Dilma com Lula no Alvorada:de mal?


Dois personagens da semana da Politeia

ARTIGO DA SEMANA

Barco faz água em Brasília, violinos na Bahia

Vitor Hugo Soares

Se quiser entender os motivos de tanto barulho na Corte, preste bem atenção nos sussurros e gemidos que se escutam nas províncias.

Este singelo pensamento político – provavelmente desconsiderado às vésperas do baile da Ilha Fiscal, no Rio de Janeiro, quando o Império se findava – ganhou incrível atualidade e relevância nesta semana da passagem emblemática e fulminante da Operação Politeia. Agentes da Policia Federal cumprindo mais de 50 mandados de “busca e apreensão” por várias regiões do país.

É que a expressão do jargão jurídico, policial e das redações, antes só era utilizado, no Brasil, em casos envolvendo receptadores de furtos, estelionatários notórios, “subversivos” no tempo da ditadura, ou simples ladrões de galinhas. Jamais em casos de figurões do poder e da política nacional. Tim Tim !!!. Saudemos com um brinde “Sua Excelência, o fato”, à exemplo do que costumava dizer o saudoso deputado Ulysses Guimarães. Um brinde de fé e confiança na firmeza, agilidade, desassombro e vigor das instituições democráticas e republicanas estáveis. Nada, nem ninguém, acima da lei.

Este o principal ensinamento que fica deste mais recente e impactante desdobramento da Operação Lava Jato, conduzida com desvelo e incontestável competência profissional pelo juiz paranaense Sérgio Moro. No caso em pauta, porém, repita-se a bem da verdade dos fatos e da justiça, a Politeia foi cobrada pela Procuradoria Geral da República e a sua execução determinada ao comando da PF por três ministros do Supremo Tribunal Federal: Teori Zavaski, Celso de Melo e o presidente da Corte, Ricardo Lewandowski.

O feito segue causando barulho ensurdecedor e arrepios na espinha pelos quatro cantos de Brasília e do País. A demonstração mais visível e cabal disso foi o tão veloz quanto surpreendente pouso do ex-presidente Lula, na capital federal, já na terça-feira, 14. O fundador e líder maior do PT, padrinho e guia da mandatária, tem atuado nesta fase cavernosa da vida nacional (por mais que ele e os seus neguem ou tentem disfarçar) como espécie de eminência parda do governo (para dizer o mínimo).

Um tipo que na fase pré-Golbery era chamado nos ambientes palacianos e na imprensa, de “ministro sem Pasta”. Aquele que manda e atua por todo lugar: na política, na economia e, principalmente, nos “negócios do governo”. Nos “arranjos”, para usar a expressão preferida do governador petista da Bahia, Rui Costa.

Com a presidente Dilma, – até a véspera de sua mais recente passagem pelo Planalto, para conversar e dar conselhos, – se dizia que Lula estava “de mal”. Quase irremediavelmente separados e rompidos. Depois da passagem da Politeia por Brasília e da movimentação barulhenta ou silenciosa que se seguiu às “buscas e apreensões”, até na velha Casa da Dinda, de Collor de Mello, acredite nisso quem quiser.

Antes de baixar no palácio presidencial, para tentar acalmar o barulho no poleiro do poder (desculpem os de ouvidos mais sensíveis a expressão popular “politicamente incorreta”), o fundador do PT fez uma parada estratégica na Esplanada dos Ministérios. Procedente de São Paulo, território da FIESP, na poderosa Avenida Paulista, tambor de ressonância dos donos do dinheiro na Indústria, nos negócios do Comércio e, principalmente, das monumentais transações financeiras dos Bancos. Ao que se diz, nem sempre à boca pequena, o último sustentáculo do governo petista de Dilma, diante da ameaça de um impeachment.

Amaldiçoado seja quem pensar mal dessas coisas, diriam os irônicos franceses.

Em seguida, já se sabe, veio o almoço com Dilma e vários ministros, no Palácio da Alvorada. Ali , entre um prato e outro, foram servidos também os desabafos e as advertências. Lula, sobre a crise atual do governo da afilhada, disse que “a situação vai piorar mais ainda”. Dilma concordou com a análise e com o recado, mas não passou batida. Disse que, infelizmente, nem ela nem seu ministro da Justiça podem conter o avanço da Lava Jato, nem impedir as batidas da Polícia Federal. Salve-se quem puder, portanto.

Barulho na corte, ampliado pelo surpreendente fato seguinte, do próprio ex-presidente Lula (depois de Collor) ter virado alvo de investigação criminal.

Sussurros na província da Bahia, que também merecem muita atenção. O senador Walter Pinheiro, fundador e nome de proa do petismo nacional, ex-líder do governo Lula no Congresso, dá sinais cada vez mais explícitos de que se prepara para deixar o barco. Falta só definir-se pelo novo pouso partidário, diante de muitas e tentadoras propostas recebidas. Depois de longo silêncio nas conversas com a imprensa, semana passada, em entrevista na Radio Metrópole, comparou drasticamente o quadro atual de seu partido e do governo Dilma, com a cena famosa da orquestra na hora do naufrágio no filme “Titanic”.

