Cid duela na Câmara com Eduardo Cunha

===================================================

ARTIGO DA SEMANA

O regresso de Cid e o osso de Cunha

Vitor Hugo Soares

Ao conceber o que ele chama de “roteiro da volta de cabeça erguida” (conselho de Ciro, mano mais velho e tarimbado), Cid Gomes (PROS) matutou um bocado, como diria Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Antes de começar a percorrer a sua estrada de regresso a Sobral, progressista cidade cearense do semiárido nordestino onde ele nasceu e começou na política, o ex-governador do Ceará e desde a noite de quarta-feira,18, ex-ministro da Educação do cada vez mais trôpego e apequenado Governo Dilma e do PT, mediu e pesou mais de uma vez atitudes e consequências. Isso apesar da fama de esquentado inconsequente que carrega nas costas.

Pensou sobre a gente, as coisas e, principalmente, sobre os costumes políticos e sociais de sua região natal. É quase certo que passou pela cabeça do ex-governador cearense (ou alguém bem próximo e de confiança pessoal lhe soprou no ouvido) ensinamento que corre de boca em boca entre os vaqueiros nordestinos, descritos como valentes e heroicos personagens desde o tempo das batalhas do beato Antônio Conselheiro, na Guerra de Canudos, no livro referencial de Euclides da Cunha, “Os Sertões”. Notável, igualmente, a narrativa do Nobel peruano Vargas Llosa, no romance histórico “A Guerra do Fim do Mundo”, nas lutas no interior da Bahia na passagem do Império para a República.

O ensinamento fala da virtude da coragem, a partir da constatação de que o medo tem cheiro. “Os cavalos e cachorros sentem-no, por isso derrubam ou mordem os medrosos. Mesmo longe, chega ao povo o cheiro corajoso de seus líderes. A liderança é um risco, quem não o assume não merece esse nome”, resume Ulysses Guimarães na conceituação do primeiro mandamento de seu famoso “Decálogo do Estadista”.

Não custa repetir: Apesar da fama de “gente de pavio curto” atribuída ao clã cearense dos Gomes, principalmente os dois irmãos mais famosos e esquentados da política nordestina e brasileira, Cid mediu bem prós e contra, ônus e bônus da sua empreitada de alto risco. Agora se sabe que com a colaboração fraterna, mas não de todo desinteressada, do irmão dileto e igualmente ex-governador do Ceará e ex-ministro de Estado, duplamente, nos governos de Itamar Franco e de Lula.

Bagagem de sobra, já se vê, de governos e crises. Basta lembrar os choques de levantar faíscas entre o Ciro, ministro da Integração Nacional de Lula, e o bispo da Diocese da Barra (BA), Dom Flávio Cappio. O religioso católico em sua luta de resistência contra o projeto de transposição das águas do São Francisco, o rio da minha aldeia, no marco zero da construção da megalômana obra (vertedouro de dinheiro público para empreiteiras e mina de votos em sucessivas eleições presidenciais, incluindo as duas que elegeram Dilma), no sertão pernambucano de Cabrobó.

No caso de Cid, ele ganhou o tempo possível, desde a fala reservada, mas que sabia estar sendo gravada, na qual soltou o verbo contra “os 400 ou 300 deputados” que integram a chamada aliança de partidos de apoio ao governo Dilma (PMDB e PT à frente), mas que na prática atuam como “achacadores” que “apostam na ideia do quanto pior melhor”, para facilitar os achaques.

Cid teve até uma rápida passagem de internamento no hospital dos famosos em São Paulo, para tratar de uma sinusite. Curado, decidiu atravessar a Esplanada dos Ministérios em seu automóvel particular e se dirigir ao Congresso para o duelo com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha e seus “trezentos achacadores”.

