Vai para o cronista Janio Ferreira Soares, em Paulo Afonso, a cidade mais carregada de energia e de sabores do lado baiano do São Francisco, o rio amado rio da minha aldeia.

Ah, o inesquecível sabor do murici das serras de Glória, pisado no pilão com rapadura. Como dizia o saudoso colunista Silvio Lamenha: “resistir, quem há de?”
BOA TARDE!!!
Vitor Hugo Soares

Bela Gil e o vatapá de Caymmi

Janio Ferreira Soares

Atualmente são tantos os programas sobre culinária na TV, que se Caymmi fosse vivo e embarcasse nas ondas gastronômicas desses modernos chefs/apresentadores, provavelmente seria tentado a compor seu Vatapá com alguns ingredientes além do fubá, dendê, pimenta malagueta, castanha de caju, amendoim, camarão, sal com gengibre, cebola e coco ralado – principais responsáveis pelo sabor do prato e encanto da canção. E para exemplificar essa teoria em meio a tantos olivers, claudes, anquiers e palmirinhas, pedirei uma mãozinha à simpática Bela Gil para me ajudar a desenrolar a folha de couve sem agrotóxicos, que, espero, dará um gostinho todo especial nessa minha aguada sopa de letrinhas. Voilà!

Na versão vegana/baiana desse quitute tão reverenciado, imagino que ela conservará o azeite de dendê, porém acompanhado de tofu, quinoa e sementes de girassol (de preferência produzidos na fazenda de Marcos Palmeira), para quebrar um pouco as propriedades um tanto quanto empanzinadoras do famoso acepipe.

Já o fubá, muito em decorrência de suas lembranças afetivas, deverá ser mantido, uma vez que ele era muito usado nas guloseimas feitas por Dona Benta e Tia Nastácia no Sítio do Pica Pau Amarelo, programa, creio eu, que desalinhavou de vez a linha do rendilhadoque blindava seu palato das esquisitices gustativas que ora principiavam – a começar pelo seu pai todo dia falando de uma bananada de goiaba e de uma goiabada de marmelo na música de abertura da série (mesmo assim, mantendo a coisa do foco, a doce Bela adicionaria uma porção de fécula de araruta para amenizar as calorias da velha e boa farinha).

Resolvido o problema das substâncias complementares desse, digamos, vatapá do bem, outro detalhe importantíssimo para a receita não embolar é a questão da “nega baiana que saiba mexer”. Sim, porque se naquele tempo Caymmi ficasse sem a sua – por uma doença ou algo do tipo -, pediria emprestada a de Jorge Amado, a de Caribé, ou, principalmente,a de Vinicius –que além dos dotes culinários fora treinada por ele para praticar outros tipos de remelexos. Mas agora, com esseescarcéu do politicamente correto, quem é doido de perguntar a uma afro-baiana se ela topa mexer os seus condimentos?

Assim – e até para popularizar a exótica receita -, sugiro realizar um concurso no (onde mais?) Esquenta, para escolher a jovem baiana que simbolizaráo vatapá da nova era. E entre dezenas de candidatas de todas as partes, cores e medidas – usando máscaras para não influenciar os jurados -, finalmente conheceremos a vencedora, que chegarádentro de um caldeirão emprestado pelo cínico apresentador do estúdio vizinho, enquanto Pablo, que até há pouco dançava com Fernanda Montenegro (“esse é um programa de misturas, gente! ”), é chamado para destampá-lo. Tilintam os berimbaus. “E a nova menina baiana é…., ôxi,Preta Gil!? ”, já sem a aliança e de novo na pista. Arlindo Cruz se emociona e Ferreira Gullar, de mãos dadas com Rita Cadilac, cai no samba.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, no lado baiano mais cheio de energia e de sabores (ah, o gosto do muricí com rapadura) do Rio São Francisco.


Dor e solidão:Corpo de Claudenice é retirado dos
escombros a poucos metros do Elevador Lacerda

ARTIGO DA SEMANA

Verões do poder em Aratu e outono triste em Salvador

Vitor Hugo Soares

Não poderiam ser mais simbólicos, na acidentada topografia de Salvador, os locais onde bravos homens do Corpo de Bombeiros e voluntários da Defesa Civil – ao lado de parentes em desespero – retiraram os corpos da vigésima e da vigésima primeira vítima dos deslizamentos de encostas e desabamentos de casarões e prédios na terceira maior cidade do País. São três semanas de temporais, quase sem parar, neste mês de maio de trapaças e enganos em Brasília. Outono da desesperança na Cidade da Bahia.

