Luiz Leal:Adeus a um símbolo


Sebastião Nery:um livro testemunho da história.

ARTIGO DA SEMANA

Livro de Nery e perda da Bahia

Vitor Hugo Soares

“Nada reneguei do país em que nasci e no entanto nada quis ignorar das servidões do meu tempo”
(Albert Camus, citado pelo jornalista baiano e cidadão do mundo, Sebastião Nery, no livro “Ninguém me Contou, eu vi”, o almanaque, como o autor prefere chamar, com seis décadas de História do Brasil (política principalmente), de Getúlio a Dilma, que Nery viveu e narra intensamente, ao pé dos fatos. A exemplo do episódio que dá título à obra, ocorrido em um 1º de Maio para nunca esquecer, com a presença de Ulysses Guimarães, em Salvador.)

“É de fazer chorar”. Nada melhor nem mais oportuno me ocorre para começar estas linhas além dos versos do frevo “Quarta-Feira Ingrata”, do músico, compositor e cantor pernambucano Luiz Bandeira. “A inflação dispara no país que derrapa ladeira abaixo, a braços com uma crise econômica, politica e moral impossível, ainda, de avaliar onde (e em que) vai dar.

Enquanto isso, a mandatária Dilma Rousseff, do PT, passa o comando do governo para os que efetivamente têm poder e o exercem atualmente (em geral contra ela), em estranhas e desencontradas armações. Pega o avião presidencial, uma semana depois de retornar da complicado périplo costa a costa aos Estados Unidos (de resultados incertos e duvidosos) e viaja para bem mais longe ainda: rumo à simbólica região de Ufá, na Rússia, para o encontro com os colegas dos BRICs, naquela que se poderia chamar de “a cúpula dos desesperados”, incluindo a China, maioral do pedaço, cuja economia começa a golfar.

Com a presidente ausente (e não só pela viagem aos domínios de Putin), sob o império do óbvio e da falta de originalidade – e diante do insucesso das medidas para laçar e segurar o dragão -, lança-se a culpa mais uma vez, por tudo de pior, sobre a cebola, o alho e o feijão vendidos nas feiras e mercados.

“É a estiagem”, repete Dilma pela enésima vez, agora na Russia, à título de desculpa mal alinhavada , aos jornalistas e colegas dos BRICs, para o desastre que se desenha em apenas sete meses de seu segundo mandato. Os colegas da cúpula dos países emergentes quase nem dão bola. Parecem mais preocupados com as suas próprias dores de cabeça, em lugar de ver Dilma “costeando o alambrado”, para usar a expressão do gaúcho Leonel Brizola, sem vontade ou sem capacidade e poder para encarar os verdadeiros dilemas e motivos que explicam seu governo com apenas 9% de aprovação popular, e ela própria na incômoda situação de uma das governantes mais rejeitadas da história republicana do Brasil, incluindo o defenestrado Fernando Collor.

Para não repetir apenas a mesma ladainha de sempre, a vala comum da pobreza dos mesmos argumentos frágeis e tortuosos, desta vez parte da culpa foi atirada no aumento do preço da pule das loterias oficiais. Nas opções do jogo de azar que se multiplicam nas filas de aposta. A fé de um dia bamburrar. Enganos que proliferam como pragas em tempos temerários de crise , de falta de rumo e de trabalho, quando as opções de emprego rareiam a cada novo levantamento do IBGE.

Antes do ponto final, um interlúdio para falar de coisas da Bahia que remetem igualmente à vida, ao jornalismo, à política e à cultura nacionais. A começar pelo livro “Ninguém me Contou, eu vi”, do sempre polêmico mestre da narrativa escrita (oral também), Sebastião Nery. O “almanaque”, como escreveu o autor na honrosa dedicatória, reúne mais de meio século da história brasileira vivida ao pé do fato, sem google e sem internet.

Um livro de referência, posso afirmar, que me foi trazido do Rio de Janeiro pelo jovem e brilhante jornalista Claudio Leal. Ele “abriu a gaveta dos alfarrábios” para a composição da obra, registra Nery na principal dedicatória do livro de 527 páginas, cada uma mais rica, bem humorada e instigante. Por exemplo: o texto magistral sobe episódio que dá título à obra (que presenciei, também, ao lado do colega Ricardo Noblat, ele então na VEJA e eu no Jornal do Brasil, sucursais de Salvador). No Primeiro de Maio de 1978, do cerco montado por policiais militares e seus cães mais ferozes, açulados a mando dos delegados da ditadura no estado, contra Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Rômulo Almeida, Newton Macedo Campos e Luiz Leal, entre outros nomes históricos na resistência na Bahia e no país, que tentavam impedir a realização de um ato público com presença do então presidente nacional do MDB na sede estadual do partido. Não conseguiram. Ulysses fez um dos mais belos e valentes pronunciamentos de sua vida de grande tribuno, publicado depois no livro “Rompendo o Cerco”. Prólogo antológico de Sebastião Nery.

