Salvador em foto de Gildo Lima. Arquivo A Tarde

O encontro

Gilson Nogueira

Domingo que vem (29), Salvador comemora 466 anos de beleza, tradição e religiosidade. Vai haver festa no Farol da Barra. Não deveria. Quem vai ao “Circo” sabe que a Cidade da Bahia está dura e não rima, hoje, com segurança pública, cidadania plena, direitos humanos respeitados em sua totalidade, mobilidade urbana condizente com seu tamanho, preservação da natureza, excelência em serviços públicos e privados, dentre outros referenciais que qualificam as cidades como boas para se viver.

Por ser detentora da maior festa do planeta, o carnaval, como apregoa a Prefeitura da primeira capital do Brasil, Salvador deveria promover, isso sim, em retribuição ao seu habitante que paga imposto, melhoria dos seus índices de desenvolvimento humano para, então, gabar-se, com inquestionável direito, de realizar a maior festa do planeta. Não, o carnaval. Mas, a grande festa de vida digna do Brasil.

O povo soteropolitano, que come um dos piores pães do país, merece muito mais do que Salvador de melhorias pontuais. Execute-se um plano de ações permanentes, desde a melhoria dos hospitais e escolas, a praias e parques, ambos seguros, para o passeio com a família, sem o perigo de uma bala na cabeça. A terra que desperdiça 2,1 bilhões de litros de água por mês está desabando, em matéria de conservação de seu patrimônio histórico. A cidade cresceu e perdeu seu Centro da Cidade, descentralizou, desse modo, o bate papo na esquina, a arte do encontro, a caminhada do pertencimento, a urbanidade em planos diversos, a hora cordial da ida para casa com o ônibus no ponto na hora certa.

Resgate-se, urgentemente, a relação amorosa entre os moradores, a relação fraternal da gente da Cidade Alta e da Cidade Baixa, no vice e versa dos abraços e apertos de mãos que esquentam o respeito mútuo, a admiração, o bem-querer, na linha direta da convivência sadia e das tradições de hospitalidade que geram frutos.

No turbilhão do anonimato, é preciso pensar no resgate dos valores do pertencimento e eliminar, de vez, a precariedade das relações humanas em uma cidade que já perdeu seu Centro da Cidade. Salvador, a minha aldeia, tem que voltar a se encontrar, não pode perder seu passado.

Gilson Nogueira é jornalista

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 23 Março, 2015 at 17:23 #

Caro Janio

Percebo a palidez de teu texto ao refletir a cidade que ama.

É no aniquilar das aldeias que os bárbaros triunfam, não suportam liames que não a subserviência e o esquecimento da origem.

Triste assistir à domesticação dos puros.

Resista, tinja tuas páginas com a dor da esperança mitigada. Não a deixe soçobrar.

Resista, e desperte a atenção com o som dos atabaques que andam esquecidos nas bordas deste malfadado sitio de ocupação.

Que Xangô o proteja e Ogum te empreste a força.


luiz alfredo motta fontana on 23 Março, 2015 at 19:02 #

Em tempo, trocar Gilson por Janio é elogiar a ambos


gilson nogueira on 23 Março, 2015 at 20:28 #

CARO FONTANA, SINTO-ME HONRADO COM SEU ELOGIO, ENQUANTO ESCUTO O SOM DOS ATABAQUES DE MINHALMA. SALVADOR, MEU CARO, NÃO IRÁ TRANSFORMAR-SE EM UM ABADÁ GEOGRÁFICOPOLÍTICOCULTURAL DA DESFIGURAÇÃO TOTAL INCENTIVADA POR QUEM NÃO TEM NADA A VER COM ELA, SUA HISTÓRIA, SEU POVO, SEU JEITO DE SER DIFERENTE POR NÃO SER SUBMISSA A P NENHUMA. CHEGUE MAIS!


luiz alfredo motta fontana on 23 Março, 2015 at 21:32 #

Caymmi sorri e por certo te abençoa.

Os atabaques triunfam, rasgando a mesmice.

Tim Tim!

Enquanto houver o sentir, a aldeia sobrevive.


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