Luiz Leal (com o neto jornalista Claudio Leal)
no depoimento à Comissão da Verdade na Bahia

LUIZ LEAL: MORRE UM EXEMPLO DE HOMEM PÚBLICO

Depois de largo período de internamento médico e cuidados especiais em casa, ao lado de familiares, a Bahia acaba de perder um dos seus filhos mais ilustres, Luiz Leal (88 anos). Velório será a partir das 17h, na Câmara de Vereadores de Salvador, Praça Tomé de Souza (Municipal). O sepultamento de Leal será amanhã (10) , às 11h30, no cemitério Jardim da Saudade , bairro de Brotas.( De Maria Olívia Soares, jornalista, no Facebook)

Nascido em Salvador, em 1º de setembro de 1926, Luiz Leal formou-se em Medicina na Universidade da Bahia, em 1951, e iniciou sua vida pública aos 38 anos, elegendo-se pelo PSD para a Câmara Municipal de Salvador. Em 1964, foi um dos dois vereadores que votaram contra o impeachment do prefeito Virgildásio de Senna, deposto pelo Exército.

Da tribuna da Câmara, apesar das ameaças de prisão, fez um duro discurso em defesa da legalidade – um dos primeiros atos públicos contra o golpe militar na Bahia. “O eleitor não me conferiu poderes para cassar seu voto. Nem me permito atingir esse nível de arrogância. Os homens não se afirmam na rotina da vida cotidiana, senhores vereadores, mas em momentos graves como este”, discursou. Depois de depor na Sexta Região Militar, respondeu a um arrastado inquérito.

Em 1965, Leal participou da fundação do MDB estadual. A partir de 1966, assumiu uma cadeira na Assembleia Legislativa, em mandato alinhado com o movimento estudantil, os sindicatos e os setores progressistas da Igreja.

Presidente do MDB em Salvador, conseguiu unir políticos, estudantes e operários na primeira grande manifestação baiana contra a ditadura, no Primeiro de Maio de 1968. Com Josaphat Marinho, promovia debates em bairros populares. Em virtude de sua liderança política, foi enquadrado no AI-5 em 14 de março de 1969, sob a acusação de “levantar o ânimo do povo contra o movimento militar de 1964”. O Conselho de Segurança Nacional (CSN) cassou seus direitos políticos por 10 anos; em seguida, outro ato institucional o aposentou compulsoriamente do serviço público.

Leal não deixou de atuar na política. Em seu consultório médico, no Largo de Roma, em Itapagipe, atendeu a militantes clandestinos. Nos anos 70, aproximou-se do grupo do deputado federal Chico Pinto, dos “autênticos” do MDB.

Com a anistia, filiou-se imediatamente ao MDB, transformado em PMDB, no retorno do pluripartidarismo, em 1980. Secretário-geral e presidente do partido, Leal foi uma das principais lideranças baianas durante a redemocratização, ao lado de amigos e companheiros como Chico Pinto e Rômulo Almeida, entre outros. Em 1984, atuou como organizador do movimento “Diretas-Já” no Estado.

Em 1986, articulou a candidatura de Waldir Pires ao governo estadual e retornou à Assembleia Legislativa como um dos deputados mais votados. Presidiu a Comissão Pró-Constituinte. Em 1989, coordenou na Bahia a campanha presidencial de Ulysses Guimarães, de quem era próximo. No final do mandato, sem reeleger-se, escreveu uma carta amigável a Ulysses, agradecendo as lutas em comum e justificando a desfiliação do PMDB, que iniciava uma virada programática. Ingressou então no PDT liderado por Leonel Brizola.

Leal exerceu seu último cargo público entre 1993 e 1996, na Secretaria Municipal de Ação Social de Salvador, na gestão de Lídice da Mata. Em 17 de dezembro de 2013, prestou depoimento na Comissão da Verdade da Assembleia Legislativa da Bahia sobre suas atividades políticas na ditadura. O ex-prefeito de Salvador Virgildásio de Senna, desposto em 1964, compôs a mesa da oitiva. Em 31 de março de 2014, a presidência da Assembleia lhe devolveu, simbolicamente, o mandato de deputado.


DEU NO JORNAL TRIBUNA DA BAHIA

Por David Mendes

As críticas que o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), tem feito ao PT e ao governo da presidente Dilma Rousseff (PT), nos últimos eventos públicos de que tem participado (as mais duras e recentes na entrega das obras de contenção de desabamentos encostas na Baixa do Cacau e de mercado popular no subúrbio), tem gerado a ira de diversos petistas baianos.

