Dona Nalvinha com Dilma em Paulo Afonso
na campanha eleitoral.

CRÔNICA

Nalvinha, Dilma e o Titanic

Janio Ferreira Soares

Era só o que faltava. Dona Nalvinha, uma das poucas pessoas deste país que defendem o governo Dilma com unhas e (poucos) dentes, acaba de ser arrolada como testemunha num processo de abuso eleitoral movido pelo PSDB contra… Dilma. Guardada as devidas diferenças de épocas e estilos, seria a mesma coisa de alguém pedir à Velhinha de Taubaté para depor contra o general Figueiredo.

Sua convocação é por conta daquele famoso episódio sobre a procedência de sua prótese, que, tal o abacateiro de Gil, anoiteceu resina e amanheceu dentadura dias antes da chegada da comitiva presidencial no seu quintal. Além disso, consta nos autos uma declaração dada por ela ao jornalista João Pedro Pitombo, da Folha de São Paulo, dizendo que tudo ali lhe fora dado pela presidente.

Independentemente de qualquer acontecimento provocado por sua fala, confesso que eu seria capaz de, sei lá, até arrancar um siso e dois caninos da minha surrada arcada e doá-los a alguma associação de bocas nuas e gengivas anavalhadas, só para assistir ao seu interrogatório. Mas como não sei se conseguirei, só me resta conjecturar.

Fórum de Paulo Afonso, o juiz eleitoral trajando uma vistosa toga combinando com seu topete agraunado, lhe pergunta: “Nome e profissão”. Dona Nalvinha, bastante nervosa e envergando o ainda novo vestido usado naquele fatídico 21 de agosto de 2014 – porém de há muito sem a prova do crime a atrapalhar sua mastigação -, responde: “Marinalva Gomes, agricultora, ao seu dispor, doutor, vossa excelência, reverendíssimo… ai, meu Deus, nem decorei direito!”.

O juiz, benevolente, manda lhe servir um pouco d’água com açúcar e prossegue. “Dona Marinalva, a senhora confirma ter dito ao jornalista: ‘tudo que eu tenho aqui foi Dilma que me deu’?”. “Olhe bem, doutor, aconteceu tanta coisa naquele bendito dia que eu nem lembro mais o que falei. Só sei o seguinte: o senhor pode acreditar que se eu tivesse o poder de voltar o tempo eu não queria de novo aquela furupa no meu terreiro de jeito nenhum. Onde já se viu isso? Eu me arrumei toda, botei até uma peste de um sapato que só de lembrar meu calcanhar lateja, matei uns bodes pra dar de comer a um bando de gente que eu nunca vi e é isso que eu ganho em troca? Tenha dó!”.

O juiz encerra a sessão e Nalvinha embarca de volta pra sua vidinha besta. Em Brasília, uma confusa Dilma com vários quilos a menos na estampa e – creio – dezenas a mais na consciência, convida Temer para uma última dança no convés do Titanic. Ao longe se ouve o som da afinadíssima orquestra comandada pelos experientes crooners Calheiros e Cunha (usando providenciais coletes infláveis por baixo de seus smokings bordôs), cantando o tango A Fuego Lento, numa levada meio Piazzola, meio rock’n roll. Ratos zunem a estibordo e se jogam nos botes salva-vidas. Da proa vê-se a ponta do iceberg. Segue o baile ao som de “tá dominado, tá tudo dominado”, com o carioca Cunha fazendo o quadradinho de oito.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 11 Abril, 2015 at 15:27 #

Caro Janio

Nalvinhas são tantas!

Nalvinhas seriam tolas?

Nalvinhas até tentam.

Nalvinhas assistem TV.

Discutem o cabelo novo da articulista de economia.

Recriminam o exagero.

E acompanham as previsões econômicas.

Só não sabem que articulistas na TV não têm tempo e precisam de alguém que responda rapidinho e não reclame.

O sistema financeiro também sabe.

Contrata assim “economistas” que passam o dia atendendo articulistas, nada mais fazem., nem precisam, ostentam belos cartões de visitas e são disponíveis.

Inventaram o oráculo do mercado, para tudo tem respostas.

Desde que o mantra JurosAlém Amém seja louvado.

É assim que nossas Nalvinhas se informam.

E nosostros também!

Amém!


regina on 11 Abril, 2015 at 21:46 #

rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrrs Que dupla!!!
Se afexe não, poeta, vc já tem as respostas…..
Amém!


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