CRÔNICA
Encontros e despedidas

Janio Ferreira Soares

No seu livro “Os Sonhos Não Envelhecem”, Márcio Borges conta que quando ele e Fernando Brant perguntaram a Lô Borges qual o tema imaginado para a letra da melodia que ele acabara de compor naquela longínqua farra no final dos 60, o jovem mineiro, então com 18 anos, respondeu que estava pensando exatamente nesse lance de parcerias, principalmente nas de John e Paul, que mesmo servindo de inspiração para aquela levada liverpoolniana, jamais saberiam da existência deles naquele pedaço das Gerais. Segue o baile.

Com o mote nas mãos, os dois então combinaram quem faria a primeira e a segunda parte, pegaram papel, caneta e umas cervejas, se trancaram num quarto e antes da macarronada chegar à mesa, Para Lennon e McCartney já estava pronta para virar vinil e ganhar, se não a atenção da dupla inglesa (perderam, boys!), pelo menos as vitrolas de uma geração que amava muito os Beatles, médio os Stones e cada vez mais uns danados de uns mineiros com um jeito todo próprio de fazer música e nos dizer que todo dia era dia de viver.

Há uns bons anos eu estava descendo num elevador de um hotel no Rio de Janeiro para o café da manhã, quando entra Fernando Brant. Educadamente ele me cumprimentou daquele jeito convencionado aos frequentadores desse estranho aposento que pertence a todos – mas não é de ninguém – e imediatamente comecei a apertar a mão de Valéria como num improvisado Código Morse, cuja mensagem (sem pontuação, pra chegar logo) era: “esse cara aí do lado com jeito de professor de religião foi quem legendou alguns dos melhores momentos de nossas vidas”.

Já no restaurante, depois dos sinais decifrados, ela me diz que eu deveria, sim, ter falado com ele, dito que também escrevia umas linhas, essas coisas de fã. Impossível. Além da minha timidez, convenhamos que o interior de um Schindler de aço não seria o melhor lugar para, qual um Lô do sertão, informar ao meu beatle mineiro que lá nos cafundós da Bahia também existia um cara que se chamava moço, que via da janela de seu quarto de dormir o altar da igreja de Glória, que tinha um jipe descendente do seu Manuel, o Audaz, e que morava num sítio arrodeado de discos, filhos, livros e amigos, localizado na beira de um rio nascido lá no seu quintal.

Sua inesperada morte, assim como a de João Ubaldo, foi como um baque descompassado no tambor do meu reisado. E do mesmo modo que eu me questionei se deveria ter me aproximado do velho baiano quando tive a chance de fazê-lo num boteco do Leblon, fiquei agora me perguntando se eu deveria ter seguido o genial poeta mineiro naquela nublada manhã da Guanabara, mas foi melhor não. Vai que, na pressa, ele só dissesse coisas que se dizem por dizer, e eu, nervoso, nenhuma das frases que o vento vem às vezes me lembrar, e aí, meio que perdidos na plataforma de uma estação distante, ele embarcaria no seu trem, eu voltaria ao meu lugar e a hora do encontro, na verdade, teria sido apenas despedida.

P.S – Se puder, mande notícias do mundo de lá pra quem fica.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, nas barrancas do lado baiano Rio São Francisco.


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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 20 junho, 2015 at 16:38 #

Foi assim, na timidez de ambos, que Brant deixou de sorver um bom papo. Versos e prosa quedaram mudos.


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