Na semana passada, durante a inauguração do Mercado de Periperi, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, o gestor soteropolitano afirmou em seu discurso que a capital baiana nunca tinha visto uma prefeitura realizar tantas obras em apenas dois anos e meio – período desde que assumiu o cargo, em janeiro de 2013.

A fórmula, segundo o democrata, mesmo com a crise que atinge o país e, inevitavelmente, a Bahia e Salvador, era porque na administração soteropolitana não existia “nem mensalão, nem petrolão”, em referência aos dois escândalos de corrupção do país, praticados nos governos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da presidente Dilma.

“Aqui se faz um governo sério, onde se aplica corretamente o dinheiro público. Em Salvador não existe ‘mensalão’, nem ‘petrolão’, nem corrupção. Aqui o dinheiro público é sagrado. Aqui se respeita o dinheiro do povo. Aqui, o dinheiro do cidadão é feito em obras, ações e serviços para a população”, afirmou o democrata.

As críticas direcionadas ao Partido dos Trabalhadores, desta vez, provocaram a ira do ministro da Defesa e ex-governador da Bahia, Jaques Wagner. Ontem, em declaração à imprensa local, o ex-líder baiano, que já teve seu nome cogitado por aliados para disputar as eleições em Salvador em 2016, fez severas críticas ao prefeito com quem se relacionou nos seus dois últimos anos de mandato à frente do Estado.

“Tem prefeito que é só sorriso quando recebe investimento de um bilhão em mobilidade, e depois ataca pelas costas quando inaugura obra local. Nosso governo seguirá investindo (…) sem se importar com o partido, nem com a falsidade do abraço do prefeito”, disparou Jaques Wagner.

Ontem, ACM Neto foi à Rádio Metrópole e, ao tomar conhecimento das declarações do ex-governador, reagiu: “Primeiro, é um desrespeito com as pessoas de Periperi que aguardavam há 40 anos a construção do mercado, e nós conseguimos construir. Ali do lado, em Paripe, tem um mercado que o governo do estado, infelizmente, durante os oito anos do ex-governador não conseguiu qualidade e decência ao Mercado de Paripe”, rebateu.

Para o democrata, não são apenas as obras do BRT, que contarão com patrocínio do governo federal, que resumirão a sua administração. “É a soma de obras locais que faz o trabalho de uma prefeitura. Imagine se eu passasse quatro anos e apenas fizemos o BRT, que nós vamos fazer e que custa R$ 1 bilhão, como disse o governador, mas se eu apenas fizer uma obra de R$ 1 bilhão, as pessoas iriam me matar. Nós temos um programa de mais de mil obras na cidade, para acontecer em todos os bairros que, se somados todos os investimentos, vai dar dez vezes os custos do BRT”, disse ao ressaltar que o governador Wagner desconhece Salvador, já que depois que deixou o governo e se tornou ministro de Estado “tem sido visto pouco aqui em Salvador”.

Sobre as críticas ao PT e ao governo federal, ACM Neto afirmou que jamais permitirá “mordaça” já que ele, como político e cidadão, tem o direito de dar opinião. “O PT tem um problema sério. Depois que chegou ao poder, subiu no salto e deixou de ouvir as críticas. O petrolão e o mensalão estão aí. E não adianta achar que uma, duas ou dez obras servem para atenuar esse grave problema de corrupção que existe no Brasil e foi criado pelo PT. E não interessa, porque quem rouba um real ou um bilhão tem que ser punido. E o PT não tem compreensão disso. Se achava intocável e não aceitam as críticas e a realidade”, alfinetou, ao concluir que tanto ele quanto os brasileiros já estão de “saco cheio” de tanta roubalheira.

“O mensalão foi comprovado, e o Supremo Tribunal Federal botou muitos petistas atrás das grades. No petrolão, o tesoureiro do PT está preso. E o Brasil está de saco cheio disso. Eu também estou de saco cheio disso, porque muito do que estamos vivendo na economia hoje, o desemprego, a inflação, os problemas que o país está enfrentando, deriva da corrupção e dessa estrutura que montou o PT no Poder”, acusou.

Embate atiça aliados

O embate entre o prefeito ACM Neto e o ministro da Defesa, Jaques Wagner, atiçou os aliados de ambos. Do lado dos petistas, diversos aliados saíram na defesa do ex-governador e atacaram o adversário.

