CLAUDIO LEAL
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O sertão pessoal do violeiro baiano Elomar Figueira Mello, 77, saltou as cercas da Fazenda Gameleira, nos arredores de Vitória da Conquista (BA), e assentou-se na avenida Paulista, numa nova Ocupação do Itaú Cultural. Deste sábado (18) até 23 de agosto, a mostra do acervo do trovador e arquiteto revelará o seu processo composicional, exuberante em óperas, partituras, romances, poemas, fitas, cartas e manuscritos.

O extravio do sertão exige segurança alimentar. Para sobreviver a três concertos no auditório Ibirapuera, neste fim de semana —o terceiro é extra, já que os ingressos para os dois primeiros se esgotaram rapidamente- o músico abasteceu-se de feijão, farinha, pimenta e café, carregados em duas bruacas, as malas de couro dos tropeiros. “Eu já vim pronto, um poeta puro/ Que me desculpem aqueles que não o são”, define-se no poema inédito “Meu Retrato”.

Reconhecido como um dos grandes compositores do país, agregador dos elementos ibéricos e medievais remanescentes no Nordeste brasileiro, Elomar continua a ser um criador de cabras recluso e ascético, nada simpático a aparições midiáticas. Há pouco mais de uma década, as suas entrevistas rarearam. Aos íntimos, queixa-se da banalização das imagens e da predominância de celebridades bestas nos noticiários. Evita ser fotografado e filmado fora dos palcos —se fizerem um favor, até mesmo dentro deles.

Desde o início da carreira, Elomar não desiste de ser irredutivelmente Elomar. Na apresentação do disco “Das barrancas do Rio Gavião” (1973), o poeta Vinicius de Moraes encontrou somente uma incoerência: “A mim me parece um disparate que exista mar em seu nome, porque um nada tem a ver com o outro”.

Os antigos hábitos não se alteraram. Na década de 1970, dirigindo um Fusca, levou carne de bode e um saco de feijão para os cinco dias de concertos no Teatro Vila Velha, em Salvador, sob a produção do músico e professor de história Fábio Paes. Na feira de São Joaquim, como se faltasse algo no farnel, comprou óleo de bode para o cabelo. Assim é chamado carinhosamente por amigos e familiares: “O Bode”.

Crescido entre violeiros e cantadores, Elomar tem a própria idade e a de todas as suas influências: é um homem milenar de 77 anos. No compacto simples de estreia, em 1968, “O Violeiro” estabelecia uma ética: ” Amor, forria, viola, nunca dinheiro/ Viola, forria, amor, dinheiro não”. O álbum “Na Quadrada das Águas Perdidas” (1979) firmou um projeto estético que integra o romanceiro medieval ibérico e o cancioneiro nordestino. Cantigas de amigo, incelenças, toadas e trovas tecem um sertão poético e ancestral.

“Elomar não se limita a reproduzir o que ouve. Ele trabalha com a riqueza da nossa linguagem tradicional, ibérica e sertaneja. É uma criação ‘sertaneza’, como ele diz. Ele radicaliza porque traz essa linguagem sertaneza com a sua sonoridade, com a sua percepção poética. Vejo Elomar no mesmo patamar de Guimarães Rosa”, afirma Jerusa Pires Ferreira, professora da pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Em 2014, Jerusa foi sagrada “Donzela Guerreira” da IV Real Academia, uma sociedade misteriosa criada por Elomar, baseado nos cavaleiros medievais.

“Ele tem aquela coisa de um medievo assentado no sertão, a gesta dos tropeiros, a permanência de uma linguagem móvel dos ciganos, a ideia do movimento, da migração. O que nos últimos tempos me impressionou são os estudos para violão. Sinto em Elomar uma grandeza de uma cultura recriada”, acrescenta a professora.

CONSERTÃO E CANTORIA

Em 1981, a convivência entre o erudito e o popular foi impulsionada pelo espetáculo “ConSertão”, ao lado de Arthur Moreira Lima, Paulo Moura e Heraldo do Monte. A partir dos anos 80, Elomar se enveredaria por óperas, sinfonias e peças para violão solo. A série de discos “Cantoria” —com Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai— contribuiu para a popularização de suas criações.

“Elomar diz que canta num dialeto. Concordo com ele em uma porção de coisas, mas não é dialeto, ele canta a língua viva. É uma linguagem que se manteve mais impenetrável do que a língua falada na urbis, na orla brasileira”, opina o cantador Xangai.

O retorno fonográfico não deve tardar. Acompanhado por violão, flauta e violoncelo, Elomar gravou boa parte de um novo disco intitulado Riachão do Gado Brabo. As gravações devem ser finalizadas ainda este semestre. Como surpresa, dois sambas de juventude, “Naquela Favela” e “Samba do Jurema”.

