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Retrocesso:Fila da água no carro-pipa, bairro Uruguai

DEU NO CORREIO24HORAS

Clarissa Pacheco

Água virou ouro após o oitavo dia consecutivo de desabastecimento para cerca de 35% da população de Salvador — equivalente a mais de 1 milhão de pessoas. Se o preço dos garrafões com 20 litros de água mineral mais que dobrou (de R$ 7 para R$ 15), o valor do caminhão-pipa subiu 160%. Em meio à crise, 16 mil litros chegam a custar R$ 800. Em dias normais, o valor é R$ 300.

Além do preço salgado, não é para qualquer lugar que as empresas de caminhão-pipa aceitam fazer a entrega. “Tem sido ruim por conta da insegurança. Na Cidade Baixa, a gente não está trabalhando, porque o pessoal saqueia o caminhão, ameaça os motoristas com pedras”, disse Deraldo Lobo, dono da K-Lim Água Potável.

O proprietário de caminhão e também motorista Adailton de Souza afirmou que chega a fazer entregas com escolta. Em outra empresa, a Paulimar Água Potável, a escolta é feita pelo próprio dono, Márcio Sena. Ele vai até a fonte na Via Regional, onde o caminhão é carregado, e acompanha o veículo em outro carro.

“A escolta quem faz sou eu. A gente não está sendo saqueado porque eu faço uma triagem de onde a gente vai. Só hoje (ontem) eu recebi mais de 300 ligações, a maioria da Cidade Baixa, justamente porque quase ninguém vai lá”, apontou Márcio.

Saque

Segunda à tarde, o motorista Epaminondas Neto, 28 anos, sentiu o risco de perto. Ele levava um caminhão-pipa para abastecer um duto da Bahiagás quando o veículo quebrou no Largo do Tanque.

“Parei para fazer a manutenção no motor e o pessoal levou a água quase toda. Eu tive que fechar os vidros da cabine e me esconder dentro de uma oficina”, disse.

Salvador está com o fornecimento de água comprometido desde a quarta-feira passada, quando um acidente nas obras do metrô, realizadas pelo concessionária CCR, rompeu uma adutora na Jaqueira do Carneiro, na BR-324. Desde então, moradores, escolas, universidades e postos de saúde dependem do fornecimento emergencial de carros-pipa, feito pela Embasa, prefeitura e Exército.

Vender água virou negócio lucrativo. Até a quinta-feira passada, moradores do Uruguai iam a uma lanchonete na Rua Direta tomar suco. Mas, desde que começou a faltar água, o negócio do microempresário Robson Peixoto, 43, ficou inviável. “Fechei a lanchonete e cedi o espaço”, contou Robson. Agora, os moradores da região procuram o Mundo dos Sucos para comprar água.

O vendedor Ivan Araújo, 32, é novo no ramo. “Eu trabalho com transporte de mudança, mas desde ontem (segunda) vendo água”.

Funcionário do Lava Rápido do Pirão, na Federação, Marcílio Vilas Boas, 33, conta que desde quinta-feira as vendas do galão de 20 litros de água mineral aumentaram cinco vezes. “Em dias normais, vendemos cerca de dez garrafões por dia. Na quinta e sexta vendi mais de 50”, afirmou ele.

Em Dias D´Ávila, na Região Metropolitana de Salvador, o movimento em três empresas de fornecimento de água mineral chegou a dobrar. Na Indaiá, por exemplo, cerca de 30 caminhões formavam uma fila. Segundo o gerente de operações da Indaiá, Rodrigo Sindeau, a alta movimentação no ponto de distribuição deve-se, sobretudo, ao desabastecimento na capital.

Moradores da Ribeira, Caminho de Areia, Massaranduba, Uruguai e Jardim Cruzeiro garantem já ter pago até R$ 50 em um garrafão de 20 litros. O motorista Jailson Costa Júnior, 25, desembolsou R$ 45 – sem o garrafão.

Sem condições de arcar com a inflação no preço da água mineral, Jailson se juntou a pelo menos duas dezenas de pessoas que formaram uma fila ao lado de um cano estourado na Cesta do Povo do Caminho de Areia. A tubulação foi rompida por moradores anteontem à noite.

Vandalismo

Apesar da busca pela água, ainda houve quem praticasse vandalismo. Ontem pela manhã, dois caminhões-pipa foram enviados pela Embasa ao Bom Juá, onde moradores haviam fechado a BR-324 em protesto na noite de anteontem. No entanto, quando os caminhões chegaram, a maior parte da água foi desperdiçada.

A Polícia Militar foi ao local e conseguiu conter a farra. Mas cerca de 70% da água foi perdida.

(Colaboraram Diogo Santos e Naiana Ribeiro)

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