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Postado em 01-03-2015
Arquivado em (Artigos) por vitor em 01-03-2015 18:31


Tuna: o existencialista da Bahia que amava Sartre,Simone
e o cinema sobre todas as coisas

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SIMONE, QUE MULHER!!!
Vitor Hugo Soares | 29.04.2006
extraído do Blog do Noblat

Leio no jornal logo depois de desembarcar em Salvador de volta das férias: “Beauvoir, vinte anos de morte”. E a memória recua o dobro do tempo, até aquela aula do curso clássico do Colégio da Bahia, o legendário Central, na qual recebi do professor Carlos Caetano, que ensinava Literatura, a inesperada incumbência de produzir um trabalho escolar de pesquisa sobre o Existencialismo, seu criador e incansável pregador e praticante: Jean-Paul Sartre.

Corria a primeira metade da década de 60, tempo encrespado tanto no Brasil quanto na França, e a tarefa escolar foi um susto enorme para o jovem tímido e desconfiado das barrancas do Rio São Francisco recém-desembarcado na capital. Na época, os sensíveis ponteiros dos detectores de fenômenos sísmicos no mundo político e intelectual ainda registravam sinais dos fortes abalos causados pela passagem do autor de A Crítica da Razão Dialética e de O Muro pelo Brasil, no período entre 12 agosto a 21 de outubro de 1960, ao lado da sua companheira da vida inteira.

Os dois desembarcaram em Recife, a convite da Universidade Federal de Pernambuco, para participar em Olinda do I Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária. Depois cruzaram várias regiões — viram até Brasília ainda em construção por JK — sempre acompanhados de perto por outro casal famoso: Jorge Amado, escritor já mundialmente consagrado, e Zélia Gattai. Em Salvador, a passagem de Sartre e Simone deixou rastros indeléveis, principalmente nos meios universitários e nos bares mais populares, freqüentados por intelectuais e artistas.

O professor de etnografia da UFBA, Vivaldo da Costa Lima, a quem a escritora se refere várias vezes em seu livro autobiográfico A Força das Coisas, costumava apontar para velho tamborete de um desses barzinhos no Maciel — antiga área de prostituição do restaurado Pelourinho — e informava: “ali Simone de Beauvoir sentou o seu traseiro”.

O desafio do trabalho sobre Sartre era demasiado para mim. Precisava de um parceiro para a tarefa que implicava mergulhar na obra literária e na ação política de Sartre. Encontrei-o sentado bem ao meu lado na sala de aula: José Antônio D`Andrea Espinheira, o primeiro “existencialista” de fato que conheci na vida, um dos meus primeiros amigos em Salvador. Desde então já enfeitiçado pelo cinema que o atrairia ao Rio de Janeiro, antes de terminar o curso secundário no Central, para transformar-se no cineasta Tuna Espinheira, que faz das tripas coração agora para lançar em circuito nacional o seu longa metragem Cascalho, filmado na Chapada Diamantina há dois anos.

Saímos os dois por bibliotecas, faculdades, Escola de Teatro, livrarias e pontos de vendas de livros usados de Salvador à procura do que havia sobre o revolucionário pensador francês, um xodó na época, principalmente entre os jovens. No sebo de Edgard Loureiro, que ficava ao lado do ponto de ônibus no Viaduto da Sé, no alto da Ladeira da Praça, encontrei uma edição do livro O Segundo Sexo (L’expérience vécue), de Simone de Beauvoir, e logo estava perdidamente apaixonado pela autora do livro.

Formava-se aí um platônico triângulo amoroso que o existencialismo permitia conceitualmente, praticado muitas vezes por Sartre e, algumas, por sua companheira Simone, falecida no dia 14 de abril, em plena primavera francesa de tão expressiva presença em sua obra imortal. Simone, que mulher!

Procurando-se no palheiro da história das grandes mulheres, pode até ter havido muitas mais belas. A começar por Gilda, a esplendorosa personagem vivida no cinema por Rita Hayworth. Mas, como registrou em Zero Hora o colunista Ruy Carlos Ostermann, ao chamar para a palestra do professor Voltaire Schilling sobre a escritora francesa, “talvez não tenha havido mulher mais valiosa e decisiva para a questão de todas as mulheres quanto Simone de Beauvoir”. Pode apostar, gaúcho.

Seu primeiro romance, A Convidada, explora os dilemas existencialistas da liberdade, da ação e da responsabilidade individual, temas que aborda depois em outras novelas como O Sangue dos Outros e Os Mandarins, que a levou à conquista do Goncourt, o mais cobiçado prêmio da literatura na França. Em Todos os Homens são Mortais, produz fabulosa reflexão sobre o sentido da existência humana. Uma obra permanente.

Seus escritos autobiográficos são igualmente ricos, densos, contundentemente verdadeiros e corajosos. Nos ensaios escritos merece destaque especial O segundo sexo (1949), talvez o mais profundo estudo sobre a vida das mulheres na sociedade; A Velhice, no qual critica apaixonadamente a atitude da sociedade perante os idosos, e o polêmico A Cerimônia Adeus, no qual evoca a figura de Sartre, seu amante, colega e companheiro da vida inteira.

Bem, para encerrar, devo informar que o trabalho sobre Sartre foi produzido a duas cabeças e quatro mãos, mas assinado por metade da classe do Central. O professor Caetano deu nota 10, “com louvor”, a todos. Foi uma alegria geral da turma, mas nada me fazia tão feliz quanto a descoberta de Simone. Que mulher!!!

Vitor Hugo Soares é editor do Bahia em Pauta, neste triste 1 de março de 2015, de volta da cerimônia da despedida de Tuna Espinheira, no cemitério Jardim da Saudade, em Salvador.

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Comentários

Nádya Argôlo Pretto on 2 Março, 2015 at 22:54 #

Vitor querido,
Ainda entristecida com a partida do nosso amigo Tuna, leio emocionada esse lindo texto que é uma homenagem pura e sincera a quem tanto nos brindou com uma sabedoria nata e uma inteligência sublime. Parabéns e beijo grande!


Glauvania M. Jansen on 3 Março, 2015 at 5:09 #

Linda homenagem querido Vitor, você junto com Tuna foram dos primeiros amigos da Bahia, que Bahia…o texto emoção, retrata bem aquele tempo de estudantes e descobridores dos caminhos da vida. Simone. Que mulher!!! Abraço saudoso de Glauvania


vitor on 3 Março, 2015 at 11:46 #

Glauvânia e Nadya

Duas mulheres e queridas amigas de tirar o boné!!! Agradeço diariamente a honra e a graça de ser amigo das duas. Obrigado a ambas pelas palavras generosas.
Vitor Hugo


Francisco viana on 3 Março, 2015 at 16:39 #

Um texto para lembrar dos tempos em que a inteligência aspirava o poder. Grande Vitor Hugo!


Laodicea Albuquerque on 4 Março, 2015 at 11:11 #

Maravilhoso e emocionante esse belo Texto, uma aula + q preciosa Vitor sempre genial…… PAZ P VC GDE TUNA…..


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