jul
04

CRÔNICA
Dilma e as profecias de Tom Zé

Janio Ferreira Soares

Não sei se Dilma Rousseff já viu algum filme de Brigitte Bardot. Eu, perdi as contas. Aliás, foi dela o meu primeiro nu em contraluz, visto nervosamente por entre as cortinas do Cine São Francisco, graças à condescendência de um velho porteiro conhecedor dos anseios juvenis. Também presumo que a presidente não conhece a canção composta por Tom Zé em homenagem à francesa, que faz parte justamente daquele polêmico disco da bolinha de gude na capa, que até há pouco pensávamo-la no centro de uma boca, mas agora, depois de anos, finalmente soubemo-la estrategicamente presa pela competente prega rainha de uma abnegada moça, cujo nome segue mantido em absoluto sigilo, certamente para evitar constrangimentos a hoje provável vovó, coitada, que não merece ser alvo de possíveis tentativas de explicações esfincterianas depois de mais de 40 anos de seu espetacular malabarismo oritimbótico. Mas voltando à canção, tenho quase certeza de que Dilma não a conhece, até porque a sonoridade do genial irararense não combina com laquês e mercadantes ao cair da tarde. Simbora.

Semana passada, diante de uma fogueirinha esquentando epidermes e palavras, estávamos exatamente ouvindo esse disco quando alguém comentou sobre a notícia que rolou dando conta de que a presidente estava internada depois de tentar o suicídio – fato, aliás, logo desmentido pela própria. Coincidentemente, depois das acaloradas discussões que esses assuntos sempre provocam quando debatidos por velhos anarquistas com o nível alcoólico acima do permitido, eis que tocam os primeiros versos de Brigitte Bardot, que, se analisados ao arrepio de quentões e garoas juninas (como foi o caso), têm muito a ver com o atual momento da nossa avoada bike woman – a propósito, se desmilinguindo mais e mais a cada nova pesquisa. Som na caixa.

Na primeira estrofe, ainda sem muito a ver com La Rousseff, Tom Zé começa dizendo: “A Brigitte Bardot está ficando velha, envelheceu antes dos nossos sonhos. Coitada da Brigitte Bardot, que era uma moça bonita, mas ela mesma não podia ser um sonho para nunca envelhecer”. Antes de continuar, um parêntese: em 1973, ano da canção, BB, então com 42 anos, envelhecia, é verdade, mas ainda dava um belo consomeé de aspargos e brie ao som do acordeon de Yann Tiersen. Em frente.

As coincidências com a situação atual da pesidente começam no segundo verso, que diz: “A Brigitte Bardot está se desmanchando e os nossos sonhos querem pedir divórcio. Pelo mundo inteiro têm milhões e milhões de sonhos que querem também pedir divórcio e a Brigitte Bardot agora está ficando triste e sozinha.” E aí vem a pergunta fátidica: “Será que algum rapaz de vinte anos vai telefonar na hora exata em que ela estiver com vontade de se suicidar? ”. E arremata, dizendo: “Quando a gente era pequeno, pensava que quando crescesse ia ser namorado da Brigitte Bardot, mas a Brigitte Bardot está ficando triste e sozinha, triste e sozinha…”.

Noves fora o namorinho de portão, o velho baiano nunca foi tão Mãe Diná.

Janio Ferreira Soares, cronista, secretário de Cultura de Paulo Afonso, no lado baiano do vale do Rio São Francisco. Habituée do Cine Poty, a primeira tela de Cinemascope de uma cidade do vale nordestino do rio da nossa aldeia, segundo a Rádio Jornal do Comércio ( de Pernambuco) informando para o mundo.

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 4 julho, 2015 at 11:38 #

Grande Janio!

Ah esse Tom Zé!
Por vezes, deploro, que não tenha Tom Zé encontrado Oswald de Andrade, teriam feito musicais e dado bananas ao David Byrne.

Quanto ao poste do Lula safo, resta uma verdade, jamais povoou sonhos como Brigite, portanto a queda é rasa, é na verdade apenas um desnudar sem bravatas e grosserias.


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