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CRÔNICA

Marina Abramovic encara Cerveró

Janio Ferreira Soares

Apesar de nem sequer uma branda garoinha para assentar a poeira e animar o sertanejo no dia consagrado a São José, encontro meu tio Lindemar (88 nas costas e vez ou outra se gabando de ainda furar paredes salobras com seu jato urinal) lendo um jornal, tomando uma cervejinha e dando boas gargalhadas. De supetão imagino-as provenientes da desclassificação do Vitória no Baianão, mas ele, escaldado que nem o angorá contemplando as franjas de sua rede sem nenhum ânimo de patolá-las, logo rechaça qualquer intuito de deboche ao mamífero de extensa juba, esclarecendo que não se deve tripudiar de quem logo mais estará no mesmo vagão do seu tricolor rumo ao inferno da segundona – novamente, pasmem, com estádios cheios brindando à mediocridade consentida (“vamo pro reggae, papá!”), enquanto seus dirigentes desfilam por aí estampando nos peitos o cavalinho “Made in Miami” que, coincidentemente, adorna a maioria das camisas da turma que ora passa temporada forçada em plagas curitibanas.

Descartada a hipótese futebolística, pergunto-lhe se a risada provém do recente embate verbal entre Cid Gomes e Eduardo Cunha, e ele – com a experiência de quem foi prefeito de Glória numa época em que os gordinhos gostosos da Bahia viviam inventando gabrielas, cantando marinas e louvando quem bem merece -, diz que aquilo foi fichinha diante dos arranca-rabos protagonizados por Carlos Lacerda, Brizola e afins. Insisto assuntando se o riso tem a ver com o reboliço causado pela bitoca entre Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg na nova novela da Globo e ele diz não entender a razão de tanto auê, já que, no seu ponto de vista (agora equipado com um cristalino tinindo de novo – valei-me!), o beijo dado pela mesma Fernanda em Tarcísio Meira no final de Saramandaia foi bem mais, digamos, agoniado, nem tanto pelo acontecimento em si, mas pela completa falta de pegada dos octogenários lábios que um dia – ó tempo, por que sois tão cruel? – já tiveram a mesma embocadura dos de Brad e Jolie.

Triplamente derrotado nos meus pitacos avulsos, finalmente o velho Dema me diz o motivo do seu riso frouxo. Trata-se de uma reportagem contando as inusitadas performances da artista sérvia Marina Abramovic, que recentemente se apresentou em São Paulo. “Veja só isso. Em Nova York ela ficou vários meses sentada 12 horas seguidas numa cadeira com um fundo falso e um penico embaixo para suas mijadas, enquanto milhares de pessoas esperavam a vez de encará-la em silêncio. Mas isso não é nada. Numa ocasião ela pegou um sério com um burro, isso mesmo, um filho de um jumento. E já que ela aprecia esses duelos visuais, eu pensei em um que seria o seu maior desafio. Ela, com o peito direito nu e um tampão no olho do mesmo lado, fazendo um tête-à-tête com o nosso Cerveró, já pensou? O título seria: ‘Homem Quá! Seu Olho Esquerdo Quer Mamar e o Direito Namorar’, e sai às gaitadas, gabolando que vai furar mais um rodapé

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 28 Março, 2015 at 12:30 #

Caro Janio

Melhor que isso só Dilma engasgando, pedindo desculpas a Renan, enquanto ensopa o topete do distinto com perdigotos.

Nem Pitigrilli nos salva!


luis augusto on 28 Março, 2015 at 13:53 #

Pouco inspirado hoje o nosso poeta.


Marina Abramovic encara Cerveró | ZÉducando on 30 Março, 2015 at 3:55 #

[…] Marina Abramovic encara Cerveró  […]


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