Dilma em Maragogipe:Pessoa bate o martelo

De Brasília a Salvador: Quem tem medo de Ricardo Pessoa (UTC)?

Vitor Hugo Soares

Quinta-feira, 14 de maio do ano das tempestades devastadoras na Cidade da Bahia – literal e metaforicamente falando. Dia seguinte ao desassossego geral em Brasília (para dizer o mínimo) com a passagem, por lá, de Ricardo Pessoa: dono da UTC, citado como chefe e negociador do grupo de empreiteiros corruptores enrolados no Petrolão, a partir da Lava Jato.

Carga ambulante de nitroglicerina pura, ele fez a explosiva viagem com o propósito de concluir detalhes e assinar, na sede da Procuradoria Geral da República, o mais aguardado acordo de delação premiada da década. Fato mais novo e contundente do grande escândalo da vez no Brasil. Maior de todos de que se tem notícia, envolvendo corruptos e corruptores (políticos, empresários, funcionários públicos dos mais altos escalões e gente graúda do governo) metidos na pilhagem financeira e na destruição da credibilidade da Petrobras, um orgulho nacional.

Feito e firmado, aguardam-se os desdobramentos e consequências criminais e políticas, aparentemente inevitáveis, da inesperada visita a Brasília do bam bam bam da UTC.

Em Salvador, tão estressada (ou mais) quanto a capital do País – e não só pelos desastre e mortes causados pelas chuvas, em combinação fatal com históricas mazelas administrativas – o jornal Tribuna da Bahia traz no alto da primeira página, da sua edição impressa, uma minúscula mas expressiva fotografia do figurão das construções a ponto de explodir. Encalacrado que anda com a polícia e a justiça em seus calcanhares (literal e figurativamente), e a família em seu cangote.

Ao lado da foto, uma interrogação singela, mas jornalisticamente relevante e crucial. Capaz de abalar o sistema nervoso e revolver os intestinos de muita gente, da Bahia a Brasília, passando por inúmeros outros destinos: “Ele resolveu falar. E tem muito a contar. E agora?”, pergunta a manchetinha incômoda da TB, daquelas com poder de tirar o sono e fazer muita gente correr aos pretinhos básicos, ansiolíticos tarja preta, para aguentar o tranco.

Agora é aguardar para saber sobre os próximos passos do procurador-geral, Rodrigo Janot, e se o ministro do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavaski, dono e senhor da palavra final, aceitará a proposta de delação e autorizará Pessoa a contar tudo o que sabe e fez em suas tenebrosas transações de corruptor notório.

Enquanto isso, sigamos o compasso do samba famoso, que ensina: “recordar é viver.”

A foto reduzida de Ricardo Pessoa, na primeira página da Tribuna da Bahia, remete a memória, baiana e nacional, a outra imagem maior e mais emblemática. Retrato quase perfeito da mistura acintosa do público e do privado no País, a ponto de ficar praticamente impossível para a opinião pública, a sociedade, distinguir onde um termina e o outro começa, ou vice-versa.

A imagem foi produzida na sexta-feira, 13 de julho de 2012. No cenário quase sagrado do Recôncavo Baiano, às margens deslumbrantes da foz do Rio Paraguaçu, durante festança econômica, política e eleitoral na histórica cidade de Maragogipe. Com a presença da presidente de República, Dilma Rousseff, já em pleno trabalho de campo pela reeleição.

Dilma participava da cerimônia de batismo da Plataforma B-59, seguida do lançamento da pedra fundamental do Estaleiro do Paraguaçu, investimento orçado em R$ 2 bilhões, previsto para começar a operar no ano passado. Sonho de maragogipanos, japoneses e baianos em geral, que praticamente se esfacelou com os primeiros solavancos do Lava Jato.

Destinado à construção e integração de unidades offshore como plataformas, navios especializados e unidades de perfuração, a obra monumental do estaleiro (EEP) foi entregue a um consórcio formado pelas empresas baianas Odebrecht e OAS, a carioca UTC e a japonesa Kawasaki.

Na foto de palanque antecipado da grande festança nacional em Maragogipe (corre ainda pela web, comandada por Dilma em dia de sorriso aberto, aparece em primeiro plano a inconfundível figura de Ricardo Pessoa, bem na frente da presidente. O dono da UTC segura um enorme martelo para marcar, simbolicamente, a importância do momento.

Em volta, o ex-governador da Bahia e atual ministro da Defesa, Jaques Wagner; a então presidente da Petrobras, Graça Foster e o ex , José Sergio Gabrielli; o ministro dos Transportes na época, o baiano Sérgio Passos; o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, o senador Walter Pinheiro, o atual governador Rui Costa, e um sem número de nomes da arraia menor da política e dos negócios na Bahia e no Pais. Muitos japoneses sorridentes também na fotografia. O ex-presidente Lula não esteve presente na festa, mas foi ele o nome mais lembrado, citado e reverenciado por todos. No palanque e na plateia.