Terça-feira, na Ladeira da Preguiça (da canção de Gilberto Gil, que Elis Regina consagrou), via de ligação histórica com a basílica da Conceição da Praia, um muro desabou do alto da encosta da Ladeira da Montanha (suntuoso observatório da Bahia de Todos os Santos em dias de sol), e caiu em cima de três casarões na Cidade Baixa. Um jovem marinheiro de 31 anos, Oberdan dos Santos Barbosa, que morava no lugar, ficou sob os escombros. O irmão, que escapou, em lágrimas, na TV, fala dos gritos e apelos de socorro do marinheiro e ele impotente para salvá-lo. De cortar coração.

No dia seguinte, o drama se desdobra. No entorno da Praça Cayru, ao lado do Elevador Lacerda – marca maior entre as atrações da cidade – outros seis casarões vêm abaixo, na área do Centro Histórico, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (IPHAN). Sob a montanha de destroços, bombeiros retiram o corpo de Claudenice Gonçalves, de 51 anos. As imagens dilacerantes dos bombeiros e voluntários reunidos em um círculo de oração, enquanto as vizinhas da morta, parentes e moradores choram e gritam indignados seus protestos pedidos de socorro e “providências das autoridades competentes”, são emblemáticas na representação da dor, abandono e impotência da gente mais pobre e humilde da chamada “cidadela da resistência da Bahia”.

Poucos metros acima, na Praça Tomé de Souza, fica o prédio da Prefeitura, sob comando de ACM Neto (DEM), até o verão passado um dos administradores públicos mais bem avaliados do País. Bem ao lado está a Câmara de Vereadores, a mais antiga do Brasil – uma miscelânea de partidos e de interesses em choques, a exemplo das demais casas parlamentares do País, em geral. Quando não tremendos focos de corrupção e maracutaias expostas nos escândalos federais, municipais e estaduais de cada dia. Alguns quilômetros adiante, no Centro Administrativo, fica a Governadoria do Estado, ocupada pelo petista Rui Costa, em área mais segura aos impactos das chuvas (mas não aos desgastes políticos da inação ou do jogo de cena).

Até a hora que escrevo este artigo, na sexta-feira, Claudenice foi a 21ª pessoa retirada sem vida de escombros na atual temporada de chuvas. Nas imagens das tragédias na Ladeira da Preguiça e no Taboão não aparecem políticos. Nem o prefeito, nem o governador, nem os vereadores.

A presidente Dilma Roussef, no entanto, é uma das ausências mais notadas nestes dias de dor e desamparo dos soteropolitanos. Afinal, Salvador, que vai sediar no mês que vem o Congresso Nacional do PT, é citada em prosa e verso, pelos petistas, como “a cidade mais dilmista do Brasil”, cachoeira de votos para a atual ocupante do Palácio do Planalto, nas duas últimas eleições presidenciais. Além disso, Dilma é uma habitual frequentadora, com a família, da deslumbrante e privativa praia de Inema, na Base Naval de Aratu. Presença nas férias, feriados e feriadões, sempre nos períodos mais ensolarados e festivos das temporadas de verão em Salvador.

Nos últimos quase 30 dias de chuvas, ela já sobrevoou o espaço aéreo baiano mais de uma vez, para participar de inaugurações e convescotes políticos em outros estados do Nordeste. Mas não desceu na Bahia. Para liderar providências ou mesmo para um gesto ou palavras quaisquer de solidariedade na hora de grande dor (e mágoa) da gente da Cidade da Bahia. O ex-presidente Lula, que costuma afirmar no palanque ter nascido na Bahia, em outra encarnação, estava com visita marcada para estes dias em Salvador. Mandou seus assessores cancelarem, sem mais explicações.