“A oposição entre campo e cidade está na alma dele”, diz o maestro João Omar, filho do compositor, também presente no concerto Da Carantonha Mili Légua a Caminhá, no Ibirapuera. “A figura do trovador é universal, estava nas culturas árabes e ciganas. É uma espécie de marginal dos centros urbanos. Meu pai não tem nada contra a Bossa Nova, mas não é o estilo que ele gosta. Acha demasiado urbano. A composição dele tem voz ancestral, vem dos hebreus, dos sefarditas”.

O selo de “música popular brasileira” não agrada a Elomar. “Dá a ideia de ser uma música mais ligeira, dos cotidianos mais urbanos que rurais. Meu pai ocupou um espaço de inúmeros cantadores, repentistas e artistas regionais, que teriam se perdido. Na época dele não eram tantos. A Bossa Nova estava se instaurando”, analisa João Omar.

Depois de seis meses de negociações, o Itaú Cultural acertou a recuperação do arquivo de Elomar, projeto orçado em cerca de R$ 1 milhão.

Nos últimos dois anos, uma equipe catalogou 1.375 documentos da Casa dos Carneiros, seu bastião na fazenda Gameleira. “A perenidade garante o legado do artista”, argumenta Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural.

“Apesar de Elomar ter uma formação dentro de um padrão conservador, a música ‘O Peão na Amarração’ fala de uma realidade social revolucionária. Ele é um vaqueiro revolucionário, defende a causa dos campesinos, mas com aquele sonho de ‘Na Estrada das Areias de Ouro'”, avalia o compositor Fábio Paes.

‘SHOW, GALINHA!’

Todos os interlocutores evitam o estrangeirismo “show” ao falar das suas cantorias. Na cidade natal, há quem lembre de sua zanga num programa de rádio: “Não faço show. Faço concerto. Show é o que a gente faz com galinha no terreiro: show, show!”.

O músico possui uma presença mítica em Conquista, mas as rádios locais quase não o tocam —e, heresia, preferem os cantores sertanejos modernos. Formado em Arquitetura, Elomar expandiu a sua influência ao projetar a Segunda Igreja Batista, que remete a uma tenda árabe. Na sua fazenda, além de desenhar os currais, criou o Teatro Domus Operae, para os festivais de ópera, e o Teatro Escola Lírica Mineira.

“Elomar é o tipico catingueiro desconfiado. Mas, se você é amigo dele, é amigo pra sempre. Tem que dar uma caminhada para ele conhecer”, comenta o radialista e historiador Elton Becker. Num papo, Elomar pode citar os clássicos Virgílio, Ovídio e Homero, bem como declamar longos trechos do poeta Castro Alves e do dramaturgo inglês William Shakespeare. De formação protestante, conhece a fundo o Antigo Testamento.

Conquistenses ilustres, ele e o cineasta Glauber Rocha jamais trabalharam juntos. Por lamentar essa lacuna, Becker questionou ao amigo a razão do desencontro. “Cabôco, dois gigantes não moram numa mesma caverna”, esclareceu o Bode, sendo outra vez Elomar.

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ARTIGO

Mãe do noivo e o sábado(18/7) brasileiro

Maria Aparecida Torneros

Leio cedo o primoroso artigo do jornalista Vitor Hugo Soares, do site blog Bahia em pauta que, inteligentemente, compara os movimentos da corte em Brasília, aos dias que antecederam o último baile do Império, na Ilha Fiscal, que marcou, em 1889, a queda da monarquia e a proclamação de uma República, ainda que instável, nos quadrantes brasileiros.

Meu 18 de julho é corrido, pois sou hoje a mãe do noivo, e logo mais, entro na cerimônia do casamento do meu único filho, para celebrar sua união civil com a jovem que ele ama, e o farei, feliz, pois meu filhote ateu, físico e astrônomo, se casa, numa casa de festas, reunindo amigos e familiares, e, de braços dados, o conduzirei ao palco da cerimônia, para que ele e ela digam sim à lei dos homens e ao Brasil respeitoso e honesto onde trabalham e constroem o futuro.

Li mais, e vi ontem, a fala do presidente da Câmara Federal, usando a prerrogativa de interromper a novela I love Paraisopolis, invadindo as quebradas do Grego e do Já Vai, para tentar expressar os feitos do primeiro semestre do seu trabalho, depois de ter se declarado rompido com o governo federal, e jogado mais lenha na fogueira da crise ou embaraço da política brasileira deste nosso julho, o da quase Bastilha nacional, onde cabeças do poder público ou privado vão rolar, já estão descendo ladeira abaixo, e nossa Revolução embora não tão francesa, esbanja cenas de revolta cidadã e caminha para culminar no tradicional agosto que marca a história brasileira desde o suicídio de Vargas.

Senhoras e senhores, que importa aos habitantes das periferias que os da Corte disputem Poder e os das empreiteiras os tenham comprado e sustentado à custa de corrupção e desvio de astronômicas verbas? Sim, importa sim, exatamente porque as merendas das escolas somem, os hospitais não atendem a contento e o transporte público os espreme, massacra e oprime no dia a dia distante da mordomia dos carros e vôos oficiais.