Não podia ter escolhido adversário melhor e de maior visibilidade para desafiar e duelar. Nem figura mais adequada, na conjuntura política, para apontar o dedo e afirmar: “Prefiro ser chamado de ministro da Educação mal educado a ser acusado de praticar achaque (Cunha é um dos investigados no Lava Jato e da CPI da Petrobras)”. Ou ainda: “Tenho, sempre tive, profundo respeito pelo Legislativo, pelo Parlamento. Isso não quer dizer aprovação de alguns, de vários, de muitos, que mesmo estando no Governo, os seus partidos participando do Governo, tenham a postura aqui de oportunismo. Eu não quero aqui me referir a partidos de oposição, que têm o dever de fazer oposição. Mas os partidos de situação têm o dever de ser situação, ou então larguem o osso, saiam do governo, vão para a oposição, isso será mais claro para o povo brasileiro”. Fecham-se as cortinas.

Depois foi o que se viu e o que se sabe. A Câmara virou uma fogueira pré-junina. Cid foi direto ao Palácio do Planalto e pediu de volta o seu boné a Dilma (que nem pensou e prontamente atendeu à ordem, emanada da presidência da Câmara, de defenestrar naquela mesma noite o ministro da Educação que ela própria escolheu há menos de três meses).

De cabeça erguida, como recomendou o mano mais velho, Cid retorna agora a sua Sobral, segundo anunciou. O resto, a conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Be Sociable, Share!

Comentários

luiz alfredo motta fopntana on 21 Março, 2015 at 7:46 #

Manual de sobrevivência de um inútil

Em caso de inanição midiática, busque uma rusga com quem detém as manchetes.

Em caso de impossibilidade de manter-se em cargo, invente um escândalo e saia soltando gazes, a platéia delira entorpecida, pela ação dos mesmos, podendo até aplaudir.

Se nada der certo, sempre haverá a sogra agradecida, para em legítimo aparelho inglês comprado em França, com dinheiro de representação lhe oferecer um chá de camomila. Não é não menino estouvado?

Em tempo: este comentário não é, e jamais será, adesão ao Cunha, apenas aversão ao Cid.


luiz alfredo motta fontana on 21 Março, 2015 at 7:47 #

Manual de sobrevivência de um inútil

Em caso de inanição midiática, busque uma rusga com quem detém as manchetes.

Em caso de impossibilidade de manter-se em cargo, invente um escândalo e saia soltando gazes, a platéia delira entorpecida, pela ação dos mesmos, podendo até aplaudir.

Se nada der certo, sempre haverá a sogra agradecida, para em legítimo aparelho inglês comprado em França, com dinheiro de representação lhe oferecer um chá de camomila. Não é não menino estouvado?

Em tempo: este comentário não é, e jamais será, adesão ao Cunha, apenas aversão ao Cid.


jader on 21 Março, 2015 at 9:47 #

Muitíssimo interessante a necessidade de justificar a não adesão ao Cunha e a aversão ao Cid. Como diria o poeta : versões e aversões!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


luiz alfredo motta fontana on 21 Março, 2015 at 10:30 #

Em tempos de “nós e eles”, essa gosma asquerosa que o PT espalhou, faz bem assinalar, afinal nem todos são tolos como Lula pensa.


luiz alfredo motta fontana on 21 Março, 2015 at 11:01 #

Aqui a triste evidência de um velho e deletério hábito, costuma-se eleger heróis só pelo fato de eventualmente se postarem contrários a alguém que se tenha objeções. Assim Cid vira herói só pelo fato de enfrentar Cunha, isso é pobre, isso é alienação ingênua, é o verso da mesma moeda, concluir-se que a crítica a Cid é adesão ao Cunha.