Falo destas coisas em artigo sobre as mazelas do governo Dilma” quando acabo de retornar do cemitério Jardim da Saudade, na capital baiana, onde foi sepultado Luiz Leal, falecido aos 88 anos. Político de honra e coragem, médico e humanista. Modelo de homem público como poucos em sua terra. Exemplo de caráter, ética, probidade e coragem cívica. Avô de Claudio Leal, amigo e personagem de Nery a vida inteira.

É a Leal que dedico estas linhas: de alma, fé, confiança e coração.

Vitor Hugo Soares é jornalista., editor do site blog Bahia em Pauta.E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

jul
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R.I.P., imenso Sharif.
BOM DIA

DEU NO BLOG POR ESCRITO (DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

Desvio de (re) curso

Em plena agonia do São Francisco, o prefeito de Bom Jesus da Lapa, Eures Ribeiro (PV), quer saber o que foi feito do R$ 1,1 bilhão destinado às obras de transposição e revitalização do rio. Eures não sabe que, no Brasil, o rio só corre pro mar, no outro sentido.


Sete Vidas:uma novela de grandes intérpretes

DO UOL/FOLHA

Podemos conversar?”
Essa foi a frase mais ouvida em “Sete Vidas”, a novela das seis da Globo que terminou nesta sexta-feira, 10/07. A trama repleta de DRs (discussões de relação) primou por um texto de altíssima qualidade, profundo e sutil, o grande diferencial da autora, Lícia Manzo, ao retratar relações humanas com muita sensibilidade. Talvez daí se explique a legião de fãs ante personagens e dramas de fácil identificação e simbiose.

Idealizada para ser curta – teve apenas 106 capítulos, quatro meses no ar –, se justifica a sensação de “quero mais” de seu público. Mas, convenhamos, a história do encontro das sete vidas concebidas artificialmente a partir de um mesmo pai biológico rendeu tudo o que tinha para render. Já nas últimas semanas, percebeu-se uma certa enrolação, que só não incomodou por conta de sua galeria de personagens cativantes.

Didática na medida certa, a novela também abordou temas espinhosos, como alienação parental e homossexualidade e preconceito – neste último exemplo, sem levantar bandeiras ou ser pretensamente panfletária. Um grande destaque para Regina Duarte, em uma coadjuvante que brilhou pela interpretação da atriz e pelo texto da autora. Também – o até então desconhecido do grande público – Fábio Herford, ao dar vida ao sensível Eriberto, um personagem riquíssimo que rendeu bem.

Produção caprichada e uma das melhores trilhas sonoras do últimos tempos. E o que seria do ótimo texto se não fosse um elenco e uma direção de atores à altura? E “Sete Vidas” preencheu os requisitos. Direção geral de Jayme Monjardim e atores bem escalados. Débora Bloch em uma de suas melhores interpretações na televisão. Gisele Fróes e Maria Eduarda Carvalho repetindo tipos que defenderam muito bem na novela anterior da autora, “A Vida da Gente” (2011-2012). Também um grande destaque para Cláudia Mello, Cyria Coentro, Malu Galli e o novato Michel Noher (o argentino Felipe).

Ao mesmo tempo, alguns bons atores que poderiam render bastante, não passaram de figuração de luxo: Selma Egrei, que era a mãe das personagens de Débora Bloch e Malu Galli, simplesmente sumiu da trama. Também os pais de Felipe, vividos por Jean-Pierre Noher e Lígia Cortez.

“Sete Vidas” também poderia se chamar “A Vida da Gente”. Lícia Manzo tem um texto naturalista, que se apropria da realidade de forma folhetinesca, mas sem os maniqueísmos, exageros ou arroubos do folhetim, sem grandes vilões, apelações, correrias ou acontecimentos catárticos para chamar a atenção do público. A autora conquista apenas pela sutileza dos diálogos e dos dramas universais vividos pelos personagens, que bem poderiam ser nossos amigos, parentes ou vizinhos, eu ou você.

Aqui cabe apenas uma crítica à autora, algo já percebido em “A Vida da Gente”. Seus dramas são universais e acometem todos os gêneros, mas percebe-se um maior afinco de Lícia ao retratar personagens femininas em detrimento aos masculinos, em sua maioria reconhecidos como fracos, emocionalmente imaturos e/ou dependentes, ou mesmo “bananas”.