A cidadã do interior do Paraná que liderou um movimento contra o aumento dos salários dos vereadores, não está sozinha. Como ela, milhões de brasileiros estão conscientes do embaraço, ou melhor, “vergonhaco ” , que se tornou o jogo do poder nacional, na base do toma lá dá cá escancarado e desrespeitoso, aliás, digno mesmo de cadeia não só em Curitiba, Papua, Tremem e ou alhures.

Panelaço é pouco. Barulhaço também. Indignação e ação, justiça e mudanças cabem mais, faxina geral também. Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor e instalar, definitivamente, uma República Federativa do Brasil que forme cidadãos legais, criaturas que cumpram e respeitem leis, que mostrem ao mundo que nossa Nação não suporta mais bastidores podres e quer lavar toda a roupa suja, extirpar práticas doentes e contaminadas do exercício dos Três Poderes, e, fiscalizar com punição adequada, os que, por pura sem vergonhice nos assintarem com deslavadas mentiras ou invadirem nossos lares com falas manipuladoras justamente na hora em que o Grego e o Já vai expressam a linguagem do Poder paralelo da violência e do tráfico que aterroriza os que não dispõem de carros oficias, motoristas, seguranças, horário para falar em rede nacional, trânsito de influência para salvar a pele das balas perdidas ou “guilhotinaço” para, em praça pública, decapitar, como em França, de séculos atrás, os que zombaram do povo. I love Paraisopolis, Babilônia, periferias em geral.

Mas hoje, sou só a mãe do noivo, e torço para que ele e minha nora me presenteiem com netos que possam um dia se orgulhar do Brasil decente, justo, e livre.

Cida Torneros é jornalista e escritora. Mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Cida.

Dá-lhe Adriana Varela! A garganta con arena em plena forma! Bajo Fondo, grande representante da música moderna de Buenos Aires também.

BOM DOMINGO!!!

(Vitor Hugo Soares)

DEU NO BLOG POR ESCRITO (DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

OPINIÃO

Legitimidade é exigência para “impeachment”

Quando disse que “não há espaço para aventuras antidemocráticas na América do Sul”, a presidente Dilma Rousseff falava a dignitários do continente, mas só podia estar pensando em si mesma.

A presidente tem razão. Não há a menor possibilidade de um golpe no Brasil, que é, apesar de todas as suas debilidades, um país maduro no campo institucional, precisando, contudo, com esse instrumento poderoso, avançar nas demais áreas.

A presidente só não pode confundir golpe com a iniciativa legítima e constitucional de um processo de impeachment, que ela poderia sofrer caso tivesse, pessoalmente, cometido crime tipificado entre aqueles que determinam o afastamento do cargo.

Fora disso, Dilma não tem por que temer. Uma iniciativa dessa natureza tem de ser constitucional, mas também, como dissemos, legítima, e isso significa que não haverá impeachment para atender aos interesses subalternos do deputado Eduardo Cunha e do senador Aécio Neves.

O presidente da Câmara dos Deputados nada mais fez, desde a posse, do que manipular leis e regimentos para levar o país não se sabe a que destino onírico, de consequências igualmente imprevisíveis. O senador encarnou da noite para o dia o papel de obcecado pelo poder.

Ao lado do coadjuvante Renan Calheiros, que ocupa a presidência do Senado depois de dela ter sido apeado desonrosamente, Cunha já entrou no índex da nação, que segue seus passos e não poderá admitir um novo Severino Cavalcanti.

Substabelecimento urgente

A propósito, Dilma tá mal de advogado. Ter Cristina Kirchner e Nicolás Maduro defendendo os valores democráticos é dose.

l

jul
19
Posted on 19-07-2015
Filed Under (Artigos) by vitor on 19-07-2015


Aroeira, no jornal Brasil Econômico

DEU NO PORTAL TERRA BRASIL

Um dia após ser o centro do noticiário nacional, com um anúncio de rompimento com o governo e um pronunciamento em cadeia nacional de TV e rádio , o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB) , “desabafou” no Twitter, com 20 tweets seguidos.

Cunha procurou esclarecer nas publicações – que demonstravam pressa, com erros de digitação – denúncias de que ele teria tido uma conversa com o vice-presidente Michel Temer (PMDB) a respeito de seu rompimento com o governo e sobre uma “futura citação de Temer por delatores”.

“Não tratei com ele em nenhum momento de futura citação dele por delatores”, afirmou Cunha. “É importante reafirmar que minha decisão de ontem foi de caráter e em meu nome pessoal”, ressaltou.

O presidente da Câmara aproveitou a “chuva de tweets” para dizer que não mudará sua postura na liderança da Casa. “Vou me conduzir da mesma forma que venho me conduzindo, com independência e harmonia com os demais poderes”, publicou. “Não existe pauta de vingança e nem pauta provocada pela minha opção pessoal de mudança de alinhamento poítico”, garantiu.

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