dESABAFOS:Lula e Felipe González, em São Paulo. / M. S. (AFP)

DO EL PAIS

Flávia Marreiro

De São Paulo

DO EL PAIS

A conferência do ex-presidente do Governo Espanhol Felipe González em um hotel em São Paulo nesta segunda-feira,22, a convite do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não foi um encontro protocolar. Sob o título “novos desafios da democracia”, os dois líderes da esquerda mundial em debate com a plateia formada por políticos, intelectuais e representantes do movimento sindical e populares acabaram por trazer à luz, com críticas e análises francas de parte a parte, as crises de seus respectivos partidos, PSOE (Partido Obrero Español) e PT, e colocaram em evidência as diferenças de posição em relação à Venezuela de Nicolas Maduro.

Diante de Lula, um aliado do chavismo, González expôs suas diferenças com o Governo venezuelano. “Eu não faço parte de nenhuma conspiração”, disse o ex-presidente espanhol, em referência às críticas recebidas de Maduro, que o acusou de querer desestabilizar seu Governo por tentar visitar em Caracas o opositor preso, Leopoldo López, no mês passado. “A Venezuela é questão de ir lá e ver (o que acontece)”, defendeu o espanhol. “Vou tentar ser cauteloso: não vejo semelhança entre o que acontece aqui (no Brasil) e o que acontece na Venezuela. O pluralismo midiático na Venezuela acabou.”

As críticas ao chavismo, um tema com repercussão na agenda doméstica no Brasil, provocaram reação na plateia, que incluía os ministros da Cultura (Juca Ferreira) e Educação (Renato Janine Ribeiro). Na semana passada, os senadores brasileiros de oposição realizaram uma ruidosa visita a Caracas para tentar visitar López. Hostilizados por militantes chavistas e com contratempos no trânsito, decidiram abortar a missão. O fracasso, de todo modo, ganhou ampla repercussão e provocou uma nota do Itamaraty, exigindo informações sobre o episódio a Maduro. A cobrança pública da diplomacia brasileira tornou evidente as diferenças de posicionamento entre o PT, alinhado com Caracas de maneira mais evidente até do que o próprio Lula, e o Governo Dilma Rousseff, que tem subido o tom das críticas.

Num momento, o debate se voltou, então, ao papel da mídia e das redes sociais nos desafios da democracia. González lembrou das problemas que sofreu com a ferrenha oposição do diário conservador espanhol ABC, nos anos 80, mas não se juntou automaticamente ao coro de críticos dos brasileiros ao papel da mídia. Antes de criticar a mídia, disse o ex-premiê espanhol, é preciso se perguntar se o partido perdeu força de persuasão, se perdeu coesão interna. Refletiu sobre a chegada dos partidos de esquerda ao poder: “O que aconteceu com o meu partido, caro Lula, é que nós alteramos a sociedade, a realidade social, mas não mudamos a nós mesmos. Mantivemos o mesmo discurso. Ficamos para trás”.
Salvar a pele ou projeto

Em meio à crise do PT e no embate quase diário com imprensa tradicional, Lula parece ter se sentido instado a entrar na discussão. Não estava previsto um discurso do ex-presidente brasileiro, mas a mediadora anunciou que ele falaria. O petista chamou González de “uma das cabeças mais arejadas para repensar a esquerda”, e começou descrevendo que “durante muito tempo assistimos à esquerda europeia definhando, definhando”.

Temos que definir se queremos salvar a nossa pele e os nossos cargos ou se queremos salvar o nosso projeto

Lula

O brasileiro não se constrangeu ao afirmar que o PT deveria promover um encontro com o Podemos, o atual inimigo eleitoral número 1 da esquerda do PSOE na Espanha. “O PT era em 1980 o que é o Podemos em Barcelona ou Madri”, disse Lula. “Que surja um partido melhor que o PT, melhor que o PSOE, mas que surja. Porque quando se nega a política, o que vem é muito pior.”

