Foreign Policy(FR) sobre Lula-Odebrecht:
reportagem de impacto mundial.


FP em espanhol:”seriedade, amenidade e rigor”


ARTIGO DA SEMANA

Corrupção à brasileira: Lula na Foreign Policy (FP)

Vitor Hugo Soares

Uma vez – essa história não faz tanto tempo assim -, eu caminhava de mãos dadas com Margarida (também jornalista) pelo aeroporto de Barajas, na fase em que a Espanha flanava toda cheia de si sobre as ondas de seu mais recente (e já desmoronado) sonho de império, opulência econômico-financeira e tranquilidade política.

Barajas, um dos mais importantes e movimentados aeroportos da Europa, acabara de ser reformado e modernizado (a capital espanhola inteira, aliás, parecia um imenso canteiro de obras e paraíso das grandes empreiteiras). Era então o mais novo e imponente postal de entrada e saída da cidade repaginada. O mundo e o tempo loucos e maravilhosamente criativos dos anos 60/70 haviam ficado para trás nas muitas voltas. A juventude quase nem fumava ou lembrava mais dos famosos “chinos de Madri” da canção “Un Vestido y un Amor”, do portenho Fito Paes, que o baiano Caetano Veloso transformaria em sucesso mundial no disco “Fina Estampa”.

Foi no aeroporto, daquela vez, que vi a “FP-Foreign Policy” (edição espanhola) exposta em um lugar de destaque da vitrine na babel do quiosque de revistas e periódicos do mundo inteiro. Achei estranho o nome da publicação, mas o design moderno da capa e as chamadas para as matérias principais da edição que acabara de sair do forno, me apanharam de cheio.

Comprei um exemplar para ler no voo de volta ao Brasil. Abri a revista e logo fui arrebatado por uma paixão jornalística à primeira vista, da qual depois não mais me afastei ou me arrependi, apesar das novas e tantas viradas do planeta. Isso aconteceu há uma década, quando o Brasil também “era tudo de bom”, no dizer quase nunca questionado da baita propaganda oficial do Governo Lula e do PT. Nem se falava em Mensalão e, muito menos, se imaginava um escândalo de ladroagem envolvendo corruptos e corruptores – malfeitores públicos e privados em conluio – do tamanho da Lava Jato. Que a cada dia, praticamente, aponta para novos desvãos criminosos e de consequências ainda insondáveis. A conferir.

Recordo do episódio em Madri depois de ver, esta semana, a reportagem da “FP-Foreign Policy” (edição dos Estados Unidos), que traz entre seus principais conteúdos, uma reportagem demolidora a partir do título: “Lula está apoiando empresas corruptas a fazer negócios corruptos no exterior”.

Abro aqui um breve espaço de informações sobre a “FP”, para quem desconhece a revista norte-americana não ficar imaginando que a publicação de nome tão estranho é um “balcão de negócios jornalísticos”, ou algo superficial, nos moldes das revistas de escândalos em torno de “celebridades”, tão comuns na Espanha e no Brasil, ou dos famosos tabloides britânicos, para ler no metrô e jogar no lixo.

“Foreign Policy (FP)” requer muitos e quase todos favoráveis adjetivos: prestigiosa, inovadora, lúcida, substanciosa e inteligente revista dedicada a ideias globais. Trata de assuntos internacionais (do futebol da FIFA, na Suíça e Estados Unidos, ao Petrolão, no Brasil) de maneira diferente e igualmente interessante. Encara criticamente, de forma permanente e criteriosa, o desafio de alcançar em seu conteúdo, a difícil mescla jornalística de “seriedade, amenidade e rigor”. Servidos em textos primorosos

Há, porém (e sempre há um porém), os que consideram FP um reduto inexpugnável de intelectuais neoliberais , elitistas vaidosos e inimigos do “pensamento de esquerda e dos intelectuais, gente do poder e de governantes em geral que o expressam e representam”.

São opiniões. O fato é que a reportagem da “Foreign Policy” considera que o Brasil cria novo modelo de investigação da corrupção ao apurar ação do ex-presidente Lula fora do governo, o que é praticamente inédito em todo o mundo. “Enquanto muitos ex-presidentes e premiês já foram investigados após deixarem os cargos, é a ação deles enquanto governantes que normalmente é analisada. Investigações (neste caso ) estão examinando o papel que [Lula] da Silva teve para garantir contratos para a Odebrecht em Cuba, no Panamá, na Venezuela, em Gana e em outros países”, diz a revista americana em sua página na Internet.

“Lula está ajudando empresas corruptas a fazerem negócios corruptos no exterior”, afirmou à revista o diretor regional da Transparência Internacional, Alejandro Salas. Paro por aqui. Quem quiser saber mais veja na revista, cuja reportagem causa impacto internacional.

Foreign Policy é editada em Washington desde 1970. A edição espanhola da revista, cujo exemplar adquiri em Barajas, é bem mais recente: começou em 2004. Me penitencio, pessoal e profissionalmente, pelo atraso da descoberta, apesar de ter passado antes pelos Estados Unidos, quando FP já era sucesso entre seus leitores, principalmente nos meios intelectuais e jornalísticos. Vida que segue.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com

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Comentários

luis augusto on 25 julho, 2015 at 11:19 #

E Obama provavelmente já sabia disso quando disse que “ele é o cara”.


vitor on 25 julho, 2015 at 11:44 #

He he he, seguramente, Luis. De tudo e mais alguma coisa, que certamente a gente ainda nem desconfia.


luiz alfredo motta fontana on 25 julho, 2015 at 12:31 #

E agosto tomou conta de julho!

Tanta safadeza, tamanha ausência de vergonha na cara e cuecas, que não se acomodam sob os tapetes, transbordam das latrinas, contaminam o planalto central.

Os que se calam, reconheça-se, são muitos, atestam a própria ausência de inocência, quando muito. revelam-se cínicos, omissos, cúmplices na pocilga.

Os que não suportam , espera-se a maioria, varrerão as ruas e esquinas no dia 16, se gritarem pega ladrão, provocarão congestionamentos nos aeroportos.

Ano de Ogum, precedido por Xangô, hora de lavar as escadarias dos palácios.

Que os esgotos deem conta!!!


regina on 25 julho, 2015 at 14:06 #

vitor on 25 julho, 2015 at 17:13 #

Obrigado, mana. Leitores do BP também agradecem.


josé valverde on 25 julho, 2015 at 23:21 #

Lula garantia contratos casados: execução do projeto + financiamento do BNDES.


luis augusto on 26 julho, 2015 at 6:54 #

Velho Valverde! O BP é mesmo uma grande praça.


rosane santana on 26 julho, 2015 at 11:23 #

O pior de tudo é que uma imensa força tarefa, assessorada por advogados que sempre agiram às escuras, como aas escuras agiam os clientes, para anular a Lava-jato. Estou apostando que vão quebrar a cara desta vez. Se não, boto a viola no saco e vou tomar minha Original, longe disso, lá na minha Pasargada, tomando banho de rio e mar e comendo muito marisco e peixe.


vitor on 26 julho, 2015 at 12:16 #

Luis:

A vizinhança com Por Escrito tornou a praça mais ampla, aprazível e acolhedora. Na verdade, a presença de Valverde (que considero um dos melhores repórteres e editores de Economia que conheço) é realmente algo muito especial.Tomara que a presença seja mais frequente, embora saiba que ele só tem olhos ultimamente para o “Xô Corrupção”, onde informa, comenta e brilha intensamente no Facebook. Viva!


luis augusto on 26 julho, 2015 at 13:50 #

Ró-Ró, não me encha de inveja. A cerveja até que dá para resolver, mas banho de mar e marisco…

Vítor, desconhecia esse espaço de Valverde. Vou ver se dá para acessar, porque nessa matéria sou pré-histórico e linear.

Fizemos eu e ele uma dupla boa nos velhos tempos da Tribuna, ele como subeditor-chefe, ou produtor de notícias, como era chamado o cargo, e eu como repórter.


vitor on 26 julho, 2015 at 15:08 #

Luis

Ontem falei muito com Valverde por telefone e ele lembrou esse belo tempo da dupla na TB. Eu e Margarida pensamos em providenciar um reencontro com cardápio da mesa espanhola. E cerveja bem gelada, “caindo lágrimas”, como você pedia a Naná quando saia da redação para casa. Aguarde.


luis augusto on 26 julho, 2015 at 20:20 #

Não estou pensando em outra coisa.


Maria Lucia on 27 julho, 2015 at 7:45 #

Tudo indica que os métodos de negócios entre governantes e grandes empresas, existentes no Brasil muito antes de Lula da Silva. lembrar que Delfim, Neto foi apelidado de “o ministro dos 10%”. E, que, esperávamos que ele, o método, fosse reduzido, pelo menos, foi exportado. Poderia ser um consultoria, um trabalho de produtor, apresentador. Mas o que pega é a manutenção do nefasto meio de enriquecimento com as propinas. Triste alegre Brasil. Excelente texto Vitor.


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