CRÔNICA/ SOTERÓPOLIS

BARRAVENTO

Gilson Nogueira

Nos quase vinte minutos em que voltei a ser criança ao girar sonhos e fantasias na Roda Gigante patrocinada pela Coca Cola no Farol da Barra tive a sensação que Salvador, apesar de todos os seus absurdos colossais, segue linda por natureza como a cidade do Rio de Janeiro.

Boquiaberto, diante do Edifício Oceania, por estar aquele ícone da modernidade soteropolitana com parte de sua fachada mais estragada que sola de sapato de estafeta, fui, logo, ao girar feito um ponteiro humano, no equipamento, instalado ao lado do Forte de Santo Antonio, o Farol da Barra, com apoio da prefeitura da primeira capital do Brasil, atingido por um raio de sol, que me dizia: “ Pode acreditar, um dia, com fé em pessoas de bom senso, que governam sua cidade, esses navios cargueiros fundeados na entrada da Baía de Todos os Santos e na frente de Mar Grande vão ser proibidos de ficar, lá, sujando a paisagem!”

De repente, a Roda Gigante pára, por poucos segundos. Foi o bastante para ouvir um jovem, que acabara de fotografar um coração de nuvem com o azul infinito ao fundo, atendendo sugestão do passageiro da beleza, dizer: “ Salvador, minha terra, que maravilha!”

Desci, fui obsequiado com um gesto nobre do rapaz: “ Venha, senhor, pode descer.” Lépido, agradeci a gentileza do companheiro de “viagem” e cumprimentei a garota que controlava a saída das pessoas da Roda com um parabéns para vocês. Olhei em volta, enquanto caminhava, com o Globo do Prosa e Verso embaixo do braço, e vi pessoas tentando equilibrar-se em um elástico, ao som de um quase rock. Adiante, um monte de tristeza, atrás de tapumes de alumínio cinza, perto do montinho do Cristo. Era o Barravento. Destruído,

Na imaginação, deu para ouvir um gemido perdido no ar, apelando-me, “Senhor, salve-me, salve-me, não quero partir, não quero partir!!!
“ Não há mais tempo”, respondi.
É triste. Pelo menos, que o nome Barravento continue a identificar aquele local onde funcionou um dos pontos mais luminosos da arte do encontro. Ali, durante anos e anos, contemplava-se a vida, em harmonia, de domingo a domingo, escutando as ondas em Bossa Nova e os latidos de um certo cachorro líquido.

Gilson Nogueira é jornalista, colaborador de origem do Bahia em Pauta

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos