DO EL PAIS

A ex-ministra da Cultura e do Turismo e senadora Marta Suplicy formalizou sua saída nada à francesa do Partido dos Trabalhadores. Em uma carta de quatro páginas entregue nesta terça-feira aos diretórios nacional, estadual e municipal do PT – e em documento protocolado na Justiça Eleitoral –, a ex-prefeita de São Paulo pôs fim ao casamento de 33 anos com a legenda que ajudou a fundar na década de 80. Mas, diferentemente do que ocorreu em 2001, quando se divorciou do ex-senador petista Eduardo Suplicy (em separação explorada à exaustão pela mídia à época), o processo de ruptura com o PT não teve nada de amigável. Marta deixa o partido atirando para todos os lados: acusou a sigla de “se afastar completamente” dos seus princípios ao se envolver em escândalos de corrupção, de trair seus eleitores e, por fim, de “renegar” completamente seu programa partidário.
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“Eu sou mais uma entre as pessoas que se decepcionaram com o PT e não enxergam a possibilidade de o partido retomar sua essência”, afirmou, em entrevista à revista Veja, apenas dias antes de formalizar sua saída.

Embora sua saída não tenha provocado surpresa – os sinais de insatisfação estavam evidentes –, a cúpula petista já declarou que irá à Justiça brigar pelo mandato no Senado, que vai até 2018. A missão não é das mais fáceis: enquanto o PT argumenta que a cadeira é do partido que trabalhou para elegê-la a todos os cargos a que foi eleita em sua carreira (deputa federal, prefeita e, por fim, senadora), Marta sustenta que sua vitória em 2010 foi mérito de sua trajetória: na carta, lembra que foi a primeira mulher eleita senadora pelo Estado de São Paulo, após receber 8.314.027 votos – e que é a justamente a esses eleitores a quem deve fidelidade.

Marta foi sondada por vários partidos políticos, que reconhecem a força eleitoral que ela tem sobretudo na periferia da capital paulista. Sua desfiliação antecipa em mais de um ano a disputa pela Prefeitura de São Paulo. O provável, porém, é que ela siga os passos da também ex-prefeita e atual deputada federal Luiza Erundina, que ao deixar o mesmo PT em 1997 por divergências políticas escolheu o PSB: legenda com a qual a senadora vem flertando publicamente já há um tempo.

A senadora tem até outubro para se filiar a uma nova sigla caso queira entrar na corrida eleitoral do ano que vem. Sua entrada na disputa pode ser um obstáculo para a reeleição do prefeito Fernando Haddad (PT), já que ambos têm força entre os mesmos nichos (na periferia, onde há sinais de que o atual prefeito tem problemas, e entre os eleitores da esquerda). Outra pedra no sapato dos petistas é que as justificativas de Marta para deixar a legenda engrossam o coro anti-PT, que vem ganhando força em São Paulo, um colégio eleitoral que historicamente dá trabalho para os petistas. Além de Marta e Haddad, outros nomes cogitados para a disputa pelo Palácio do Anhangabaú são o de Celso Russomanno (PRB), deputado federal mais votado do país em 2014 (com 1,5 milhão de votos), e do vereador Andrea Matarazzo (PSDB).

Políticos próximos a ela sempre a descreveram como uma pessoa guiada pela “emoção”, do tipo que você ou ama ou odeia. Dias antes de formalizar sua ruptura com o PT, Marta apelou justamente ao lado sentimental para antecipar o que faria a seguir. Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, falava sobre Steve Jobs para abordar as mudanças nos rumos da vida. O partido não foi citado no texto, mas a mensagem tinha destinatário claro: “Acredito na minha intuição. Às vezes ela dá trabalho e preciso coragem. Para encerrar: a vida é curta, temos de buscar felicidade, sem esquecer que sem sonho ou projeto ela se apequena.”
O início do fim

M. N.

Quem conhece Marta Suplicy a define como uma política esperta e sagaz, mas altamente guiada pela emoção. A paulistana de 70 anos fala o que pensa, chora em público, e não tem medo de bater boca com jornalistas, adversários e aliados.

