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Postado em 21-06-2015
Arquivado em (Artigos) por vitor em 21-06-2015 00:32

DEU NO BLOG POR ESCRITO ( DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

INFORMAÇÃO E OPINIÃO

Odebrecht na cadeia: desaba a herança de um mito

Muitos empresários têm sido presos nas diversas etapas da Operação Lava-Jato, mas a prisão preventiva de Marcelo Odebrecht, presidente da megaempresa nascida da construtora criada na Bahia há mais de 70 anos por seu avô Norberto, inegavelmente, estabelece uma distinção no banditismo institucional que tomou conta do Brasil.

O “empresário” é a projeção de um ícone da história econômica baiana, o homem que pegou em dificuldades a empresa montada pelo pai, Emílio, e a transformou, colocando-lhe o próprio nome, na poderosa holding mundial de 200 mil empregados e atividades que incluem construção civil, petroquímica, entretenimento, investimento e petróleo e gás.

Não se poderá crer, portanto, que sejam mera leviandade as apurações da Polícia Federal e as considerações do juiz Sérgio Moro ao tomar a decisão, até porque já a negara no ano passado, quando entendeu inconsistentes os fatos apresentados. Trata-se de indício de que uma mudança se processa no Brasil, e a sociedade precisa encampar esse exemplo como marco, talvez, de um avanço dos nossos costumes.

O país, pelas dimensões territoriais e expressividade demográfica, não pode mais conviver com o sigilo nos negócios do Estado, pois, embora pareça, não é uma republiqueta, e seus deslizes acarretam prejuízo e problemas para expressiva massa populacional.

O respeito à cidadania exige todos os traumas para mudar esse quadro, sendo necessárias toda a dignidade do Judiciário, não a de um só magistrado, e toda a consciência e determinação das corporações policais e instâncias investigativas, não apenas a dedicação de um grupo de policiais federais.

Na corte do principezinho

A prisão de Marcelo Odebrecht obriga à revisão de uma prática irreal no Brasil, que é a veneração aos grandes homens de negócios pelo simples poder econômico que exibem, pelos “empregos diretos e indiretos” que criam, pelo simples fato, enfim, de terem muito dinheiro.

As colunas sociais se encarregam da parte mundana e de “ostentação”, enquanto os grandes jornais, as publicações econômicas, as revistas empresariais trazem, regularmente, artigos, comentários, declarações e “reportagens” sobre os múltiplos talentos e conquistas relevantes dos hoje chamados CEOs – pernóstica sigla em inglês para diretor-executivo.

Não foi diferente no presente caso. Há apenas dois anos, Marcelo Odebrecht era saudado como uma das 60 pessoas mais importantes do país, quando o Portal Ig, aqui citado como exemplo, traçou-lhe denso perfil, destacando que, “em apenas cinco anos” na presidência da organização, “se cristalizou como uma das lideranças empresariais mais respeitadas por seus pares e pelo próprio governo”.

A louvação vai adiante: a disputa com a família Gradin, também baiana, dona de 20% do empreendimento, algo em torno de US$ 3 bilhões, é tida como uma importante marca de sua gestão, em que Marcelo Odebrecht, “no duelo com os sócios, empunha seu florete com firmeza e agressividade, sem, no entanto, perder a elegância”.

O texto tem na realeza o recheio principal. Depois de advertir que “a metáfora monárquica é necessária”, fala em “trono” e “dinastia” e termina por identificar o focalizado como Odebrecht III, numa referência, naturalmente, ao fato de representar a terceira geração da família na condução da empresa.

“Por longo tempo, foi esculpido para o cargo, polimento que passou por uma sólida formação acadêmica e por um rigoroso processo de imersão em todos os negócios da Odebrecht”, relata o autor, sem revelar se na grade curricular que frequentou constavam disciplinas em cuja prática mostrou-se agora especializado.

E Dilma estava de olho no dinheiro dele…

Para completar a ideia de um homem poderoso, a matéria trata de frisar a influência de Marcelo Odebrecht sobre o próprio poder constituído. Foi dele o artigo “Viaje mais, presidente!”, publicado na Folha de S. Paulo em 07/04/13, em que procura justificar o patrocínio da empresa a viagens do ex-presidente Lula.

Sem poder permanecer no silêncio que normalmente dedicava a denúncias, Marcelo Odebrecht mistificou sobre a importância econômica dos passeios de Lula, decidindo, como diz o texto, “trafegar na contramão da oposição, de parte da mídia e da própria opinião pública”, mostrando “toda a força do sobrenome que carrega e da patente que ostenta”.

