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CRÔNICA

Atrás do cheirinho da loló

Janio Ferreira Soares

Quando o motorista buzinou naquele tom de última chamada, viramos os copos de uma só golada e entramos no ônibus com caras de “desculpe aí’ para alguns passageiros que nos filmavam desde a primeira cerveja no balcão da espelunca e agora nos olhavam de viés só por causa de dois, três minutinhos de atraso, talvez mais, talvez menos, impossível precisar. Detalhes.

Se a viação Luxo Salvador tivesse uma revista de bordo, nossa foto sairia na seção “passageiros em trânsito”, dizendo: Ano: 1980. Mês: janeiro. Quem: este locutor, Nelsinho e Nelson Homero. Idades: entre 18 e 22. De onde/para onde: Paulo Afonso/Salvador. Por quê: comer lambreta, farrear, ver shows e quem sabe até descolar umas meninas baianas com aquele jeitinho que Deus deu e Gil eternizou.

Durante uma semana nos divertimos muito, vimos shows bacanas (Paulinho Boca recebendo novos e velhos baianos; 14 Bis começando seu trajeto Pampulha/Abbey Road; Elba Ramalho ainda de colante e com a voz, segundo Baby Consuelo numa mesa vizinha à nossa, “de taquara rachada”) e não pegamos ninguém. Em compensação, embalados pelo sucesso de Pessoal do Aló (Risério e Moraes), um amigo nos levou numa farmácia nos Barris e de lá saímos com algumas substâncias que abalariam o Carnaval de Paulo Afonso.

Depois de uns dois dias tentando acertar a fórmula (o clorofórmio não misturava com a lavanda – ou algo do tipo), finalmente Nelson Homero, fazendo jus ao título de melhor aluno de química de 1979 (até hoje ele guarda uma pipeta volumétrica que ganhou do professor Paiva), cortou a mangueira do Lorenzetti, aspirou a parte de baixo e, depois do teste final, começou a cantar “no azul de jezebel, no céu de Calcutá”, dando várias bitocas no litro como se fora a boca da baiana que ele não beijou. Estava na hora de voltar.

Ao chegarmos faltava um dia para o Baile do Havaí no Clube Paulo Afonso (CPA) e você pode imaginar o que aconteceu. Resumindo, foi um deleite para os experientes órfãos da Rodouro e um pesadelo para os aprendizes da benzina, cuja avidez provocou alguns desmaios entre Máscara Negra e Cabeleira do Zezé, forçando as seguintes medidas da diretoria do clube: 1) Proibir a execução de Pessoal do Aló durante o Carnaval; 2) Colar um aviso onde dizia ser proibido entrar com alucinógenos de fabricação caseira.

Nas três primeiras noites houve, sim, uma certa tensão no ar, só quebrada na madrugada de terça pra quarta, quando a banda tocou o hino do Bahia. Explico. Sivaldo, um entusiasta do produto, se esqueceu de que estava com vários frascos dentro da bota e a cada pulo de “Bahêa! Bahêa! Bahêa! eles iam caindo pelo salão provocando uma onda de éter no ar, o que levou Altair Leonardo a dar apenas um toque da introdução da canção proibida na sua guitarra baiana, deixa perfeita para que todos – balançando seus lenços – a cantassem à capela, decretando, enfim, a liberação do auê, badauê, ebó. Bom Carnaval.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio Sâo Francisco

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