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Postado em 18-07-2015
Arquivado em (Artigos) por vitor em 18-07-2015 13:59

CRÔNICA
Anita 7 x 1 Gal Costa

Janio Ferreira Soares

Quando o Brasil perdeu para a Itália na Copa de 82, eu tinha exatamente a idade de minha filha quando viu a nossa Seleção ser massacrada pela Alemanha. As coincidências terminam aí. A goleada, no entanto, continua em outros aspectos.

Na época de minha justa tristeza pela derrota do timaço de Telê, a vida corria no ritmo das passadas de Sócrates e as lágrimas derramadas foram basicamente por eu ter visto o belo ser interrompido por uma dessas bobeiras do acaso, como no dia em que um inesperado caminhão jogou uma camada de poeira em minha frente bem na hora em que a velha Nikon ia imortalizar num slide um arco-íris duplo se formando numa quase chuva a uns dois quilômetros de mim.

Já a transitória vergonha de Julia foi logo abafada por centenas de brincadeiras de internautas em cima da inusitada situação, fato que, pelo menos, lhe ajudou a relaxar e a não se deixar levar por nenhum tipo de desilusão. Gol da tecnologia.

Eu sei que corro o risco de ser chamado de velho saudosista, rabugento ou coisa parecida, mas os 7 a 1 que a Alemanha sapecou na gente – e que fez seu primeiro aniversário na semana passada -, foi apenas o apogeu da mediocridade que há muito cruza bolas, discos, shows, livros, novelas e modismos na grande área da minha curtíssima paciência.

Sem mais espaço no saco e sem o menor preparo físico e mental para suportar esse bombardeio de inutilidades, só me resta contar com a ajuda de uns dois bodes velhos que formam comigo uma linha de zagueiros (sentados e com um copo na mão), que continua mandando para a linha de fundo todas as idiotices que diariamente tentam penetrar nos nossos derreados flancos.

E tome-lhe chutão nos sites que pedem uma conferida na barriga trincada de alguém que nem conheço; ou um clique em Luciano Huck e Angélica no Shopping (ai que saudades de Airton e Lolita Rodrigues); ou nos repórteres da Globo querendo me convencer de que aqueles boçais chegando nos estádios com seus fones coloridos tocando um gospel (para demonstrar intimidade com Jesus) me representam; ou que a capa que Romero Brito fez do CD de Naldo é arte (eles já ouviram falar do também pernambucano Francisco Brennand?).

Só pra não perder o embalo, em 82, no programa O Cassino do Chacrinha, passaram por lá, entre outros, Djavan (lançando Samurai, Sina e Açaí); Caetano Veloso (lançando Queixa, Meu Bem, Meu Mal e Trem das Cores); Gilberto Gil (lançando Drão, Esotérico e Andar Com Fé); e Gal Costa (lançando Festa do Interior, Dom de Iludir e Bloco do Prazer). Pagode? O Velho Guerreiro chamava Clara Nunes e Paulinho da Viola. Zezé di Camargo e Luciano? Graças a Deus ainda bebendo ovo na casa de Francisco. Anita? Só se fosse a Ekberg, aquela deusa sueca que Fellini imortalizou banhando-a com seu vestido preto na Fontana di Trevi – no inesquecível La Dolce Vita.

Agora eu peço licença pra calçar minha chuteira porque hoje é sábado e logo mais eu vou dar umas bicudas nos convidados “cabeça” de Serginho Groisman. Amanhã tem Esquenta.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio Sâo Francisco.

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