Quem salvar?: o tatu ou Datena?

Deus prefere os tatus?

Deus prefere os tatus?

Janio Ferreira Soares

Apesar de saber que temas religiosos geralmente causam um rebuliço danado numa boa parte daqueles que sempre me dão a honra, não tem como não voltar ao assunto diante dos últimos acontecimentos tectônicos, mesmo correndo o risco de virar uma espécie de Judas cibernético, malhado que serei por desaforados e-mails cheios de parábolas pescadas nas profundezas das sagradas escrituras. Resignado, preparo meu encarquilhado lombo, limpo minhas lentes antirreflexo e prossigo catando letras que, na delas, mais uma vez me desafiam a transformá-las em vocábulos lógicos. Simbora.

Sempre que acontecem desastres naturais é comum pipocarem discussões sobre o papel de Deus no processo. O principal questionamento, é claro, versa sobre sua suposta lavagem de mãos diante das grandes tragédias – a exemplo dos recentes deslizamentos de terra em Salvador e do terremoto no Nepal.

Se para os fiéis prevalecem os velhos chavões que tentam consolar aquela mãe que viu seus filhos soterrados na lama (“eles foram os escolhidos do senhor”, ou “eles pagaram pelos pecados do mundo, mas agora estão na morada eterna”), para os descrentes isso é mais uma prova da inexistência divina e ponto final. Já para uma ala que transita entre a lógica e a fé, Deus pode até existir, mas tem lá suas limitações. Traduzindo, essa história daquele que tudo pode estaria mais para uma peça publicitária criada por algum João Santana da Galileia, provavelmente tentando reverter a opinião pública diante do suposto abandono reclamado por seu filho na hora da crucificação. Ai de mim!

Não satisfeito com as lapadas virtuais – e desconfiado de que virei um velho masoquista -, colocarei mais lenha na fogueira da minha própria inquisição, logicamente baseado nas recentes pesquisas de cientistas ingleses e americanos, que depois de observarem comportamentos incomuns no reino animal (em 2010, na Itália, centenas de sapos se salvaram abandonando uma lagoa antes de um terremoto), espalharam câmeras no Parque Nacional de Yanachaga, no Peru, para tentar conseguir maiores detalhes desse fenômeno. E o resultado foi exatamente o esperado. Antes da terra tremer eles se mandaram de suas tocas para locais mais seguros. Beleza.

A questão é: que tipo de aviso eles receberam para tomar tal atitude? Segundo os doutores, deve ser um sinal eletromagnético gerado pelo movimento das placas. Peço vênia para discordar das sumidades e já emendo com minha teoria, que, ô derrota!, provavelmente me levará direto para o inferno, sem sequer uma adaptaçãozinha no purgatório. Eu acho que Deus, chateadíssimo com as malandragens do mundo, resolveu que os únicos que merecem sua consideração são esses indefesos seres, que não enchem seu saco com picuinhas políticas, não fundam igrejas para se autoproclamarem íntimos, nem têm WhatsApp ou Instagram. E aqui pra nós, numa disputa entre Ana Maria Braga e um tatu – ou entre Datena e um cururu -, quem você acha que merece ser salvo?

Janio Ferreira Soares, cronista , é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco e na porta de entrada do Raso da Catarina, “paraíso dos tatus” no sertão nordestino.

Be Sociable, Share!

Comentários

luiz alfredo motta fontana on 9 Maio, 2015 at 13:32 #

Caro Janio

Para nosso consolo, em terra que elege Dilma, somos todos antas.


Taciano Lemos de Carvalho on 9 Maio, 2015 at 19:47 #

“Maio
12

Os sismógrafos vivos

No ano de 2008, um terremoto feroz sacudiu a China.

Fazia dezenove séculos que o sismógrafo tinha sido inventado na China, mas nenhum sismógrafo avisou o que ia acontecer.

Quem avisou foram os animais. Os cientistas não prestaram a menor atenção a eles. Dias antes da catástrofe, multidões de sapos enlouquecidos desandaram a correr rumo a lugar nenhum, e a toda velocidade atravessaram as ruas de Miauzhu e de outras cidades, enquanto no zoológico de Wuhan os elefantes e as zebras atacavam as barras das jaulas e os tigres rugiam e os pavões gritavam.”

Eduardo Galeano, no livro Os filhos dos dias (Um calendário histórico sobre a humanidade), Editora L&PM, 2012.


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos