CRÔNICA/ RIO UNIVERSAL

O motorneiro que virou anjo e minha neta carioca

Gilson Nogueira

Seo Nelson era uma figura notável. De baixa estatura física, era grande na elegância e na simpatia. Impecável, no trajar calça social e camisa de mangas curtas ou compridas. Pisava feito um príncipe dono da festa no palácio do cotidiano. Sorria igual pra todo mundo. Educado e risonho, as crianças o adoravam. Para elas, beijos e acenos, entre os comandos do dia a dia de um excelente motorneiro. Minha primeira neta, da janela do apartamento, na Joaquim Murtinho, era sua fã. E ele dela.

Entendiam-se, na linguagem da pureza. Os baibais de ambos chamavam a
atenção dos passarinhos, que assobiavam mais quando os viam trocando acenos no caminho do bonde. Os passageiros sorriam. Era uma festa da magia carioca, sem igual no mundo.

Seo Nelson foi uma das seis pessoas mortas em conseqüência do acidente com um dos bondinhos de Santa Teresa, em agosto de 2012. Uma tragédia que, segundo a empresa responsável pela operação do tradicional sistema de bondes, na época, foi provocada por problemas no freio do veículo que o herói conduzia. Na certa, um freio assassino. Que ele não volte, com roupagem magnética.

Na página oito do Correio, um jornal que caiu no gosto da população de Salvador, está dito que após quase quatro anos de espera de fluminenses e não fluminenses começou hoje a pré-operação do sistema, entre 11h e 16 h, transportando passageiros unindo os largos da Carioca, no centro, próximo à sede da Petrobras, e o do Curvelo, no alto de Santa, perto da Chácara do Céu, em intervalos de 20 minutos entre as viagens.

Que os anjos digam amém aos que torcem para que nova tragédia não aconteça no vai e vem dos bondinhos amarelos de Santa Teresa, cartão de apresentação do Rio Antigo. Ali, nos trilhos históricos, desliza minha saudade daquele profissional adorado pela comunidade que privava do seu convívio, dentro e fora do bonde que ele conduzia como se fosse um carro alegórico campeão do desfile de carnaval da Sapucaí.

Volta o bonde e, com ele, o resgate de uma das digitais da histórica Cidade Maravilhosa! .Que Nossa Senhora da Manutenção abençoe toda a frota deles e que os homensresponsáveispelo sistema (argh!) façam sua parte, ou seja, imbuam-se de maior responsabilidade, levando em conta que com a vida dos outros não se brinca.Seo Nelson e minha neta Clara estão de olho!

Gilson Nogueira é jornalista, colaborador da primeira hora do BP. Um craque da “ponte aérea das netas” Salvador-Carolina do Norte(USA)-Rio de Janeiro.

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