O ex-presidente brasileiro, que acaba de participar de um congresso do PT morno em Salvador, defendeu uma “revolução interna” em seu partido sacudido pelo escândalo de corrupção da Petrobras e contaminado pelo que chamou de “vício de um partido que cresceu e chegou ao poder”, que só pensa “em cargos”. “Temos que definir se queremos salvar a nossa pele e os nossos cargos ou se queremos salvar o nosso projeto”.

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Comentários

rosane santana on 23 junho, 2015 at 6:10 #

E’ essa “esperteza” q caducou. Lula e’ como aqueles espíritos que desencarnou e ainda não percebeu.


rosane santana on 23 junho, 2015 at 6:11 #

Correlação : q desencarnaram, e ainda não perceberam.


Taciano Lemos de Carvalho on 23 junho, 2015 at 9:10 #

“Lula diz que o PT só pensa em cargos e compara origem da sigla ao Podemos”
A única verdade na frase acima é referente aos cargos que, na verdade, foram distribuídos aos montes pelo governo Lula.

O DNA do Podemos é o DNA dos Indignados espanhóis que, por volta de maio de 2011 ocuparam as ruas da Espanha, como fizeram seus colegas nos Estados Unidos e em outras cidades do mundo. Os Indignados espanhóis, que é o DNA do Podemos, jamais, acredito, farão uma “Carta aos Espanhóis”, como a entreguista e liberal “Carta aos Brasileiros” lançada por Lula no palácio dos empresários na véspera das eleições de 2002.

Não, não posso acreditar que o Podemos, que vem crescendo como força (ou frente) política de esquerda, vá trair o povo espanhol. Que, se chegar ao poder, rasgue todas as suas bandeiras transformadoras, se submeta ao sistema assassino dos banqueiros internacionais, se entregue às privatizações. Em resumo, que se torne mais uma força neoliberal como aconteceu com o PT no Brasil. Que se contente em simplesmente salvar a pele (e proteger os megaempreiteiros) como aqui neste país tropical.

Chega a soar como blasfêmia querer comparar o DNA do Podemos com o DNA do PT. O Podemos surgiu dos indignados nas praças e ruas. O PT surgiu em palácios e escolas episcopais, estimulado pelo receio da classe dominante de se chegar ao final da ditadura —que era iminente— e encontrar os mais de 15 por cento de votos que o PCB tinha no Estado de São Paulo. Pelo receio do surgimento do PTB (não esta porcaria que existe hoje), mas o antigo PTB. Pelo receio do crescimento, quando a democracia chegasse, de forças nacionalistas (no bom sentido, não no sentido fascista) de esquerda. Aí…surgiu o PT.
Aliás, é bom lembrar que o PT PODIA, ao ganhar o governo do Brasil em 2002. PODIA, mas não quis, fazer as transformações. Preferiu, por exemplo, anunciar em dezembro de 2002 no seu beija-mão lá nos Estados Unidos, que Henrique Meirelles seria o presidente do Banco Central. Depois…vimos o que aconteceu. Sarney, Collor, Maluf e companhia. E até Delfim Neto como conselheiro 24 horas por dia em assuntos de Economia. E veio a concretização DEFORMA da previdência que FHC tanto quis fazer. E a continuidade da submissão ao banqueiros nacionais e internacionais. E continuou a privatização, agora com o nome de concessão, mas que é, sim, privatização. Continuaram os leilões das bacias de petróleo. Não é nem preciso falar em mensalões e petrolões (traição à Petrobras) e nem no apoio, com o dinheiro do contribuinte, e juros reais negativos, às “empresas campeãs”. Aos eikes, gutierrez, odebrecths, oas, ermírios (banco Votorantim), sílvios (banco Bandeirante), fribois e tantos outros. Sempre com o dinheirinho do imposto arrancado do brasileiro.

Não, não podemos comparar o PT ao PODEMOS. A comparação é pura mistificação.

(Vitor, desculpe o tamanho do comentário. Mas é que já estou velho para ficar calado diante de tanta mistificação. Se o número de toques ferir as normas do Bahia em Pauta, esteja a vontade para excluir o comentário)


Taciano Lemos de Carvalho on 23 junho, 2015 at 9:19 #

Ops! “à vontade”.


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