Apontando-o como “um dos empresários nacionais mais respeitados pelo Planalto” – já no governo da presidente Dilma –, a matéria ressalva que “a admiração não veio gratuitamente”, mas foi conquistada por Marcelo Odebrecht, superando uma suposta antipatia de Dilma.

“Em conversas com colaboradores mais próximos, Dilma já chegou a se referir a Marcelo como o maior empresário brasileiro”, diz o articulista, especulando que “talvez sejam os R$ 17 bilhões de investimentos anunciados pela Odebrecht para 2013, no momento em que o governo caça recursos para tocar alguns dos maiores projetos de infraestrutura do país”. Bem, ele tinha de onde tirar.

Boa companhia

Entre as personalidades que figuraram na lista dos 60 mais poderosos, estava também Eike Batista, que a imprensa brasileira transformou em “um dos homens mais ricos do mundo”.

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Comentários

Taciano Lemos de Carvalho on 21 junho, 2015 at 1:19 #

Luís Augusto cortando que nem as navalhas dos velhos jogadores de navalhas da Bahia. E cortando com precisão cirúrgica.

Navalhadas neles!


luiz alfredo motta fontana on 21 junho, 2015 at 7:56 #

Caro Luís Augusto

Desde que o mundo é mundo, ou ao menos, desde que governar é “obrar”, essa relação incestuosa, entre “plantonistas” do Planalto e os “capos” das empreiteiras, se faz presente neste nosso Brasil tão varonil e tão vadio.

Ainda me lembro do prazer, em ver. materializada a sanha famélica, na histórica capa do Pasquim, em que se perguntava pela localização das outras 9 pontes já que a Rio Niterói teve o custo de 10. Fez mais o Pasquim ali, do que a torturada imprensa jamais logrou.

Porém, como o deslizar da grana faz milagres e logra opacidades o funeral da decência seguiu. Empreiteiras estreitaram seus laços com os executivos federais, estaduais e municipais, se bobear já devem estar de olho na nova modalidade, a tal distrital.

Essa falta de vergonha, essa transformação de investimentos em infraestrutura num grande bordel, esse escoadouro de lama fétida, esse estupro canalha das esperanças do tal cidadão brasileiro, tratado como idiota por origem, nunca ultrapassou a mera e acovardada insinuação em algum artigo pretensamente heroico.

Melhor ignorar e aceitar que é assim, deste modo, nesta trilha bandida, que lograremos pontes, viadutos, hidroelétricas, estradas, portos, aeroportos e tudo mais que possa ser açambarcado por estes empreiteiros da prostituição de nossos tristes poderes. Não esqueçam de Lalau.

O assombro desta operação provoca um terror apocalíptico. Ratazanas paralisadas compõem o cenário nos corredores palacianos. Urge varrer para limbo este demolidor de certezas, esse ceifador de tradições espúrias. Quem se imagina ser este Mouro? Terá resistência para extirpar tamanha tradição?

A redações estão em estado catatônico, embarcar na assepsia, ou acomodar-se na estiva, a espera do que virá?

Embarcar ou desembarcar?

Fingir-se de morto?

Limpar os dados cadastrais para evitar infecção?

Tempos loucos!

Nossa impúbere democracia resistirá a este desnudar de entranhas fétidas?

O Judiciário será autofágico e se consumirá no mister cirúrgico?

Teremos salvação ou só expiação?

Como será a proeza ilógica de relatar os fatos como se nunca os tivesse apalpado, cheirado, sorvido, convivido, como se destino fosse?

O bordel está exposto!

Cada qual com sua tara, cada grupo com seu desvio, cada segmento com seu fetiche.

Ao fundo, um tango argentino, é de praxe!


luiz alfredo motta fontana on 21 junho, 2015 at 14:35 #

(Enquanto este domingo escorre, retomo o espaço, não mais comento, só lamento)

Ontem…

(luiz alfredo motta fontana)

Ontem
nos idos 70
os meus 17 anos
repudiavam Médici

Ontem era Brechet
janela aberta
Hoje é Odebrechet
porão viscoso

Ontem
repudiavam Médici
Hoje, meus 62
colhem os frutos
mal cheirosos
sem encanto
sem sanhaços
que os deseje

Ontem
Repudiavam Médici
ao som de Edu

Hoje
Gil perdeu o Domingo
vendeu o Parque
entregou o sorvete
Não a José
Nem a João
Perdeu o corso,
o discurso,
a procissão
não louva,
bajula

Ontem Brechet
Hoje Odebrechet


regina on 21 junho, 2015 at 16:26 #

Desfecho da ópera: a cabeça de Lula na bandeja. Caberá à ele derrubar a Dilma.


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