Paro por aqui, mas deixo no ar a pergunta que não quer calar e razão maior do estresse extremo destes últimos dias da Bahia a Brasília: Na cabeça de quem vai desabar as marteladas de Ricardo Pessoa, a bomba ambulante da UTC? Responda quem souber.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Janio on 16 Maio, 2015 at 10:49 #

Vitor, meu velho e bom, daqui das bandas onde a garoa que engrossa o milho da canjica ainda não deu as caras, novamente sou forçado a chover no molhado de sua inesgotável horta, graças ao nosso valente Francisco ainda cheia de juazeiros, umbuzeiros e urtigas, é lógico, que é pra fazer coçar os pés da moçada.
Essa foto do glorioso Ricardo Pessoa com o martelo na mão – qual o pai do Poderoso Thor pronto pra detonar as galáxias -, me fez lembrar de um artigo que eu fiz nos bons tempos do Terra Magazine (saudades, Claudinho!) chamado A Machadinha de Daniel Dantas (http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3030855-EI6578,00.html), que à época também ameaçava decepar algumas valiosas cabeças do império.Descrentes que somos, nessas horas só nos resta apelar pro nosso velho Antônio de glórias e glórias, amém. Oremos.


luis augusto on 16 Maio, 2015 at 10:57 #

Caro Vítor, tinha escrito quase todo o comentário, mas fiz umas barbeiragens aqui e perdi tudo.

Dizia que, fora o aspecto jornalístico, traduzido nas marteladas do final, que não sei em que cabeças serão, mas imagino, é preciso registrar o show de estilo que propicia a leitura gostosa.

A carga ambulante acrescentada à nitroglicerina e o trânsito entre o literal e o figurado nas tempestades que se abatem sobre Salvador e na citação indireta da tornozeleira eletrônica foram um conforto estético.

Volto, por fim, a elogiar sua seletividade de imagens, neste caso, com uma análise da foto igualmente emocionante. Abraços, parabéns e obrigado.


luis augusto on 16 Maio, 2015 at 11:00 #

Minha demora só me impediu de ser o primeiro a comentar, posto que ficou para o poeta Jânio. Quando terminei, ele já tinha chegado.


luiz alfredo motta fontana on 16 Maio, 2015 at 11:12 #

Pois é!

VHS tua garimpagem continua cirúrgica.

As imagens são assim por vezes explícitas, por vezes sutis.

Nesta um detalhe acena.

Até o martelo de Dilma es´ta frouxo, pendurado, sem energia,caso, os de Foster e Pessoa, tenham essa pose grotesca e fálica, o de Dilma, em premonição, é apenas impotência.


Janio on 16 Maio, 2015 at 11:32 #

Meu igualmente velho e bom Luiz (nosso Por Escrito tá cada vez melhor), o título de poeta me deixa – como se diz por aqui – cheio de pernas; mas, colocado logo abaixo do texto do mestre Vitor, me fez lembrar de quando Ariano Suassuna, depois de ler uma crítica onde Chimbinha (guitarrista da banda Calypso) era chamado de genial, disse: “se Chimbinha é genial, como diabos eu devo chamar Beethoven?”.


luis augusto on 16 Maio, 2015 at 11:38 #

Esse Ariano… sempre me fazendo dar gargalhadas.

Obrigado pelo conceito, e vou fazer uma concessão: você é um poeta da prosa.


luiz alfredo motta fontana on 16 Maio, 2015 at 11:51 #

Caros Luís e Janio

Cometendo o doce prazer de intrometer-se em conversa alheia

A poesia está no olhar e banha tanto poemas quanto prosas, ou, no tom preguiçoso de conversas ao pé do fogão ou no apoio de um balcão de bar.

Janio tem esse olhar, a poesia exala de seus textos e comentários, modifica vocábulos, enfeita pontuações e tempera entrelinhas.

VHS é outro, assopra poesia, até quando se recolhe ao silêncio dos que conhecem o próximo parágrafo.


Janio on 16 Maio, 2015 at 12:15 #

Continuando o papo de comadres (enquanto gelam as birras), não à toa escrevi o Luis, de Augusto, com o mesmo Z que zumbe no final do nome de outro craque.


vitor on 16 Maio, 2015 at 12:25 #

Benditos Francisco e Antonio, que deram a este ateu que acredita em milagres, companheiros de estrada e amigos iluminados e fundamentais do porte de Janio e Luis Augusto. Se não bastassem tamanhas dádivas, ainda jogam o poeta de Marília no caminho. Tim Tim!!!


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