Governadores do NE com Dilma:apoio e fatura

ARTIGO DA SEMANA

Chapéu de governador, “Deus lhe favoreça” de Dilma

Vitor Hugo Soares

A melancólica e desafortunada romaria dos nove governadores dos estados do Nordeste, quarta-feira, 25, em Brasília, lembrou, em vários lances e nuances, uma situação recorrente na região dos visitantes ao Palácio do Planalto. Visita, diga-se a bem da verdade, com duplo propósito. Ambos de duvidosos resultados.

O primeiro ponto, mais explícito e badalado: levar apoio, alento e confiança à mandatária petista, quase sitiada em seu ameaçado ninho de poder, em hora de sufoco e sacolejos de todo lado. Do agravamento preocupante da crise econômica (a começar pela resistência da inflação e a volta do desemprego), à vertiginosa perda de força política no Congresso, além da avassaladora queda de apoio popular, revelada a cada nova pesquisa.

Mais submerso, embora com a cauda de fora, o segundo propósito dos mandantes da vez no pedaço geográfico brasileiro que mais deu votos e garantiu a presença de Dilma Rousseff, por mais quatro anos, no principal posto de mando do País: “passar o chapéu” (para usar expressão bem regional) e tentar conseguir algum recurso providencial improvável do Tesouro, controlado a sete chaves pelo ministro Joaquim Levy, e assim tentar sair da paralisia administrativa quase geral, e aplacar as ondas de descontentamentos que começam a levantar-se, ameaçadoramente, também no Nordeste.

Alguns preferem chamar a isso, de “apresentar a fatura”. Afinal, a avaliar pelos (maus) exemplos corruptos, corruptores e deletérios do Mensalão e do escândalo sem tamanho que corroi a Petrobras, é possível afirmar: de graça, ou pelo simples e louvável objetivo do interesse público e do bem servir à sociedade, parece que ninguém faz mais nada na política e na administração pública no Brasil.

A começar pela Bahia, de onde escrevo estas linhas semanais. Depois de 15 anos e rios de dinheiro (aplicados não se sabe onde nem como) para construir cinco quilômetros do metrô calça curta de Salvador (um monstrengo inacabado), agora se anuncia mais do mesmo: a construção do “Metrô da Paralela”, projeto com a cara e o jeito das improvisações de bolso de colete, para encher as burras de empreiteiras e garantir votos em futuras eleições.

Novo engodo, tipo o projeto da ponte ligando Salvador à Ilha de Itaparica que, felizmente, encontrou pela frente o combate firme, inteligente e corajoso do escritor João Ubaldo Ribeiro. Ele desmontou o arrazoado de mentiras e praticamente jogou “a papelada marqueteira da ponte” na lata do lixo do Centro Administrativo da Bahia, no governo petista de Jaques Wagner, o atual ministro da Defesa no governo Dilma.

Difícil saber agora quem poderá, na Bahia do governador Rui Costa (PT) e na Salvador do prefeito ACM Neto (DEM), denunciar e combater, com a mesma garra e talento, esse arremedo do “Metrô da Paralela”. 39 quilômetros de um “projeto” que ocupará o canteiro central de uma das mais importantes, aprazíveis e modernas vias de tráfego e mobilidade urbana da terceira maior capital do País.

Obra cara, ofensiva à estética urbana, imprópria ao meio ambiente. “E segregacionista do ponto de vista social”, denuncia o arquiteto Paulo Ormindo, um dos mais famosos e acatados profissionais no campo urbanístico da Bahia e do País. “Como a Paralela tem muito pouca ocupação ele (o metrô) vai funcionar mais como um trem suburbano que metrô e criará uma barreira intransponível ao nível do solo de 19,5 km separando a cidade rica da orla do Atlântico da cidade pobre do Miolo”, denunciou Ormindo em fundamentado artigo publicado no jornal A Tarde. A denúncia foi ampliada, em corajoso e oportuno editorial publicado no blog Por Escrito, do jornalista Luís Augusto Gomes.

Salvador festeja 466 anos de fundação neste domingo, 29 de Março. Que Deus, Senhor do Bonfim e todos os orixás salvem a Cidade da Bahia de mais esse mostrengo, chamado de Metrô da Paralela.

E estamos de volta à situação mencionada no começo.

Em tempos de vacas magras, no sertão nordestino, os pedintes nas praças e nas portas dos templos, principalmente, reforçam suas esperanças e capricham nos pedidos. Sobretudo quando avistam um daqueles cidadãos “bem vestidos”: de terno, gravata, sapatos lustrados e pinta de chefe da política, governante local ou visitante. Então, o tradicional “uma esmolinha pelo amor de Deus”, se reveste de apelos especiais. Um canto, um verso de cordel, um rogo dolorido na voz. Um jeito especial qualquer para tentar comover o “cidadão de posses”.

Nem sempre dá o resultado esperado. O mais comum, aliás, é o pedinte receber um olhar estudado de aparente compaixão, e a sonora desculpa: “Não tenho trocado agora. Deus lhe favoreça”.

Pode não ter sido exatamente assim, no caso do chapéu passado pelos governadores do Nordeste, na visita ao Palácio do Planalto esta semana. Mas asseguro que chegou perto. É só conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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