Foi apenas um episódio grotesco, digno destes tempos de Lula e Dilma.


jader on 21 Março, 2015 at 11:08 #

..a alguém que se tenha objeções…Ótimo poeta ! Brilhante!!Gostei do eufemismo. Interessante que as críticas são sempre feitas Dilma e Lula .
https://www.youtube.com/watch?v=kzuSbOGye8o


luiz alfredo motta fontana on 21 Março, 2015 at 11:11 #

São eles que estão no comando, nenhum motivo para lembrar do “gongórico entediado”, o tal FHC, e suas andanças na cozinha.


luiz alfredo motta fontana on 21 Março, 2015 at 11:21 #

Este mundo, de tucanos e petistas, é tão pobre que perdemos tempo com toscas e bizarras figuras, como Cid.


luiz alfredo motta fontana on 21 Março, 2015 at 11:27 #

O lado bom:

Há, em cada articulista politico, um cadinho de Gabriel Garcia Márquez, caso contrário são apenas press release.


luiz alfredo motta fontana on 21 Março, 2015 at 14:26 #

Vamos ser explícitos!

Há sempre uma trama pequena e provinciana por trás de certos arroubos tresloucados.

Didático Blog de Fernando Rodrigues sob o feito.

Aqui reproduzo:

“O episódio da saída espalhafatosa do Ministério da Educação teve muito de cálculo político para a família Gomes. O irmão mais novo, Cid Gomes, deve ser o escolhido para representar o clã numa eventual disputa presidencial em 2018.

A família já teve Ciro Gomes, 57 anos, duas vezes candidato ao Palácio do Planalto (1998 e 2002). Agora, Cid, de 51 anos entrou na fila.

A ideia é simples e tem passado na cabeça de inúmeros políticos: a) O PT está desgastado com o governo de Dilma Rousseff se segurando pelas tabelas até 2018; b) o PSDB está em constante crise de personalidade e não consegue de fato incorporar o desejo de mudança que existe na sociedade; c) finalmente teria chegado a hora de haver uma terceira via.

Marina Silva (ex-PT, ex-PV, momentaneamente no PSB e a caminho do Rede Sustentabilidade) já tenta ocupar esse espaço.

Para os Gomes, a ex-senadora pelo Acre e candidata duas vezes a presidente (2010 e 2014) não preenche no imaginário do eleitor todos os requisitos para ocupar o Palácio do Planalto –entre outras razões por nunca ter sido eleita para exercer função executiva.

Cid Gomes (ex-PMDB, ex-PSDB, ex-PPS, ex-PSB e hoje no minúsculo Pros) pretende preencher a demanda falando o que acredita que os eleitores querem ouvir: críticas fortes ao sistema político, como as que fez recentemente ao Congresso, dizendo que ali há de 300 a 400 achacadores.

Cid estava ministro da Educação e perdeu o cargo na última quarta-feira (18.mar.2015). Ele foi até o plenário da Câmara e reiterou suas críticas aos deputados. Apontou o dedo para o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

No micromundo da política, em Brasília, Cid foi visto como intempestivo e irresponsável. Para os eleitores que frequentam a internet, a avaliação foi diversa.

Do dia 18 ate? 13h de ontem, sexta-feira (20.mar.2015), o ex-governador do Ceara? Cid Gomes “conseguiu 78.518 menções no Twitter, 2.138 em sites de notícias, 1.699 em blogs e 83 em fóruns abertos”, segundo levantamento da consultoria Bites.

“Apenas no Twitter foram 616 milhões de impressões (número de vezes que o assunto foi exibido nas contas do usuário do serviço no Brasil)”, diz a Bites. Cid Gomes teve uma exposição muito maior até do que a Operação Lava Jato, que no mesmo período de tempo produziu 188 milhões de impressões no Twitter.

Segundo esse estudo da Bites, “na nuvem de palavras formada em torno das referências a Gomes, citações como corajoso, herói e ‘macho’, expressão nordestina utilizada para definir aqueles que não têm medo de falar a verdade e enfrentar situações adversas, apareceram de maneira recorrente”.”

Esse o enredo sonhado pela triste família Gomes.

Quem acredita em “heróis” deste naipe que levante a mão.
Enxergar virtudes sob o envergonhado reflexo de luzes vermelhas em lupanares, é tão impossível quanto.


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos