Estado Allianz Arena, do Bayern de Munique. / AFP PHOTO / STR

DO EL PAIS

Miguel Ángel García Vega

De Madri

Pepe Samitier (1902-1972) era um meio-campista único. Dava bicicletas, tocava de chaleira e ziguezagueava quando ainda não existiam palavras para definir essas jogadas. Jogador técnico (foi apelidado de homem-lagosta), mas também de pernas fortes, ele era conhecido não só por ter jogado no Real Madrid e no Barcelona, mas por seu lúcido sarcasmo. A história, e essa Biblioteca de Alexandria da bola que é Alfredo Relaño, diretor do diário esportivo AS, atribuem-lhe uma frase: “Se o futebol fosse um negócio, pertenceria aos bancos”.

Mas se Samitier jogasse atualmente sentiria como a bola e as expectativas giram de forma muito diferente. O futebol – apesar dos golpes como o escândalo de corrupção que explodiu nesta semana na FIFA – é uma indústria que gera expectativa no planeta e 50 bilhões de dólares (cerca de 146 bilhões de reais). A cifra é da consultoria Repucom. É um espaço no qual as instituições financeiras se tornaram os maiores investidores e onde a febre do futebol há muito tempo já ultrapassou a Europa e a América Latina. Agora o negócio se expande à China e aos países árabes em busca de alguns dos 1,6 bilhão de fãs que há no mundo. Ninguém escapa à sua influência. Bilionários árabes e russos compram clubes das ligas europeias, enquanto as grandes marcas veem um Éden para os seus interesses. Não importa que a desigualdade, esse alcatrão escuro e viscoso do nosso tempo, se derrame separando clubes ricos, onde militam jogadores e agentes poderosos, e clubes e atletas que mal sobrevivem. É a forma desigual na qual gira hoje o planeta futebol.

Esta rotação não seria compreendida sem saber o que está em jogo. No ano passado, os clubes profissionais — de acordo com a FIFA — gastaram 3,6 bilhões de dólares para contar com os serviços de jogadores de qualidade internacional. Por isso, quando Jonathan Barnett, 64 anos, talvez o agente britânico mais importante, se queixa de que seu protegido, Gareth Bale, “não recebe a bola”, não apenas defende um jogador de futebol pelo qual o Real Madrid pagou 85 milhões de libras, a transferência mais cara da história, mas um ecossistema muito fechado que cuida dos interesses de seus membros. “Meu trabalho é muito claro”, diz Jonathan Barnett. “Devo garantir que meus jogadores, quando se aposentarem, só trabalharão se quiserem, não porque precisem. Os dias de montar um bar ou uma loja por 50 libras acabaram”.

Esse senso mercantilista do negócio é uma marca registrada de um futebol moderno que se tornou “um espaço escuro e fechado no qual é muito difícil entrar”, observa Sandalio Gómez, professor do IESE. Mas a falta de luz é proporcional ao fluxo de dinheiro. Especialmente das empresas do Oriente Médio. Os 20 principais clubes da Europa são patrocinados por companhias aéreas dessa região do mundo: Barcelona (Qatar Airlines); Real Madrid, Paris Saint-Germain, Arsenal, Milan (Emirates) e Manchester City (Etihad Airlines) compartilham destino. Por sua vez, os Emirados Árabes Unidos é o maior investidor desde 2005 em patrocínio de camisetas de times europeus. Há uma década, nem sequer estava presente na indústria: agora dá 163 milhões de dólares.

Contradições

Como se vê, a geopolítica do futebol também tem suas próprias contradições. Os dois maiores mercados do futuro, a China e os países árabes, coincidem com territórios onde a democracia é fraca. Por outro lado, a África, que conta com a Nigéria – o país que mais ama o futebol no planeta, de acordo com o relatório Sports DNA, da Repucom –, pouco importa. “Infelizmente as marcas não veem o continente como um potencial consumidor. É um viveiro de talentos, mas não de renda”, admite Ramón Amich, diretor da Repucom na Espanha.

Porque o dinheiro do futebol é medroso e quando o BBVA destina 23,5 milhões de euros por temporada ao patrocínio da Primeira e da Segunda Divisão espanhola sabe que o desembolso terá retorno. Algo semelhante acontece com a Caixa Econômica Federal, uma entidade pública, que é o grande sustentáculo do futebol brasileiro. Falamos de um mercado – estima a Fundação Getúlio Vargas – de 11 bilhões de reais por ano e 370.000 empregos, que também fabrica talentos. “Há muitos anos o Brasil é o maior exportador de jogadores de futebol do mundo e continuará sendo”, prevê Eduardo Carlezzo, advogado brasileiro especialista nesse esporte.

Brasil, Ásia, África, Emirados Árabes Unidos. Ninguém duvida de que o futebol procura incansavelmente novos horizontes. Crianças norte-americanas correm cada vez com mais frequência atrás da bola, enquanto sonham com o futuro. “Acompanho de perto a Major League Soccer nos Estados Unidos. Tenho a sensação de que é o único torneio que em poucos anos será capaz de competir com as grandes ligas europeias”, prevê Raffaele Poli, diretor do CIES Football Observatory.

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos