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ONDE ME ESCONDER DE MIM?

Maria Aparecida Torneros

O dia é 7 niver da avozinha espanhola distante no tempo mas presente nas lembranças. Mas é também o centenário da Billie holiday aquela que morreu com 44 anos de cirrose hepática e tinha voz de um veludo verde escuro. Seu jazz me atravessa o peito. Eu deveria fazer radiografias da coluna hoje mas desisti. Vi mamãe ontem e observei suas crescentes limitações dos 88.

Quero me esconder de mim. Já tomei uns comprimidos. Tiram dores. Dão sono. Ouço um CD de Ray Connif. É ritimado. Lembro dos muitos LPs dele sua orquestra e coro que comprei na juventude.

Deito na minha cama e vou buscar uma coberta. A temperatura caiu. Este outono chegou trazendo chuva por aqui. Onde envio a cabeça num buraco? Mas precisava esvaziá-lá primeiro. Tantos pensamentos a invadem. E as buscas? Já passeei até no google buscando um quarto pra alugar na Urca. Talvez fosse uma solução. Esconderijo perfeito com janela de vista para o mar.

Mas não posso me esconder dos meus três gatinhos. Sentem minha falta. Repousam nos meus pés e roçam nas minhas pernas. As vezes parecem falar comigo. Geralmente me perguntam porque quero tanto fugir e me esconder. Noutras fazem graça e correm pela casa derrubando algo quebravel. Provavelmente sentem que se eu me zangar desisto de me esconder.

Eita 7 de abril pasmacento. Arrastado. Silencioso. O CD acabou e nada ou ninguém toca ou canta. Tem o barulhinho da chuva lá fora e o meu coração bate aqui dentro. Ontem fui ao cardiologista. Ele gostou fos índices. Colesterol baixou. Saí de lá passei na padaria e comemorei comendo 4 empadinhas de uma vez. Em casa completei com chocolate.

Minha amiga Re me convidou para um cineminha mas mudei de planos.

Preguiça extrema. Nem radiografias e nem cinema. Tampouco medico ou afins. Refiro me aos fisioterapeutas e etc.

To me encolhendo na minha cama do my way a lá Frank Sinatra. E há tanta vida lá fora das cavernas onde nossos ancestrais se protegeram dos dinossauros.

Um sentimento estranho se enrosca em mim. Parece abraço de amigo urso. cansei de noticiários. Cansei de piadas babacas. Trocar roupas e bolsas também cansa. E lembrar? Caramba nunca pensei que lembrar fosse tão cansativo. Milhões de neurônios a postos para trazer um nome qualquer.

Cérebro complicado. Mas já vão fazer transplante de cabeça. Coisa doida? Nem sei. Talvez seja a solução para o esconderijo perfeito.

ponham no meu pescoço a cabeça de alguém que não leu quase nada e quem sabe ela me seja leve. Minha coluna pode até desentortar por não ter que suportar tantas pesquisas e reflexões. Tudo isso ao longo dos anos pesa demais…

Por enquanto me escondo aqui. Ora não vou contar pra você e nem quero mais brincar de pique esconde.

Ache a Billie. No Mr. Google

Ela faz 100 anos. E se você ouvi-la com atenção vai encontrar um tiquinho de mim na voz lamentosa dela. Viva o 7 de abril que é também dia da imprensa. Profissão que já exerci e cansei.

Digamos que ao encontrar a Billie você se reencontre comigo um pouco. OK?

Cida Torneros é jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro. Editora do Blog da Mulher Necessária

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Comentários

Cida Torneros on 8 Abril, 2015 at 15:47 #

Recado que recebi do meu terapeuta

Há tanta vida la fora…e você nunca se recusou a vive-la intensamente. Você estudou, trabalhou, amou e foi amada. Lendo seu texto generoso penso, ha tanta vida la fora… e me autorizo a vive-la. Para que como vc, toda vida la fora também signifique tanta vida aqui, rica e fértil, dentro de mim. Bj para minha escritora querida que me faz pensar e valorizar a vida que pulsa em mim. Bj José Arruda

Respondi
Obrigada, nosso encontro nesta vida eh mesmo um prêmio. Bjs Aparecida para José Arruda


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