Quem fez bonito com os soteropolitanos na hora difícil foi o senador mineiro Aécio Neves, do PSDB. Quinta-feira, 21, o candidato tucano derrotado por Dilma na disputa pela presidência da República, principal líder oposicionista com mandato no País, deu por telefone uma emocionada entrevistado na Rádio Metrópole, no programa de Mario Kertész (radialista e ex-prefeito da capital baiana), de grande audiência em todas as camadas da população, na capital e no interior da Bahia. “Queria prestar minha solidariedade pessoal para as famílias atingidas em Salvador. Torço aqui para que as chuvas deixem vocês em paz”, começou Aécio.

Em seguida, o senador tucano desceu o malho no governo petista. Revelou que o governo Dilma só gastou 4% dos recursos destinados ao Plano Nacional de Gestão de Riscos e Respostas a Desastre Naturais. “O governo federal não gastou nada com o programa. Congelou. Já com propaganda foram gastos R$ 2,3 bilhões”, condenou o líder oposicionista. Na conversa, o senador tucano atirou muito mais no governo. Mas fico por aqui, com um aviso e um alerta: a Meteorologia prevê mais chuvas e ventos fortes para a Cidade da Bahia. Pelo menos até domingo (24).

Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei!

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail:vitor_soares1@terra.com.br_

BOM DIA E, SE POSSÍVEL, QUE A NATUREZA ESPANTE A CHUVA E TRAGA O SOL DE VOLTA À DEVASTADA CIDADE DE VERÃO.

BOM DIA

(Vitor Hugo Soares)

DEU NO BLOG POR ESCRITO ( DO JORNALISTA LUIS AUGUSTO GOMES)

OPINIÃO

A desarticulação de Elmo Vaz

Nada de novo na postura do ministro Jaques Wagner com relação à perda para o Piauí do comando da Codevasf, quando de início calou-se e só veio a manifestar-se depois que a bancada dos senadores baianos protestou.

Wagner jamais se chocaria com o governo federal por qualquer interesse baiano, como sempre foi sua conduta mesmo no governo do Estado. A oposição cansou de acusá-lo de fazer qualquer sacrifício para não desagradar os presidentes Lula e Dilma nem a cúpula nacional do PT.

No meio político, aliás, desconfiou-se de que a demissão de Elmo Vaz era um caso sem jeito depois de anunciada a participação do ex-governador, na sua condição de “grande negociador”. Pelo menos ajudou a esclarecer por que não foi colocado na articulação política de Dilma.

maio
23
Posted on 23-05-2015
Filed Under (Artigos) by vitor on 23-05-2015


Aroeira, no jornal O Dia (RJ)

DO EL PAIS

Carla Jiménez São Paulo

O ministro do Planejamento Nelson Barbosa anunciou na tarde de sexta-feira o esperado corte na carne que o Governo precisava promover para retomar o controle das contas públicas, que saíram do eixo em 2014. O plano de austeridade do Governo prevê uma economia de 69,9 bilhões de reais, incluindo a redução de verbas para todos os 39 ministérios – vão receber 48,6 bilhões de reais a menos do que havia sido aprovado inicialmente no Orçamento – e outros 21,4 bilhões restantes equivalem a emendas parlamentares que deveriam ser liberadas, mas serão retidas.

Um dos maiores cortes atingiu o Programa de Aceleração de Crescimento, criado ainda no Governo Lula, para incentivar as obras de infraestrutura. Os recursos para o programa caíram de 65,6 bilhões de reais, que estava previstos, para 40 bilhões. “Obras de rodovias e ferrovias com mais de 70% de execução serão preservadas”, disse Barbosa, que fez o anúncio sem a presença do ministro da Fazenda, Joaquim Levy que, segundo o titular do Planejamento, não compareceu ao anúncio porque estava gripado.
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Dentro desse ajuste, o Programa Minha Casa Minha Vida (MCMV), uma das bandeiras do Governo Rousseff, teve redução de verbas de 19 bilhões de reais para 13 bilhões de reais. “Será garantida a execução de obras já contratadas, e as que estiverem abaixo do limite de 70% de conclusão terão um ritmo de execução adequado”, completou o ministro. Segundo ele, obras de combate à crise hídrica, em portos e aeroportos serão preservados, assim como o Plano Nacional de Banda Larga, que visa ampliar o acesso à internet em todo o país. Os maiores cortes em números absolutos, a priori, atingem a pasta de Cidades, responsável pela execução do MCMV, além de Saúde e Educação. Estes dois últimos têm os maiores orçamentos do Governo.