Do lado do gestor soteropolitano, apenas o presidente estadual do DEM e deputado federal, José Carlos Aleluia, se manifestou. O parlamentar democrata criticou as declarações de Wagner que, segundo ele, além de antirrepublicanas, foram interpretadas como uma ameaça aos recursos que o governo federal deverá repassar para a implantação do corredor exclusivo para o BRT (Bus Rapid Transit) que vai fazer, inicialmente, o trajeto Estação da Lapa x Ligação Iguatemi-Paralela (LIP).

A contrapartida do Tesouro Nacional para a obra, que tem custo previsto de R$ 1,2 bilhão, é de R$541,8 milhões de recursos federais. “Vejam a forma com a qual o ministro da Defesa e ex-governador da Bahia entende a coisa pública: na sua cabeça, prefeito para receber recurso federal não pode mais criticar o PT”, disse.

Para Aleluia, “é assim que eles operam”. “Wagner, que em oito anos não fez nada na Bahia com recursos locais, em vez de se preocupar com a iminência da queda de Dilma, vem dar um recado-ameaça citando a verba federal empenhada para a mobilidade urbana de Salvador”.

Na outra ponta, o deputado federal Jorge Solla (PT), ex-secretário de Saúde do governo Wagner, afirmou que “virou obsessão” de ACM Neto não parar de falar mal do PT. “Essa bravata ética que ele faz não combina com o DEM.

O atual presidente do DEM, senador Agripino Maia, responde a processo no STF por ter recebido propina na máfia da inspeção veicular no Rio Grande do Norte. Ele continua presidente do DEM. O líder do DEM no Senado, Caiado, é acusado de ter recebido dinheiro do bicheiro Carlinhos Cachoeira. E quem acusa é Demóstenes Torres, ex-DEM, também envolvido com a contravenção”.

Em âmbito municipal, o vereador Gilmar Santiago, ex-líder da oposição na Câmara, afirmou que quem levou ACM Neto pela primeira vez até a presidente Dilma Rousseff (PT) foi o governador Jaques Wagner (PT). “É muito diferente da época em que Lídice foi prefeita, quando o avô dele [ACM] fechou as portas do governo federal e usou o estadual para perseguir ela”, comparou.

O vereador petista disse ainda que foi nos governos do PT que a corrupção começou a ser investigada. “Em um determinado momento do país, ninguém foi parar na cadeia. Não esqueci o ‘rouba, mas faz’. Na violação do painel do Senado, nos grampos telefônicos, quem prendeu quem?”, questionou Santiago.

jul
09

DEU NO BLOG POR ESCRITO (DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

Um golpe institucional em progressão

OPINIÃO
Há apenas 15 dias estranhamos a pesquisa Datafolha para presidente da República, quando estamos a mais de três anos da eleição. Não tivemos a ousadia de fazer uma especulação clara, até pelo temor de sermos interpretados como adeptos de teorias conspiratórias.

Mas agora, com a intensificação dos rumores e declarações sobre o impeachment da presidente Dilma, a impressão é de que aquele fato, partindo de uma empresa que, afinal, é vinculada à “grande mídia golpista” apontada pelo PT, indica uma etapa no plano com que se pretende acelerar a “alternância do poder”.

A pesquisa traz números que, quatro anos atrás, seriam impensáveis: o senador Aécio Neves à frente do ex-presidente Lula. No rastro, Aécio é reconduzido à presidência do PSDB e ninguém menos que o ex-presidente Fernando Henrique vem a público para, quase, cantar-lhe “se todos fossem iguais a você”.

Simultaneamente, levantam-se acusações contra a presidente, pavimentando a estrada do julgamento político, e apertam-se as suspeitas sobre Lula, que já paga o preço pela má fama que acumulou e por ter sido, afinal, o avalista de Dilma junto ao eleitorado. Com esses dois fora de combate, a vitória é certa.

Eleição “democrática” já está no forno (*)

O grande enigma nessa história toda é o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, a quem cabe acatar ou rejeitar eventual pedido de impeachment. De início, descartou-o com veemência, em ato que até foi visto como demonstração de equilíbrio e responsabilidade.

Entretanto, como não está praticando essas qualidades no exercício da magistratura legislativa, é possível que Cunha, ao sabor de sua avaliação do quadro político, esteja mudando de posição, embriagado pela própria perspectiva, a ponto de levar o país a uma instabilidade institucional.

Não há autoridade originária – apesar de, oficialmente, muitos estarem dela investidos – com credibilidade e autenticidade para promover sem oportunismo esse processo. O povo brasileiro não identifica em nenhum partido e em nenhum político uma instância ou uma pessoa em que possa confiar para tão doloroso trauma.

