da política brasileira.

Uma tomografia de corpo inteiro. Deu resultado positivo: metástase.

Não sobrou um órgão que não esteja comprometido.

Na tomografia do cérebro foi identificada a ausência quase total de caráter.

Pior! Não se constatou qualquer vestígios de coluna vertebral nos governadores. Por isso se vergaram com tanta facilidade.


jader on 1 agosto, 2015 at 10:18 #

…..numa corrupção endêmica que a Lava Jato quase diariamente põe a nu e o bravo e competente juiz Sérgio Moro, sempre alguns passos à frente da geléia geral reinante, tenta estancar).

http://jornalggn.com.br/noticia/pgr-encontrou-se-nos-eua-com-ex-socia-de-concorrentes-da-eletronuclear


Mariana Soares on 1 agosto, 2015 at 10:59 #

Bela análise do caos político, econômico e moral onde o PT nos enfiou e nos enlameia mais e mais a cada dia que passa. Tudo cheira mal, tudo nos enoja nessa gente sem escrúpulos e sem noção do que quer que seja.
Vergonha e nojo é pouco para o que sinto dessa gente.


Taciano Lemos de Carvalho on 1 agosto, 2015 at 11:08 #

Eu já havia falado que aquela mão suja —não a mostrada pelo presidente Getúlio Vargas— podia não ser de petróleo.

E agora tem um monte de medalhões na beira de tanques abertos e cheios de material radioativo. Um empurrãozinho da Justiça e … não sobra nada.


jader on 2 agosto, 2015 at 18:06 #

De Janio de Freitas na FSP:
Além do previsto
02/08/2015 02h00

Tremei, cidadãs e cidadãos. Já não bastam as vozes do impeachment, a fúria dos bolsonaros, a pauta-bomba de Eduardo Cunha que não é para a Câmara mas sobre o país. Nem bastam as manifestações programadas pelo SOS Militares e pelo PSDB de Aécio, nem mesmo a Lava Jato. Tremei cidadãs e cidadãos, que além do mais, e sobre todas as coisas, faz agosto.

Se em melhor tempo alguém, nestas páginas, concluiu que a solução para Dilma é a que Getúlio se deu, não por acaso em certo agosto, não é exagero que o novo agosto chegue anunciado por uma “bomba caseira” lançada no Instituto Lula. Bombas são assim domesticamente inofensivas, “caseiras”, até que matam uma dona Lida, uma criança na calçada, ou moradores de rua, que para eles o azar não tem fim. Bombas não costumam ser solitárias. É bem possível que a bomba de agora seja vista, depois, como um ponto inicial. Nem sugiro de quê.

No agosto tão previsto surge, porém, algo que ninguém ousara prever. Por falta do precedente apesar de todos os agostos. Ou por um saldo de crença no bom senso onde se teme que falte. O imprevisível foi trazido pelo jovem procurador Deltan Dallagnol, um dos cruzados e porta-voz da Lava Jato.

Seria no máximo extravagante o enlace entre exposição dos feitos da Lava Jato e a oração que Dallagnol fez, para seus irmãos de fé, em uma igreja batista no Rio –com convite a jornalistas para a conveniente propagação da mensagem. A da fé aliada à Lava Jato ou só a outra, não se sabe. A outra que, ficou claro, foi uma das finalidades da assembleia, senão “a” finalidade da exposição entremeada de citações bíblicas: Dallagnol pediu que seus irmãos de fé acompanhem a página de determinado pastor na internet, que difunde o espírito cruzado da Lava Jato. E foi mais longe: concitou à mobilização dos crentes para uma agenda de manifestações “contra a corrupção”. Entre elas, uma pregação que se pretende de âmbito nacional.

Quando? No 16 de agosto que os pregadores do impeachment de Dilma escolheram para voltar à rua.

Deltan Dallagnol fez a palestra na condição de participante de inquéritos da Procuradoria da República e de integrante da chamada Operação Lava Jato. Sua exposição e os gráficos exibidos foram os mesmos feitos dias antes na TV, sem as conotações religiosas e sem a convocação. Como porta-voz da Lava Jato em ambas, na segunda exposição pôde fazer o que na anterior não cabia: a convocação que expressa uma definição política e o propósito do grupo de trabalho que ele integra. Tanto que nenhuma voz desse grupo tomou a providência de retificá-lo na definição e na incitação que fez, e que muitos meios de comunicação noticiaram.

Por meio de Deltan Dallagnol, a Lava Jato se assumiu como ação política –o que os princípios e os fins da Procuradoria da República não admitem.

A RE-UNIÃO

Apesar de tudo, agosto promete alguma diversão.

Os adeptos do impeachment dividiram-se depois da reunião de Dilma com os 26 governadores e o governador do DF. Uns silenciaram sobre o resultado, para poderem falar em derrota de Dilma. Outros, como Aécio e a cúpula do PSDB, perderam a voz. Mas o fato é claro: Dilma teve uma vitória política, talvez muito além da esperada.

Foi um jogo de alto risco para os dois lados. Não seria surpreendente que se apresentasse uma dissidência entre os governadores, recusando as propostas de Dilma e inutilizando a reunião. Para os governadores, o risco está no teste que aceitaram, ao comprometer-se a tanger suas bancadas para o apoio, no Congresso, à contenção de gastos e à derrubada dos novos e altos gastos aprovados por comando de Eduardo Cunha. Os governadores apostaram na sua duvidosa força política.

Embates em vários Estados, embates na Câmara entre os cumpridores do acordo feito no Planalto e o desacordo total anunciado por Eduardo Cunha e sua pauta-bomba. Até lá, vigora a imagem de rara unanimidade entre os 27 governadores.


Taciano Lemos de Carvalho on 2 agosto, 2015 at 19:42 #

“My Way”
“Sabrina”
“Primo”
“Angelina Jolie
“Bebê Jonhson”
“Véio”
“Vô” ou “JP”
BBB”
“Bandidos” ou “band”
“Seu Mercedão” ou João, Gordo ou Ronaldo
“Brahma”

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/08/1663450-envolvidos-em-esquema-de-corrupcao-usavam-codinomes-como-sabrina-e-vo.shtml


Taciano Lemos de Carvalho on 2 agosto, 2015 at 19:53 #

http://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2015/08/nao-adianta-tentar-vencer-no-front-da.html

“De resto, torno a repetir, chegou a hora de os governistas desistirem de tentar romper o isolamento político tirando da cartola os mesmos coelhos de sempre: encontros engana-trouxas com governadores, alarmismo para poderem posar novamente de mal menor, retórica fantasiosa de prometer o começo da recuperação econômica já para este ano quando até as pedras sabem que a coisa vai piorar muito antes de melhorar, etc.”


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos