CRÔNICA

Meus cadeados sobre o Sena

Janio Ferreira Soares

Nunca estive em Paris. Pra falar a verdade, jamais fui além de uma foto com uma hermosa dançarina escanchada em mi quadril simulando um tango nas quebradas do Caminito, lá se vão uns bons gardéis. Sendo assim, não coloquei nenhum cadeado na Pont des Arts, o que, se por um lado me inclui na categoria “não é possível que você não conheça Paris!”, por outro me exclui da tenebrosa possibilidade de viver o resto da vida dentro de um romance tipo “mon amourzinho!”, com certeza o desejo mais solicitado e contagioso dentre todos.

Soube também que a Ponte do Amor desempenhava o papel de uma grande encruzilhada, onde neguinho armava seus despachos com badulaques, figas e outros apetrechos no lugar de farofa, cachaça, velas e demais componentes da velha macumba usada para alcançar anseios ou retribuir graças (comenta-se que fazia sucesso entre os mais observadores um círculo de aço com o mapa do Maranhão no meio e vários cadeadinhos pendurados no aro com os nomes de Roseana, Zequinha, Murad e Lobão, sempre mudando de posição de acordo com os ventos. Logo acima reluzia um Pado 70 mm, dourado, com a foto de Sarney e a seguinte legenda: “há de se cuidar dos brotos pra que a vida nos dê flores e frutos. Viva Dr. Pinotti!”).

Pois muito bem, agora que milhares de sonhos se findaram, fico pensando em quais seriam os meus pedidos caso eu chegasse lá numa fria madrugada, tomando minha segunda garrafa de Bordeaux (no gargalo) e com um pedaço de Roquefort esmagado no bolso traseiro da calça (fato, aliás, que me traria uma enorme dúvida de cunho fisiológico no dia seguinte), e chego a conclusão de que eu faria apenas uma retrospectiva das minhas viagens mentais inventadas ao sair dos cinemas da minha juventude. Portanto, só me resta colocar minha sunga púrpura (do Cairo) e mergulhar nas correntezas imaginárias do Rio Sena, torcendo para que elas, assim como o Santo Anjo que me acompanha desde os primeiros banhos no rio da minha aldeia, me zele, me guarde e me conduza sempre aos remansos reservados aos bons ateus. Aos devaneios, pois.

Ao som de Raindrops keep falling on my head, vê-se um cartaz na frente do Cine Tupy com três fotos. Na primeira, Butch Cassidy; na segunda, Sundance Kid; e, entre os dois, eu e Katharine Ross fugindo para Paris na sua bicicleta, deixando Paul Newman e Robert Redford completamente embasbacados por terem sido passados para trás por um menino de 12 anos. C’est la vie, babys!

Na sequência, já solteiro na Cidade Luz, surjo numa enevoada tarde trajando um sobretudo cinza – presente de Polanski – no Café La Dôme num animado papo com Jane Birkin e Serge Gainsbourg, coitado, sem a mínima ideia do resultado de sua precipitada atitude em sair para ir fumar um Gaulouises no outro lado da rua. Ao retornar, encontrou sobre a mesa apenas um guardanapo com uns garranchos escritos, onde se lia, numa tradução à sorrelfa, que ele podia voltar sozinho pra casa pois ela iria passar a noite comigo ensaiando todos os gemidos de Je T’aime Moi Non Plus.

O grande erro de my sweet lady Jane foi confiar demais no seu taco e cair na besteira de me apresentar a Catherine Deneuve durante um Festival de Cannes. A propósito, testemunhas que viram o seu biquinho pronunciando “enchanté, mon chéri”, quando beijei sua mão, perceberam que a fila já tinha andado e, logicamente, andaria mais um pouco, quando, ao tomar um sorvete com Belmondo no Amorino Gelato, chega Claudia Cardinale – com o mesmo decote usado em Era Uma Vez No Oeste -, aperta minha bochecha e diz: “ma che bello ragazzo, mio dio!”. Pedi pra ela um de cassis.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, cidade luz do Nordeste, NA margem baiana do Rio São Francisco.

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Comentários

luis augusto on 7 junho, 2015 at 8:11 #

Quem não sonhou com Etta Place?


luiz alfredo motta fontana on 7 junho, 2015 at 12:42 #

Caro Janio

Saudades do que sonhamos!

Saudades do que não fomos!

Estas, as mais caras, as mais diletas.

O ter sido, o ter feito, é quase trivial, é próximo da desculpa.

Sonhamos em tempos escuros, em hiatos do não.

Hoje, quando o sono é leve, quando o corpo já não se ajeita, quando os sonhos se repetem, acordamos amiúde.

Saudades do que sonhamos nos redime.

Fujo então, com Jean Seberg, na garupa da velha Caloi.


luis augusto on 7 junho, 2015 at 15:49 #

Isso é poesia, poeta.


luiz alfredo motta fontana on 7 junho, 2015 at 16:57 #

Caro Luís

A poesia mora no texto de Janio.


luis augusto on 7 junho, 2015 at 20:48 #

No de ambos.


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