Com nova eleição num intervalo que seria pouco superior a um ano, poucas alternativas estariam reservadas para o país. No caso de Dilma ser pessoalmente atingida, o vice Michel Temer concluiria o mandato. Se toda a chapa for cassada, governa o Brasil por três meses Eduardo Cunha, para eleger-se Aécio sem maiores problemas. Esse é o plano.

(*) Título reeditado por ter saído truncado o original.

DEU NO BLOG O ANTAGONISTA (DOS JORNALISTAS MARIO SABINO E DIOGO MAINARDI)

O risco de contágio brasileiro

O Brasil é a maior ameaça de contágio para os mercados financeiros globais entre as economias emergentes, segundo a agência de classificação de risco Fitch. Entre os investidores, 76% selecionaram o Brasil como uma das duas maiores ameaças e 38% elegeram a Rússia.

De acordo com a Reuters, os motivos são uma esperada recessão, aliada à crescente inflação e déficits orçamentários, que dificultam o cumprimento da meta fiscal e colocam em risco o grau de investimento da dívida brasileira. Também pesa para os investidores a crise política pela qual passa o país.

jul
09
Posted on 09-07-2015
Filed Under (Artigos) by vitor on 09-07-2015


Sid, no portal de humor gráfico A Charge Online

DO EL PAIS

Pablo Ordaz (Enviado Especial)

O papa Francisco pediu na terça-feira aos governantes latino-americanos que tenham a inclusão e o diálogo como inspiração para suas leis, de modo que “a repressão, o controle desmedido e a diminuição de liberdades” que assolaram a região fiquem “na dolorosa lembrança”. Durante um encontro em Quito com a sociedade civil equatoriana —de empresários a comunidades indígenas—, Jorge Mario Bergoglio pediu que o crescimento econômico chegue a todos “e não fique apenas nas estatísticas macroeconômicas”.

As palavras do Papa têm especial relevância pela situação política do Equador, onde o presidente Rafael Correa enfrenta há semanas uma forte reação social por sua forma de governar, que alguns consideram autoritária. Francisco disse que o Equador, assim como vários outros países latino-americanos, tem pela frente problemas de grande envergadura —“a migração, a concentração urbana, o consumismo, a crise da família, a falta de trabalho, os bolsões de pobreza”—, os quais provocam grandes tensões e constituem uma ameaça à convivência.

Diante disso, Francisco repetiu uma frase lentamente, como se fosse uma reza: “Ninguém pode ficar excluído”. Com grande amargura, endurecendo um discurso que por si só já tinha um forte conteúdo reivindicativo, o Papa alertou sobre a situação de desespero vivida por muitos jovens que nem estudam nem trabalham, sendo atirados assim “à tristeza, à depressão, ao suicídio ou a projetos de loucura social”. Bergoglio reiterou o pedido por uma mudança radical de valores, já expresso recentemente em sua encíclica sobre o ambiente. “No âmbito social isso significa assumir que a gratuidade não é um complemento, e sim um requisito necessário para a justiça. O que somos e temos nos foi confiado para colocarmos ao serviço dos outros; nossa tarefa consiste em que isso frutifique em obras de bem. Os bens estão destinados a todos, e, mesmo que a pessoa ostente sua propriedade, pesa sobre ela uma hipoteca social. Supera-se assim o conceito econômico de justiça, apoiado no princípio de compra e venda, com o conceito de justiça social, que defende o direito fundamental da pessoa a uma vida digna”.

Bergoglio, que foi interrompido por aplausos em numerosas ocasiões, também se referiu à preocupação ambiental. “A exploração dos recursos naturais, tão abundantes no Equador, não deve buscar o lucro imediato. Administrar essa riqueza que recebemos nos compromete com a sociedade em seu conjunto e com as futuras gerações, às quais não poderemos legar este patrimônio sem um adequado cuidado ambiental, sem uma consciência de gratuidade que brota da contemplação do mundo criado”.

Momentos antes, o Papa encontrou-se com alunos e professores da Pontifícia Universidade do Equador. Bergoglio perguntou aos educadores: “Vocês velam por seus alunos, ajudando-os a desenvolver um espírito crítico, um espírito livre, capaz de cuidar o mundo de hoje?”. Aos jovens universitários, dirigiu uma pergunta retórica, aos lhes pedir que sejam solidários com aqueles que não têm tantas oportunidades: “Sabem que este tempo de estudo não é só um direito, e sim um privilégio que vocês têm?”.

Francisco pediu que o futuro diploma universitário deles não seja exibido “como sinônimo de maior status, dinheiro e prestígio social”, e sim como um símbolo de responsabilidade para “o cuidado ao mais pobre, o cuidado ambiental”.

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