Os ajustes anunciados acontecem nas chamadas despesas discricionárias de cada pasta – gastos importantes mas não obrigatórios – e variaram, dependendo do Ministério. O de Desenvolvimento Agrário, por exemplo, teve uma redução de quase 50% em relação ao que estava planejado gastar no início do ano: de 3,735 bilhões de reais pretendidos, a verba autorizada pelo ajuste foi de 1,892 bilhão de reais. Saúde, por sua vez, teve uma redução de 103,3 bilhões para 91,5 bilhões de reais.

O esperado ajuste fiscal, anunciado nesta sexta-feira, é feito para retomar o controle dos gastos públicos, que tiveram o pior resultado no ano passado, desde 2001, ao fechar com déficit de 0,63% do Produto Interno Bruto (PIB). O ajuste vem corrigir, ainda, uma prática que foi batizada de ‘contabilidade criativa’ da equipe econômica anterior, liderada por Guido Mantega, que promovia manobras fiscais para fechar as contas.

Pelo orçamento, o Executivo tem 1,2 trilhão de reais disponíveis. Programas de inclusão social, como Bolsa Família, bandeiras do PT, foram mantidos. O orçamento estimado para os beneficiários do programa que é a vedete da Gestão petista, é de 27 bilhões de reais para este ano.

O ministro Joaquim Levy estabeleceu como parâmetro dos cortes o orçamento de 2013. “Na medida em que 2014 foi um ano de certo excesso, o que levou a um déficit primário, e não queremos repetir isso, estamos voltando para (os níveis de) 2013, que foi relativamente de expansão”, disse Levy na última segunda.

Para fechar as contas, porém, o ajuste vai contemplar o aumento de impostos. Nesta sexta, o Governo editou uma medida provisória que estabelece o aumento de contribuição sobre lucro líquido de instituições financeiras – de 15% para 20%. A equipe econômica de Rousseff espera, ainda, a aprovação de um projeto de lei no Congresso para reduzir benefícios concedidos no primeiro mandato da presidenta, como a desoneração da folha de pagamento das empresas, que garantiu desconto de tributos em nome da preservação de empregos.

A perspectiva de que o ajuste vai reverter a blindagem de empregos conseguiu unir oposição e trabalhadores na resistência ao plano de austeridade da presidenta Dilma. Um manifesto divulgado nesta quinta por centrais sindicais, movimentos sociais e intelectuais de esquerda criticam o chamado “pacote Levy”, que trará recessão e desemprego. “A posição do Governo, expressa pelo Ministério da Fazenda, está concentrada exclusivamente numa política de ajuste fiscal, que além de insuficiente, pode deteriorar ainda mais o quadro econômico brasileiro”, descreve o manifesto, apoiado inclusive por dois senadores do PT que prometem votar contra as medidas de ajuste que correm no Congresso.

O Governo já estaria disposto a voltar atrás em alguns recortes que precisam ser aprovados no Senado até o dia primeiro de junho (antes de vencer a validade das MPs), como é o caso da MP do abono salarial, concedido atualmente a empregados com ao menos três meses de trabalho. O Executivo propunha ampliar esse prazo para seis meses, mas já recuou. A presidenta e sua equipe tentam convencer o país que o ajuste terá efeitos temporários é sua implementação é necessária para avançar mais adiante. Nesta quinta, ela garantiu que as tesouras de Levy “não vão paralisar o Governo”.

Este ano, porém, o repasse de recursos da União a Estados e municípios tem sido postergados, o que já tem gerado efeitos práticos na gestão de obras, de universidades estaduais e no pagamento de reajuste de servidores, segundo governadores que se reuniram esta semana no Senado.

O anúncio dos famigerados cortes estão sendo feitos no mesmo dia em que a presidenta do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, participa de um Seminário sobre metas de inflação no Rio de Janeiro. Lagarde foi uma das poucas a elogiar publicamente o ajuste, que promovem segundo ela, sinais positivos. “A austeridade macroeconômica está claramente na direção correta”, disse ela, ainda que a inflação se mantenha alta, pela recomposição de preços administrados, como o da gasolina, que havia sido represado no ano passado para não estourar a meta inflacionária de 6,5%.

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