Teixeira Gomes: “vivemos um
estado de paralisia mental.

DEU NA GAZETA DOS BÚZIOS

Gazeta dos Búzios: Se Gregório de Mattos baixasse hoje na Bahia, em que direções ele acionaria primeiro aquela sua fuzilaria boca-do-inferno/boca-de-brasa?

João Carlos: Se Gregório de Matos reencarnasse hoje na Bahia teria alegria imensa em dispor de farto material para enriquecer sua poesia satírica. Seriam muitas as direções a atacar: a mediocridade da atual safra política, a inoperância de vereadores e deputados estaduais, a estagnação do processo econômico, a indigência cultural, o esfacelamento dos sítios históricos que ele percorreu no esplendor do burgo barroco. Veria que o clero é omisso e a Justiça invisível! Que prato!

Gazeta dos Búzios: Você fez parte do governo de Waldir Pires, num tempo em que muitas esperanças povoaram a Bahia. Anos depois, a suposta “esquerda” voltou ao poder aqui, com o PT. Como você avalia esses anos de governos petistas? Concorda com os que dizem que eles foderam nossa economia, baixariam indizivelmente o nível de nossa política e não moveram uma palha por nossa cultura?

João Carlos: As esperanças a que você alude se frustraram naquela mesma época. Acho muito curioso quando se diz que a “esquerda” chegou ao poder com o PT: basta lembrar que o próprio Lula já confessou que nunca foi de esquerda. A degringolada moral na Petrobrás começou para a opinião publica com a compra acintosa da refinaria de Pasadena e quem presidia a empresa era o baiano petista Gabrielli. Hoje se sabe que a tradição do assalto já vinha de antes. A economia baiana sempre foi fodida, mas houve um surto de esperança com a exploração e o refino do petróleo, a instauração de parques industriais, as idéias modernizadoras da equipe de Rômulo Almeida e urbanisticamente, para Salvador, com os projetos de Mário Leal Ferreira.

Gazeta dos Búzios: Na sua opinião, a Bahia se encontra mesmo, hoje, em estado de paralisia mental, tornando-se um estado quase invisível no horizonte intelectual brasileiro, quando, décadas atrás, era capaz de produzir um Nestor Duarte e um Rômulo Almeida, por exemplo?

João Carlos: A expressão usada na pergunta é adequada: vivemos um “estado de paralisia mental”, tanto que, após a fermentação dos anos 50 com a Universidade Federal da Bahia, um breve hiato de explosão criativa (de que o maior exemplo foram os Seminários Livres de Música) e esperanças, o retrocesso foi contínuo até chegar à vergonhosa inércia atual. Ninguém tem esperanças de criar algo de novo na Bahia sem editoras, dizimada a tradição das artes plásticas, paralisada a criação teatral, inermes os museus com seus acervos mofados, a cadeia maravilhosa dos prédios históricos sustentada por armações metálicas para não desabar, com as entranhas arruinadas à mostra. Quem quer criar vê-se compelido a deixar a terra ou se conformar com o marasmo e a falta de oportunidades, que é geral. Anda decadente até a música axé, que já foi criativa e hoje é mais apropriada apenas para o remelexo de bunda no carnaval elitizado de Salvador. No meio desse panorama desalentador, um raio de sol foi a criação do Neojiba, trabalho musical notável que espero não seja interrompido.

Gazeta dos Búzios: O que você anda fazendo atualmente? Novos projetos em vista?

João Carlos: Acabei de publicar um livro que considero muito importante em minha trajetória, “O Labirinto de Orfeu”, que desejo lançar em 15 de maio na Cultura do Shopping Salvador. Sem querer lamber a cria, no estudo introdutório do livro procuro mostrar o profundo significado da poesia na vida humana, não apenas para letrados pedantes, críticos e estudiosos, mas para todas as situações da vida, até na resistência contra a opressão política. Isto ao lado de 146 sonetos de minha autoria. Presentemente, escrevo um livro de memórias, com o título já escolhido de “A Brava Travessia – Memórias, crônicas e viagens do Pena de Aço”. Este qualificativo me foi dado por um amigo carioca, pela minha vida jornalística de luta e combate. Eis o que faço atualmente, além de escrever em jornal.

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