=======================================================
< href="http://bahiaempauta.com.br/wp-content/uploads/2015/02/Marcha1.jpg">

ARTIGO DA SEMANA

Petrolão – Nisman: Laços Brasil-Argentina

Vitor Hugo Soares

“O juiz teme jornalista que não conhece os procedimentos da justiça”

A frase é de Cláudio Andrada, jornalista argentino especializado em informação judicial, com passagens marcantes na cobertura de grandes escândalos políticos-criminais em seu país. Está na entrevista a Teódulo Dominguez, publicada no livro “Entre Periodistas” (Entre Jornalistas). Leitura mais que recomendável para profissionais de imprensa, advogados, juízes, ministros do Supremo ou da Justiça – nos governos Dilma, aqui, e Cristina Kirchner, às margens do Rio Da Prata, nesse encrespado começo da Quaresma.

O livro não é novo. A edição em espanhol que tenho é de 1993 e foi adquirida em Buenos Aires em 1994, ano do atentado contra a sede da mutuária judaica AMIA, que arrasou um quarteirão inteiro no bairro Once, centro comercial da capital portenha: 85 pessoas mortas, centenas feridas de todas as idades, algumas com sequelas graves (físicas e psicológicas), que carregam até hoje.

Passa o tempo, mas um fato permanece: a atualidade da coletânea de entrevistas deste livro de referência para mim (jornalista curtido nos trancos e solavancos dos dois lados da fronteira, em diferentes períodos de atividade profissional nas redações de A Tarde, Jornal do Brasil e revista VEJA). Em especial a de Andrada, sobre as históricas desconfianças e ruídos constantes que permeiam as relações profissionais entre os homens da imprensa e os da justiça. Isso vale tanto para nós, diante de coberturas factuais e análises opinativas de escândalo do tipo Mensalão e do Lava Jato (ou Petrolão, se preferirem) e seus segredos mais tortuosos que não cessam de brotar na aparentemente inesgotável teia de corruptos, corruptores e afins.

Também, ou principalmente, para eles. Os vizinhos, na terra do Caso AMIA, que corre impune há 21 anos. Mais tenebroso ainda depois que o promotor Nisman foi encontrado morto, há um mês, com um tiro de revólver na cabeça. Ele era o encarregado geral (por nomeação do ex-presidente Nestor Kirchner) da apuração do caso. A notícia da sua morte chocou a nação, na véspera do dia em que ele anunciara que iria denunciar formalmente a presidente Cristina Kirchner, por suposto envolvimento em negociatas vultosas e manobras com o governo dos Aiatolás, para encobrir a participação direta de iranianos no planejamento e execução do terrível atentado no bairro Once.

A impunidade ao longo de mais de duas décadas, seguida da morte de Nisman, agora começa a levantar os argentinos em multitudinárias manifestações. A exemplo das realizadas em várias cidades de diferentes regiões do país, na última quarta-feira, 18. A “Marcha do Silêncio” reuniu, só em Buenos Aires, debaixo de chuvas pesadas, quase meio milhão de participantes. O fato e suas poderosas imagens da multidão silenciosa e indignada marchando nas ruas da grande cidade sul-americana, debaixo de guarda-chuvas abertos, emocionou a Argentina. Mais que isso, mexeu com sentimentos e nervos de sociedade democráticas do mundo, sedentas de justiça e contra a impunidade, principalmente de poderosos da política, dos negócios e dos governos metidos em escandalosos conluios.

Precisei, infelizmente (ou não?) abrir uma picada no meio da selva destes dias iniciais da Quaresma. Mas chego a duas situações relevantes (e relacionadas) desta agitada semana também no Brasil: Primeiro, a reportagem da VEJA, “Feitiços e Feiticeiros”, assinada por Daniel Pereira e Robson Bonin, que abriu as cortinas do sigiloso e estranho encontro em Brasília, de advogados de poderosos empresários corruptores, presos na Operação Lava Jato. Na conversa, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, chefe maior da Polícia Federal, tranquiliza empreiteiras ao garantir que investigações da Lava-Jato sofrerão uma reviravolta depois do Carnaval”, denuncia a revista semanal. O encontro foi confirmado pelas partes envolvidas.

