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Um trem para São João Del Rei

Janio Ferreira Soares

Quando o rádio do carro sintonizou a Inconfidência de Belo Horizonte e a
quase voz de Beto Guedes começou a pedalar por alguns tesouros da minha
juventude, respirei fundo, olhei pra Valéria cochilando placidamente com a
cabeça recostada numa surrada malha cinza e então senti que valera a pena ter
escolhido um destino diferente dos de sempre. Tiradentes – cuja placa sinaliza
com mais segurança que o chato do Waze -, está a pouco mais de 200 km e é pra lá que embica a ponta do nariz deste velho gerado e cuspido às margens de um rio nascido bem no topo de uma dessas serras com jeitão de tios na varanda e jipe na estrada. Avante.

Depois de
algumas horas deslizando entre curvas transversas, formigueiros gigantes e
panelas de pedra e cobre, finalmente surge uma cidadezinha que tanto pode ser
Olinda – com Lô Borges na sacada de um sobrado no lugar do velho Alceu -, como
o Pelourinho – neste caso com Tancredo flanando de anjinho barroco no lugar do
babalorixá da cabeça branca ameaçando latanhar lombos insurgentes com seu
chicote de cinco pontas.

Já na
varanda da charmosíssima Pousada Oratório, vejo o entardecer cercando a Serra
de São José e me lembro da igualmente bela Serra do Padre, que até a inundação
da minha aldeia era a paisagem que eu via ao correr, camisa aberta no peito,
pelas ruas de piçarra e becos mal-assombrados. Na sequência um triste apito
quebra o silêncio quase sepulcral e – pena – espanta um jacu solenemente
pousado pertinho da minha janela. Trata-se da Maria Fumaça chamando para a
última viagem do dia em direção a São João Del Rei. Escurece nas Gerais.

Como na
canção de Milton – que nessas bandas soa num diapasão próprio -, noite chegou
outra vez e agora homens e mulheres invadem as ruas de pedras que, se no
passado foram trilhas de lamento e dor, agora servem de cenário para outro tipo
de escravidão, esta conduzida por aspirantes a Djavan se esgoelando em sonhos
de um dia virem a sê-lo, embora, pelo jeito, continuarão pertencendo ao
esforçado grupo de primos de terceiro grau do vizinho do tio de Jorge Vercilo.

Fujo da
saraivada de valei-me Deus é o fim do nosso amor e, já sem nenhuma esperança de
encontrar uma sonoridade que justifique a paisagem, ouço um sax e uma guitarra
acústica num boteco chamado Conto de Réis, que parece sediar um convescote de
sócios fundadores do Clube da Esquina. Saco do bolso minha carteirinha – com
direito a uma acompanhante -, peço uma Germana e Fly Me To The Moon (numa
levada mais torresmo que hot dog) finalmente me salva de findar a noite embaixo
do pé que brotou Maria. Ao trem.

Se os
vagões fossem azuis o lado A estaria completo, pois de resto revejo vários elementos
que embalam meus dias de boa música. O velho maquinista com seu boné; o Sol na
cabeça; andorinhas fazendo buracos no meio do Céu, e até um girassol da cor do
cabelo de uma menininha acenando da janela de uma casinha de palha. Mais Minas, impossível.

Janio Ferreira Soares , cronista, é secretário de Cultura da Paulo Afonso, na margem do Rio São Francisco, que nasce em Minas e corre para a Bahia.

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 25 Abril, 2015 at 19:03 #

Caro Janio

Minas é a Bahia que foi à missa?


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