Entende-se que a audiência da novela das seis é – em teoria – predominantemente feminina. Mas já que o estilo da autora é naturalista, uma melhor dosagem caberia bem, sem desmerecer nenhum gênero. Ainda mais porque Lícia Manzo tem um texto digno de um horário mais nobre, em que o público é bem mais amplo do que apenas as telespectadoras do horário das seis. Nossa televisão carece de roteiristas assim.

Audiência: “Sete Vidas” foi bem de audiência, fechou com uma média final de 19,4 pontos no Ibope da Grande São Paulo, elevando em dois pontos a média do horário das seis, quando comparada com as novelas anteriores – “Boogie Oogie” 17,4; “Meu Pedacinho de Chão” 17,78; “Joia Rara” 18,4. Fonte: Fábio Dias, blog “O Cabide Fala”.


jul
11
Posted on 11-07-2015
Filed Under (Artigos) by vitor on 11-07-2015


Caó, no portal de humor gráfico A Charge Online

jul
11
Posted on 11-07-2015
Filed Under (Artigos) by vitor on 11-07-2015

DO EL PAIS

Três lendas rodeavam o ator egípcio Omar Sharif: sua habilidade com as mulheres, seu mau-humor homérico e seus dias que começavam ao meio-dia. Todas estavam certas, e todas bem visíveis. Assim como seus gostos refinados, seu garbo e sua paixão pelo bridge. Toda essa sabedoria no viver e na atuação terminaram na tarde desta sexta-feira em um hospital do Cairo, onde a lenda do cinema faleceu aos 83 anos devido a um ataque cardíaco.

Qualquer entrevista com o ídolo implicava, primeiro, em esperar que o protagonista de Doutor Jivago, Che!, Funny girl, Os Cavaleiros do Buzkashi e dezenas de filmes egípcios, o homem que surgia da imensidão do deserto em Lawrence da Arábia, assinasse autógrafos para todo lado: até seus últimos dias manteve sua fama mundial. Nascido em Alexandria em 1932, estreou no cinema em 1954 com Shaytan al-Sahra, e quando a equipe de David Lean chegou ao Egito para rodar parte de Lawrence da Arábia, em 1962, seu papel do xeque Ali lançou-o no cinema mundial. Graças àquele drama ganhou um Globo de Ouro e sua única candidatura ao Oscar. O segundo Globo de Ouro resultou de outra colaboração com David Lean: Doutor Jivago.

Sharif falava um espanhol preciso: quando ganhou algum dinheiro trouxe sua família a Madri, e até a morte de sua mãe, em 1998, o ator passava longas temporadas na Espanha. “Não voltei porque me dói muito a lembrança. Embora tenha sobrinhos e sobrinhos netos madrilenhos”, recordava no festival de Granada em 2009. Ainda em Madri, no bairro de Salamanca, funciona a loja de camisas de algodão egípcio Sharif.
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O ator sempre morou em hotéis, com poucas posses, e até o início deste século, como bom jogador apaixonado, movia-se de torneio em torneio de bridge. Escrevia sobre esse jogo de cartas no Chicago Tribune. “Cheguei a perder um milhão de dólares em uma noite. Parei porque me centrei em meus netos. Meu filho Tarek vive no Cairo com três filhos”. Embora tenha continuado a trabalhar até dois anos atrás, quando foi diagnosticado com Alzheimer (seu último filme é Rock the Casbah, de 2013), era muito crítico com o passado. “Doutor Jivago era mediano, a segunda parte de O Senhor Ibrahim e as flores do Corão sobrava… Só salvaria alguns de meus primeiros filmes com Youssef Chahine e Lawrence da Arábia”. Não ia mais ao cinema. “Só me atraem na televisão os filmes mudos de Chaplin”.

Nascido cristão – converteu-se ao islã para se casar – , Sharif falava muito sobre o entendimento entre religiões e, ao final, se definia como ateu: “Mas sou bondoso e quando as coisas iam mal, Deus me mandava filmes para que eu voltasse a ganhar dinheiro. Suspeito que na Espanha não me entenderiam, e no Egito me matariam”.

“Do meu ar de galã”, confessava em Granada, onde recebeu um prêmio do Festival de Cinemas do Sul, “já não resta nada. Desde 2004 não tenho namorada. Bom, agora sim, duas de 35 anos, uma no Cairo e outra em Paris, mas saímos para jantar de vez em quando. Ao final, damos dois beijos na bochecha e vamos cada um para sua casa”.

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