Sobram contradições, no entanto, a confirmar, sobre o exato conteúdo das conversas “en catimini”, como qualificou o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, ministro relator do histórico processo do Mensalão. Ele condenou duramente os encontros, em segredo, entre partes envolvidas na causa criminal, e até pediu a demissão de Cardozo pela presidente Dilma Rousseff. Tudo isso na saraivada de mensagens sobre o assunto disparada pelo magistrado no Twitter. Este é o outro fato relevante, além da matéria da VEJA. Destaco três mensagens de Joaquim Barbosa que considero essenciais no caso: “Explico: o processo judicial cuida de interesses ferrenhamente contrapostos. Tem de ser transparente, dar igualdade de chances às partes”, anota na primeira. “No processo judicial não devem existir encontros “em catimini”, às escondidas, entre o juiz e uma das partes. Igualdade é o lema”, diz na segunda. E mais uma, crucial: “Se você é advogado num processo criminal e entende que a polícia cometeu excesso/deslizes, você recorre ao juiz. Nunca a políticos!”.

Este é o ponto fundamental que cobra respostas éticas, verdadeiras e responsáveis. O mais são penduricalhos, para desviar a atenção e desguiar os olhos da sociedade do que efetivamente importa: a verdade dos fatos, doa em quem doer. Por fim um registro: a expressão “em catimini” do tuite de Joaquim Barbosa, reconduziu-me a memória aos bancos da Faculdade de Direito da UFBA, nas aulas do saudoso professor de Direito Romano, Adalício Nogueira, igualmente brilhante ex-ministro baiano do Supremo Tribunal Federal.

Fez-me ir buscar no dicionário francês, a origem contraditória da locução adverbial surgida na segunda metade do século XIV, mas de origem incerta. A mais provável faz ligações com “caixas de segredos” (caixas pretas?). A expressão nasceu na mesma época do verbo “catir”, substituído por “cacher”, que trocou a expressão “faire le catinus”, por “faire l’hypocrite” (jeito hipócrita de fazer as coisas.) Precisa mais?

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@ terra.com.br

Be Sociable, Share!

Comentários

luiz alfredo motta fontana on 21 Fevereiro, 2015 at 7:26 #

Caro VHS

Afinal em que nos transformamos após emergimos de um longo período de privação das liberdades?

Com esta pergunta, atrevo-me a responder a tua, ao final do artigo, dizendo: sim, precisa mais, muito mais.

Cardozinho, um dos três autodenominados porquinhos de Dilma, apenas confirmou sua pequenez, aloprou-se sem pestanejar, agora, exposto ao sol, busca vestir um manto que não é seu.

Esperanças haveriam se fosse só isso, se Cardozinho tivesse um significado em si, expressa-se um vilipêndio autônomo.

Mas não, os anos da tal ditadura transcorreram sob o silêncio cúmplice do judiciário, as togas simplesmente fingiram que a Carta Magna não teria sido pisoteada pelos coturnos infames em sua marcha tropega, eles os coturnos, qual rinocerontes numa adega, elas, as togas, qual camaleões em terreno fétido.

E daí?Perguntarão os impacientes.

E a resposta, ao daí, é nossa tragédia.

O direito se faz com normas, mas também com costumes, sobretudo com a cultura dos tribunais, e esta perdura por gerações, é resistente à mudanças, reproduz-se a cada concurso, a cada estágio, a cada simpósio. Afirma-se em cada proceder, em cada sentença, em cada lauda.

É só lembrar o “mensalão”, especialmente os que ficaram de fora, não por ausência de afinidades, não por maestria no camuflar, mas sim pela tradicional “cautela” dos que, em prima face, no lugar de agirem com destemor e isenção, preferem garantir as próprias vestes, adornadas de gratidão, pela escolha sempre inusitada, dos que mantém o lamaçal em frenesi crescente.

Cardozinho não está só.

A ética, a esperança, o futuro, estes sim, estão sós, cada qual na sua masmorra, torturados pelo silêncio dos que nunca foram inocentes.

Tim Tim!!!!

Com o gosto amargo de uma geração cujo sonho poderia caber em uma canção, mas restou sem interprete.


Carlos volney on 21 Fevereiro, 2015 at 11:26 #

Caro poeta, seu comentário é antológico e a ele pretendo me associar, com sua permissão.
De resto, mestre Vitor brilha mais uma vez.
TIM TIM!!


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • Fevereiro 2015
    S T Q Q S S D
    « jan   mar »
     1
    2345678
    9101112131415
    16171819202122
    232425262728