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Postado em 12-04-2015
Arquivado em (Artigos) por vitor em 12-04-2015 00:31

DEU NO EL PAIS

Silvia Ayuso / Marc Bassets

Cidade do Panamá 11 ABR 2015 – 16:52 BRT

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e seu correspondente cubano, Raúl Castro, se reuniram tarde deste sábado na Cidade do Panamá no primeiro encontro deste nível em mais de meio século. O encontro começou às 2:45 da tarde, horário local, em uma sala do centro de convenções onde hoje se encerra a VII Cúpula das Américas.

“Obviamente, este é um encontro histórico”, disse Obama. “Agora, estamos em condições de avançar no caminho que leva ao futuro.” O presidente dos EUA fixou como prioridade do processo de reconciliação a abertura de embaixadas em Havana e Washington. EUA e Cuba interromperam relações diplomáticas em 1961.

“Estamos dispostos a falar de tudo, mas precisamos ser pacientes, muito pacientes”, disse Castro. “É possível que discordemos de algo hoje, e pela manhã, estejamos de acordo.”

Antes do encontro, os presidentes haviam se referido um ao outro durante a plenária principal da cúpula. As palavras mais interessantes do discurso de Raúl Castro na sua primeira participação na Cúpula das Américas não foram preparadas. Não há na cópia original a descrição de Obama, seu inédito aliado no processo de normalização das relações com os Estados Unidos, como um homem “honesto”, como disse neste sábado, sob o olhar atento do presidente norte-americano e dos outros líderes do hemisfério.

Também não aparece seu comentário, depois de fazer um detalhado relato das “agressões imperialistas” dos Estados Unidos à América Latina ao longo da história, de que Obama não é responsável pelo obscuro passado norte-americano. Um histórico que, no que diz respeito a Cuba, também inclui todas as vezes em que os norte-americanos “entraram como aliados e se apoderaram do país como ocupantes”, disse Castro.

Os ressentimentos históricos ocuparam, sim, uma grande parte do discurso. E ele foi longo. Afinal, como disse com malícia e uma piscadela travessa no começo da sua fala, devem-lhe tempo que Cuba não pode usar durante as seis Cúpulas das Américas anteriores, às quais a ilha não foi convidada. Mas, depois de recitar tantos males provocados por Washington, Castro desculpou-se com Obama.

“Peço desculpas ao presidente Obama e a outros por me expressar assim. Eu mesmo já disse que a paixão sai dos meus poros quando se trata da revolução (cubana)”, reconheceu Castro. E foi mais além: “Dez presidentes (dos EUA) têm dívidas conosco, mas não o presidente Obama”, sublinhou, pavimentando um pouco mais o caminho, ainda longo, que os dois têm pela frente na complicada normalização de relações marcadas pela agressividade e a desconfiança durante mais de meio século.

Dez presidentes (dos EUA) têm dívidas conosco, mas não o presidente Obama”

Os comentários foram recebidos com mais de uma risada assustada entre os líderes que o escutavam atentamente. Afinal, da boca de um irmão Castro o que mais se escutou durante mais de 50 anos de conflito foram acusações ao “imperialista ianque”, não um perdão ao seu rosto mais visível.

Mas constitui mais uma prova da firmeza da disposição de ambos por avançar no processo de normalização das relações, iniciado há quase quatro meses, e que deve ser consolidado nesta cúpula panamenha, na qual os dois líderes falam cara a cara pela primeira vez de forma oficial.

“Expressamos, e reitero agora ao presidente Barack Obama, nossa disposição ao diálogo respeitoso e à convivência civilizada entre os Estados dentro das nossas profundas diferenças”, declarou Castro na assembleia de líderes americanos e caribenhos. O presidente cubano disse “achar um passo positivo” as afirmações de Obama de que não deve tardar sua decisão de retirar Cuba da lista norte-americana de Estados que patrocinam o terrorismo, o que tanto deixa a ilha indignada. E valorizou também a sua “decisão corajosa” de enfrentar o Congresso em Washington para reivindicar o fim do embargo econômico.

Raúl Castro deixou claro, no entanto, que as mudanças que estão acontecendo têm um limite: o sistema político de Cuba não vai mudar. Será reformado, sim, mas com um objetivo claro: “Continuaremos concentrados no processo de atualização do modelo econômico cubano, com o objetivo de aperfeiçoar nosso socialismo, avançar ao desenvolvimento e consolidar as vitórias da revolução”, proclamou.

No entanto, em sua estreia no hemisfério, Raúl Castro demonstrou mais uma vez que não é seu irmão Fidel, nem mesmo nas aparências. Sempre que pode, o atual presidente e irmão mais novo do histórico líder cubano evita dar discursos longos. O do Panamá, no entanto, foi uma exceção. A ocasião merecia. O convite para ir ao Panamá encena o regresso – que ainda não está completo, mas totalmente trifunal – ao campo do jogo do hemisfério. Por isso, disse o que queria dizer, no seu tempo. Como ele mesmo afirmou ao começar seu discurso, “já era hora”. Os aplausos foram imediatos.

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