Katmandu:o socorro na cidade destruída no topo do mundo
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Salvador: bairro San Martin, 11 mortos
e uma população no precipício.

ARTIGO DA SEMANA

Katmandu e Salvador: Tragédias entrelaçam destinos

Vitor Hugo Soares

O terremoto de magnitude 7,8 na escala Richter, que no sábado passado (25) sacudiu Katmandu – fabuloso mostruário mundial de beleza, arte, cultura e fé, misturados com dificuldades políticas, superpopulação, miséria e indignação social- nas montanhas do topo do mundo no distante Nepal. Mais de 6 mil mortos contabilizados oficialmente até ontem (1/5).

A enxurrada que caiu na madrugada de domingo para segunda-feira (26 e 27) sobre Salvador: a Cidade da Bahia construída nos cerros, montes e vales cortados de rios e córregos poluídos e aterrados – sem planos e sem previsões, principalmente para as encostas pobres e mais densamente povoadas.

Espaços de opulência e pobreza cercados pela ganância e conluios predatórios ao longo de décadas. Na política, nas gestões públicas incompetentes, na cumplicidade dos clérigos e chefes religiosos, nos negócios privados submersos e escandalosos à beira do mar da Baia de Todos os Santos, Nordeste do Brasil.

Eis os fenômenos naturais extremos e os cenários humanos quase perfeitos na construção de grandes desastres. Some-se a isso os encadeamentos geopolíticos, os malfeitos governamentais, sociais e econômicos mais recentes na terra da descoberta e exploração pioneira do petróleo no País ( para usar a expressão ao gosto da mandatária do PT, calada no Dia do Trabalho).

Tudo contribuiu – trágica e desgraçadamente – para unir dolorosamente os destinos de duas cidades míticas , históricas e amadas do planeta. Ambas, com espaços tombados como PatrimônioArtístico e Cultural da Humanidade pela UNESCO (ONU). Irmanadas nas dores e temores dos últimos dias deste tenebroso abril de 2015.

Em Katmandu e arredores, aonde as equipes de socorro nem haviam conseguido chegar até ontem, mais de 6 mil corpos já foram contabilizados oficialmente. Ao lado disso, as imagens e os levantamentos dramáticos, transmitidos ao vivo por uma equipe da TV Globo, jornalistas do mundo inteiro e especialistas em catástrofes que acorrem à área devastada em socorro de emergência , apontam ainda para o pior: Milhares de vítimas seguem soterradas, e, muito provavelmente, terão sob os escombros o seu túmulo definitivo.

Tesouros preciosos da arte e da cultura orientais, na forma de templos, objetos e monumentos milenares, também foram destruídos e viraram escombros. Alguns definitivamente, sem possibilidades de reconstrução ou restauração

Em Salvador,a cidade construída há 566 anos para ser “a rainha do Atlântico Sul”, no sonho de seus fundadores, 15 mortos, milhares de desabrigados, cenas lancinantes de dor e desamparo, transmitidas ao vivo para o país e o mundo. Submersas ficaram as cenas selvagens das horas em que a tempestade afogava a terra de Gregório de Mattos: bandos roubando relógios, joias celulares de pessoas assustadas e indefesas, presas em seus automóveis e nos ônibus. Saques de lojas e mercados, protestos nas ruas e desarvoramento geral: da polícia, dos políticos, dos governantes. Cenário de devastação que a mídia local qualifica em suas manchetes como o maior desastre da década.

“Um clima de estado de sítio”, definiu com perfeição o jornal Tribuna da Bahia.

No dia seguinte, o de sempre: Uma nota de solidariedade da presidente Dilma Rousseff às vitimas da catástrofe e à população de Salvador em geral ( “a cidade mais dilmista do Brasil”), antes da presidente da República voar de Brasília, para participar, com empresários, políticos e gente do governo, da festa de inauguração da fábrica da Jeep em Pernambuco.

Dilma mandou o seu ministro da Integração Nacional, Gilberto Occhi (ilustre desconhecido dos baianos) para acompanhar o governador Rui Costa (PT) e o prefeito ACM Neto (DEM) em sobrevoo de helicóptero “às áreas de risco” da Cidade da Bahia (as mais pobres da periferia) e depois, em reunião bem coberta pela mídia e os propagandistas dos três governos, “adotar as medidas de socorro e urgência”. Uma delas, o plantão de forças do Exército, para atuar no “atendimento e proteção” dos moradores nas favelas, morros e encostas mais atingidos, de onde centenas de famílias serão compulsoriamente retiradas, diante dos riscos de novos desmoronamentos. Provavelmente, uma ideia do ministro da Defesa, Jaques Wagner, ex-governador do Estado.

Juanita Lagon, do El País, que morou e trabalhou três anos no Nepal, assinou um depoimento jornalístico impressionante sobre o desastre atual em Katimandu, onde em 15 de janeiro de 1934, um terremoto já devastara a capital do Nepal, matando então 18 mil pessoas.

“Todos conheciam as consequências de um terremoto, mas, numa cidade densamente povoada como Katmandu, edifícios e escolas vulneráveis a tremores continuavam sendo inaugurados, as construções já prontas não eram suficientemente reforçadas, e ruas eram ampliadas sem muito planejamento prévio. Em geral, não havia consciência do que fazer depois de um desastre”.

Adaptadas às circunstâncias da cidade e do país tropical “castigados pelas chuva e pelo eterno vento”(Tempo Rei, de Gilberto Gil) , as palavras da espanhola Juanita valem também para capital baiana. O que dizer então um ateu que acredita em milagres, para fechar estas linhas?

“Que as divindades protejam Katmandu e a Cidade da Bahia”.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br.

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 2 Maio, 2015 at 8:09 #

O trio no sobrevoo é a cereja do bolo.

Sobrevoos são consequência previsível e única das tragédias no que diz respeito às autoridades.

Afora isso a promessa de recursos, que se perdem nos desvios e na mora santa.

Em terra de “responsabilidade fiscal” e concentração de recursos no governo federal, obras de infraestrutura são lendas urbanas.

O povo, ora o povo, com sua insistência em “residir”, espreme-se em iminências de tragédias, os caudilhos de plantão estimulam e distribuem doses eleitorais de esperança.

Nessas horas fica evidente a inoperância dos mecanismos de fiscalização dos atos, ou da ausência de atos dos governantes. Em nome da tal moralidade administrativa, condenam ao abandono os que deveriam cuidar.

As tragédias baianas, por obra do acaso divino, na visão dos tolos, jamais acomete autoridades, não se conhece prefeitos, representantes do ministério público, juízes, que tenham sido expostos às intempéries. Dona Cotinha a ingênua, ao acreditar, pobre senhora, que por providência divina, reza mais forte na esperança de também ser atendida.

O trio no sobrevoo, os doutos representantes do Ministério Público, os Magistrados, simulam compaixão. Por uns dois ou três dias, após retornam aos seus afazeres, a vida, deles por certo, precisa seguir.

Enquanto isso…

Fingimos indignação…

Mas, não damos um passo sequer em direção aos verdadeiros culpados.

Até que a próxima tragédia nos atinja.


Mariana Soares on 2 Maio, 2015 at 10:03 #

E é só esperar, porque nas próximas eleições os baianos vão encher as urnas do PT outra vez, em mais um record de votos, como sempre faz…
Que Deus salve esta terra que, afinal, é de todos os santos!!!


Taciano Lemos de Carvalho on 2 Maio, 2015 at 11:01 #

Ah, se as divindades expulsassem da Cidade da Bahia os “desgovernantes” de ontem e de hoje!


Carlos Volney on 2 Maio, 2015 at 20:28 #

Caro poeta, seu admirador confesso, permito-me aqui extrapolar.
Seu comentário é uma crônica literalmente bela e acabada sobre a tragédia baiana, de resto igual a tantas outras que vivenciamos nesta nossa Pindorama.
“Sobrevoos são consequência única e previsível”, é afirmação fatal para quem conserva a capacidade de se indignar com as indignidades de nossos governantes.
Permito-me aqui uma quase digressão. Refiro-me à afirmação de Mariana.
É certo que o PT, na minha ótica, praticou a maior e mais despudorada traição àqueles que como eu acreditaram em sua pregação.
Agora, achar que só ele pratica corrupção como tal, aí eu me permito discordar. São todos farinha do mesmo saco. O crime inafiançável do PT é que pregou a vida toda castidade para depois virar o dono do prostíbulo. E como soube ampliar esse prostíbulo!!!
Mas é só a minha opinião….


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