Em 2001, quando era prefeita de São Paulo, chocou a alta sociedade paulistana ao anunciar o fim do casamento de 36 anos com Eduardo Suplicy – anos depois, o divórcio e o romance com o franco-argentino Luis Favre (com quem se casaria anos depois, e se separaria em 2009) foi apontado por muitos como uma das razões pelas quais ela não conseguiu se reeleger ao cargo em 2004.

Marta nunca escondeu o incômodo que sentia pelo modo como o fim de seu casamento com Suplicy foi retratado pela imprensa, que em vários momentos chamou de “machista”. Em mais de uma ocasião, lembrou como jornalistas acampavam diante de sua casa, em um bairro nobre de São Paulo, no auge de sua crise conjugal; como Eduardo Suplicy era chamado pela imprensa de bom moço abandonado, enquanto ela era retratada como a megera que visitava as favelas de São Paulo no alto de seu scarpin de marca. Também sempre retrucou a fama de “durona” – em vários momentos apontou que, se fosse homem, não seria jamais rotulada como “difícil” ou “grossa”.

“Temperamental”, na descrição de petistas próximos a ela, hesitou em apoiar a candidatura de Fernando Haddad em 2012, após ser obrigada a contragosto pelo ex-presidente Lula a retirar sua pré-candidatura. Só aderiu à campanha depois de a presidenta Dilma Rousseff indicá-la para ocupar o Ministério da Cultura, mas negou com veemência que seu apoio tenha sido fruto de uma troca de favores.

Dois anos depois, sua saída do ministério da Cultura causava tanto barulho quanto sua chegada ao cargo. Em carta de demissão entregue em novembro de 2014, criticou o Governo Dilma, já dando sinais de que o fim estava iminente. Meses depois, publicou um artigo na Folha de S.Paulo intitulado “A vaca vai para o brejo”, em que atacava a condução da economia do país e lamentava o envolvimento do partido com o escândalo da Petrobras. A saída de Marta pode ter sido formalizada apenas nesta terça-feira, mas o fato é que, na prática, há muito tempo ela já havia deixado o partido.
Nota oficial do PT

No final da tarde desta terça-feira, o PT divulgou uma nota oficial sobre a saída de Marta, rebatendo as críticas no mesmo tom da senadora. Leia a íntegra da nota.

“O PT recebe com indignação a carta da senadora Marta Suplicy oficializando sua desfiliação do PT.

Apesar dos motivos enunciados, entendemos que as razões reais da saída se devem à ambição eleitoral da senadora e a um personalismo desmedido que não pôde mais ser satisfeito dentro de nossas fileiras. Por isso, resolveu buscar espaços em outros partidos.

Ao contrário de suas alegações, nunca o PT cerceou suas atividades partidárias ou parlamentares. Sucessivamente prestigiada, com o apoio da militância e das direções, Marta Suplicy foi deputada federal, prefeita, senadora e duas vezes ministra.

Lamentavelmente, a senadora retribui, com falta de ética e acusações infundadas, a confiança que o PT lhe conferiu ao longo dos anos.

Ao renegar a própria história e desonrar o mandato, Marta Suplicy desrespeita a militância que sempre a apoiou e destila ódio por não ter sido indicada candidata à Prefeitura de São Paulo em 2012.

Finalmente, é triste ver que a senadora jogue fora a coerência cultivada como militante do PT e passe a se alinhar, de forma oportunista, com aqueles que sempre combateu e que sempre a atacaram.”

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Comentários

rosane santana on 29 Abril, 2015 at 6:38 #

Mulher, rica, independente, culta, ousada. Alvo certeiro para a ira da tribo dos machos e das mulheres machistas nesta terra de incivilizados.


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