“Não ficarei esperando o violino tocar, para afundar como o violinista do Titanic”, disse o senador. Se um petista como Walter Pinheiro já proclama de público uma frase como esta, quem restará para defender o PT e o governo Dilma na hora do desenlace? Responda quem souber.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail:vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Taciano Lemos de Carvalho on 18 julho, 2015 at 8:28 #

Bem fará o senador Walter Pinheiro se pular fora desse barco o quanto antes. Mas se demorar a fazê-lo, vai pro fundo também.

Quando víamos fotografias de Lula, e também Dilma, com personagens como Renan, Sarney, Eduardo Cunha, Eike, Delfim, Maluf e coisas tais, sabíamos que faziam parte da tripulação do Titanic Brasil. Eles não acreditavam, mas alguns vão naufragar. Acho que pelo menos o Cunha (ou não?). Os outros, infelizmente, devem ser salvos, estropiados, mas resgatados mais adiante. Se os mensaleiros foram, por que não seriam eles salvos?

Eles se salvam, os brasileiros afundam. Ou alguém ainda acha que esses personagens citadas acima são brasileiros?


Cida Toneros on 18 julho, 2015 at 10:25 #

Primoroso artigo!


Janio on 18 julho, 2015 at 10:49 #

Vitor, querido, este sabadão começou, como diria meu tio Lindemar, cheio de “ondchia”. Primeiro vem esse boleiro na voz de Tania Alves, que, se hoje, poderia muito bem ser anunciado por dona Nenê no serviço de alto-falantes de Glória, mais ou menos assim: “Bom dia, meus caríssimos ouvintes da rua Nova, da rua Velha e do sítio de Zé Ferreira, onde me disseram que está chegando a minha voz quando o vento sopra. Hoje é sábado, dia de descanso, de jogar um baralhinho e de tomar um rabo de galo no bar de Miguel. Pra você que está acordando agora vamos ouvir, na voz de Tania Alves….. Coração Bolero. Esta canção, como o nome diz, vai para alguns corações apaixonados que ela deixou por aqui quando de sua caliente passagem para fazer o papel de Maria Bonita numa minissérie da Globo, cujos nomes dos donos eu sei, mas não digo nem sob a mira da pistola de Lampião”.
Depois vem seu artigo, como sempre na mosca. Aí eu vejo na Folha de São Paulo o nosso Claudinho arrebentando com um texto sobre Elomar (http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/07/1657146-universo-mitico-e-medieval-de-elomar-finca-bandeira-em-sao-paulo.shtml), que me fez lembrar de quando ele teve aqui e se retirou do palco antes de tocar a primeira música por conta de uma meninada que pedia pra ele cantar Nega do Cabelo Duro (era o auge do Fricote). Mas isso teve um lado bom, pois varamos a madrugada tomando Old Eight (o dele com limão) e ouvindo seus deliciosos causos.
E pra completar, você deve se lembrar daquelas manhãs de julho quando as folhas das mangueiras começam a cair abrindo caminho para as espadas, rosas e cecís (essa era uma especial que só tinha no Marí e foi batizada assim pelo meu avô Dedé, nem precisa dizer por causa da doçura de quem). Pois hoje o dia amanheceu extamente assim. Tim Tim!


luiz alfredo motta fontana on 18 julho, 2015 at 11:47 #

Caro VHS

Como de hábito, sem pedir licença, encosto minha grisalhice no balcão de tua pousada de todos os sábados.

Hoje confesso, um pouco mais desalentado. Um misto de tristeza, que é minha assinatura, com traços fortes de desânimo, com toques de desesperança.

Lá em Minas, entre os encantos de seus morros, nesta hora, em bares perdidos de sua pequenas cidades, por vezes me encontrei sorvendo uma daquelas cachaças, a Meia-lua, a Lua Cheia, a Beija-Flor, a Seleta, entre tantas, ouvindo, em meio à preguiça, causos da sutileza política de minas, mas isso já faz tempo, isso já não é realidade. Como manter-se sútil, e em terra de Aécios e Pimentéis?

Que dirá então em São Paulo, entre Mercadantes, Serras, Fernandos e Temers?

Na Bahia, de Negromontes, Wagners e escondidos Gabrilellis?

Nenhuma sutileza.

As ausências de caráter, de compostura, de estatura, compõem o cenário, o enredo é de Mario Puzo, a canastrice é suprapartidária, a canalhice também.

Caro VHS, que a sombra das mangueiras poéticas de Janio, neste julho, quase agosto, nos abrigue!

Tim Tim!!!


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