Bela Gil e o vatapá de Caymmi

Janio Ferreira Soares

Atualmente são tantos os programas sobre culinária na TV, que se Caymmi fosse vivo e embarcasse nas ondas gastronômicas desses modernos chefs/apresentadores, provavelmente seria tentado a compor seu Vatapá com alguns ingredientes além do fubá, dendê, pimenta malagueta, castanha de caju, amendoim, camarão, sal com gengibre, cebola e coco ralado – principais responsáveis pelo sabor do prato e encanto da canção. E para exemplificar essa teoria em meio a tantos olivers, claudes, anquiers e palmirinhas, pedirei uma mãozinha à simpática Bela Gil para me ajudar a desenrolar a folha de couve sem agrotóxicos, que, espero, dará um gostinho todo especial nessa minha aguada sopa de letrinhas. Voilà!

Na versão vegana/baiana desse quitute tão reverenciado, imagino que ela conservará o azeite de dendê, porém acompanhado de tofu, quinoa e sementes de girassol (de preferência produzidos na fazenda de Marcos Palmeira), para quebrar um pouco as propriedades um tanto quanto empanzinadoras do famoso acepipe.

Já o fubá, muito em decorrência de suas lembranças afetivas, deverá ser mantido, uma vez que ele era muito usado nas guloseimas feitas por Dona Benta e Tia Nastácia no Sítio do Pica Pau Amarelo, programa, creio eu, que desalinhavou de vez a linha do rendilhadoque blindava seu palato das esquisitices gustativas que ora principiavam – a começar pelo seu pai todo dia falando de uma bananada de goiaba e de uma goiabada de marmelo na música de abertura da série (mesmo assim, mantendo a coisa do foco, a doce Bela adicionaria uma porção de fécula de araruta para amenizar as calorias da velha e boa farinha).

Resolvido o problema das substâncias complementares desse, digamos, vatapá do bem, outro detalhe importantíssimo para a receita não embolar é a questão da “nega baiana que saiba mexer”. Sim, porque se naquele tempo Caymmi ficasse sem a sua – por uma doença ou algo do tipo -, pediria emprestada a de Jorge Amado, a de Caribé, ou, principalmente,a de Vinicius –que além dos dotes culinários fora treinada por ele para praticar outros tipos de remelexos. Mas agora, com esseescarcéu do politicamente correto, quem é doido de perguntar a uma afro-baiana se ela topa mexer os seus condimentos?

Assim – e até para popularizar a exótica receita -, sugiro realizar um concurso no (onde mais?) Esquenta, para escolher a jovem baiana que simbolizaráo vatapá da nova era. E entre dezenas de candidatas de todas as partes, cores e medidas – usando máscaras para não influenciar os jurados -, finalmente conheceremos a vencedora, que chegarádentro de um caldeirão emprestado pelo cínico apresentador do estúdio vizinho, enquanto Pablo, que até há pouco dançava com Fernanda Montenegro (“esse é um programa de misturas, gente! ”), é chamado para destampá-lo. Tilintam os berimbaus. “E a nova menina baiana é…., ôxi,Preta Gil!? ”, já sem a aliança e de novo na pista. Arlindo Cruz se emociona e Ferreira Gullar, de mãos dadas com Rita Cadilac, cai no samba.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, no lado baiano mais cheio de energia e de sabores (ah, o gosto do muricí com rapadura) do Rio São Francisco.

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 23 Maio, 2015 at 15:19 #

Caro Jânio, vatapá veganamente saudável lembra amor sustentável.

Se lá o que forem, seja lá quem os consuma, não são produtos de receitas.

São apenas renúncias!

Necessitam prescrições, treinamento, disciplina e submissão.

Um dia inventam a cachaça detox, para gargarejos saudáveis.

Tim tim!


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