Nisman em Ezeiza: passos vigiados
antes de ser achado morto.

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ARTIGO DA SEMANA

Petrobras aqui, AMIA no Prata: e o Carnaval no meio

Vitor Hugo Soares

Volto a Buenos Aires esta semana em pensamento, informação e tema jornalístico. Retorno irresistível – por imposição de fatos novos – ao caso do promotor Alberto Nisman, encontrado morto com um tiro de revolver na cabeça, no interior de seu apartamento em Puerto Madero. Primeiro, os estranhos e suspeitos desdobramentos na investigação, que, da beira do Rio da Prata, mexe com os nervos dos argentinos e atrai os olhos do mundo.

Mal comparando (ou bem?) algo parecido, no plano de interesse da cobertura de imprensa, às investigações conduzidas desde Curitiba pelo juiz Sérgio Moro, no Brasil, à frente da Operação Lava Jato: maior e mais deslavado escândalo político, econômico e administrativo da história do País, que ameaça afundar a credibilidade interna e internacional da Petrobras. Maior e mais emblemática empresa nacional. Número um no coração dos brasileiros, desde as lutas memoráveis por sua criação na campanha “O Petróleo é Nosso”, Governo Getúlio Vargas.

No drama argentino, um exemplo gritante, recente, são as imagens de Nisman sendo seguido passo a passo por câmeras dos órgãos de segurança e inteligência do governo justicialista de Cristina Kirchner, quando desembarcava no Aeroporto de Ezeiza, na volta de uma viagem de férias, poucos dias antes da sua morte. As imagens e toda sua intensidade de denúncia jornalística foram mostradas aos brasileiros, esta semana, no Jornal Nacional, da TV Globo.

Nisman era o encarregado geral do processo sobre o atentado terrorista que, em 1994, arrasou um quarteirão inteiro, praticado contra a sede da AMIA – a mutuária judaica localizada no bairro Once,pleno centro comercial de Buenos Aires. Não custa relembrar: 85 mortos, centenas de feridos, chagas profundas no corpo dos sobreviventes e na alma dos argentinos, que a impunidade não permite sarar.

Uma crise política, jurídica, de segurança e de governo sem tamanho, no tumultuado e explosivo ambiente social que se respira na Argentina, a braços ainda com crise econômica e moral aparentemente sem fim.

Incluídos nessa geleia geral que o jornal Clarin anuncia vale observar, com mais atenção e rigor profissional, alguns aspectos: o papel nada exemplar e isento (como caberia a uma chefe de governo e de estado) da presidente Cristina Kirchner; o comportamento radicalizado na imprensa independente, acuada politicamente e asfixiada economicamente pelo governo ; o jogo dos políticos de olhos e interesses fixos na disputa sucessória da presidente da República (já em curso), mas principalmente a comprometedora, nada profissional e perigosa atuação dos órgão de inteligência e segurança no caso da morte do promotor.

Isso ficou evidente nas cenas gravadas de toda movimentação de Nisman, no Aeroporto de Ezeiza, na volta das férias à Europa, dias antes de ser encontrado morto com uma bala na cabeça dentro de seu apartamento. As imagens nuas e cruas mostram o magistrado sendo filmado, o tempo inteiro, pelas câmeras dos órgão de segurança – não se sabem operadas por que mãos e a mando de quem. Foram mostradas na Argentina e no mundo com proporcional impacto e reação indignada da opinião pública. O JN, em forte e relevante reportagem da correspondente Delis Ortiz, mostrou as cenas esta semana.

Infelizmente, sem a devida, esperada e equivalente reação de protesto (mesmo que formal) ou real indignação de entidades de defesa de direitos humanos no País, das entidades corporativas dos Magistrados do Brasil (tão ativas no combate ao ministro Joaquim Barbosa), da OAB, ou mesmo da Justiça brasileira. Nem mesmo o presidente do Supremo, ou algum dos ministros da corte, tão eloquentes e ágeis ultimamente em protestos e ações de defesa de regalias corporativas. Uma lástima!

A petista Dilma Rousseff aqui, e a peronista Cristina Kirchner, nas banda do Prata, parecem fazer escola no continente.

Faço esses registros antes do barulho e das multidões tomarem conta das ruas de Salvador, Rio de Janeiro, Recife, além de centenas de outros rincões brasileiros. Não se pense que sejam movimentos de protestos contra a roubalheira na Petrobras, o retorno da inflação, o massacre dos aposentados, os impostos cada vez mais escorchantes e descontrolados sobre o cidadão contribuinte, em troca do que se vê: desastre da educação pública, caos da saúde, apagões de energia e ameaças de aumentos ainda maiores nas contas de luz elétrica. Sem falar na falta de água e avisos de prováveis racionamentos, principalmente nos estados do sudeste, São Paulo à frente.

O que move a ocupação das ruas pela massa por aqui, nesses agitados dias de fevereiro, é a folia do Carnaval 2015. Na Bahia, onde o carnaval dura oficialmente uma semana, multidões já tomam praças, avenidas, becos, ruas e ladeiras – a partir do Pelourinho ou no Furduço do circuito Barra-Ondina, na folia que homenageia os 30 anos do Axé.

Dizem, há décadas, que a carraspana da Argentina, na véspera, é a ressaca do Brasil no dia seguinte. No Prata a chapa esquenta. Aqui o trio toca “Baixa do Tubo”, de Luiz Caldas, e arrasta multidões. Depois do Axé, a conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site Blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Mario Brito on 7 Fevereiro, 2015 at 5:05 #

O argentino promotor o brasileiro juiz.


luiz alfredo motta fontana on 7 Fevereiro, 2015 at 7:42 #

Somos todos Petain?

Durante a ditadura militar a resposta seria quase todos. Especialmente os que deveriam por dever de ofício e investidura zelarem pela normalidade constitucional. Nenhum tribunal deixou de funcionar em protesto e nenhum togado abdicou de seus proventos. O MP quedou-se mudo. Falo das instituições e de suas falas, modos, atitudes e posturas institucionais. Um ou outro rebelado só confirma a regra.

E agora?

Enquanto Wagner se entrincheira, Dilma rasga a biografia tornando espaço vazio seu “glorioso” tempo de presidente do conselho da Petrobras, buscando desesperadamente livrar-se da responsabilidade objetiva, que independe de produção de provas, esta na lei. Lula oa seu modo bizarro e errático busca abrigo na bravata, acusa os futuros acusadores de partícipes de julgamento político. Gabrielli entremeia choro com resmungos, e repete, não estive só durante, não aceitarei a solidão agora.

Já nosostros!

Depois de anos e anos de submissão e medo, sucedidos por anos em que o alívio e a esperança foram trocados pela vergonha, quedamo-nos, até agora, como platéia muda de um comédia de erros. Exitantes entre aplaudir e vaiar.

Somos todos Petain?

Que os foliões, presos em sua liberdade por cordeiros, respondam.

E que no Sábado de Aleluia, os Judas a serem malhados, sejam todos manchados pelo Petrolão!


luiz alfredo motta fontana on 7 Fevereiro, 2015 at 7:52 #

E por falar em tango argentino: Val Marchiori ou Rosemary Noronha?


Janio on 7 Fevereiro, 2015 at 9:26 #

Meu caro poeta, pela estampa, sem dúvida, Val. Já pelos segredos das alcovas palacianas, a galera grita: “Rose!, Rose! Rose!”


Mariana Soares on 7 Fevereiro, 2015 at 10:25 #

Análise perfeita, meu irmão!
Triste realidade a nossa! Nenhuma esperança em dias melhores, tudo parece sombrio…e quando a gente pensa que não pode piora, fica ainda pior ao ficamos sabendo que o escolhido pelo Planalto para dirigir a Petrobras será ninguém menos do que o Bendine, cujo passado de denúncias de corrupção e de práticas dos mais variados tipos de irregularidades com o dinheiro público não lhe alçaria sequer a sindico do prédio onde reside, quanto mais da nossa maior empresa brasileira.
Agora, dizem as pesquisas, que Dilma não mais séria reeleita se a eleição fosse hoje! É daí? O que isso importa se ainda temos que aguenta-la e aos seus desmandos por quatro anos?
Chegamos ao fim do caminho e estamos apenas no início do segundo mês dos 48 que ainda temos pela frente…
Não tem carnaval que nos livre desta tristeza e desesperança!


Cida Torneros on 7 Fevereiro, 2015 at 10:42 #

Vitor. Como sempre com seus artigos sensiveis e lucidos . Mas, esperança sempre haverá creiamos os ou não e Corruptos são endemicos aqui ou alhures, infelizmente. Decepções, ora fazem parte das nossas pequenas vidas e seguimos. Fazemos a nossa parte. Cada um responde ou não por suas consciências ou atos e a justiça dos homens segue falha assim como a política permanece dando voltas excusas em torno do próprio umbigo. Ou Ego. Ou falta de caráter. Ou psicopatia generalizada. Um carnaval no meio ainda pode neutralizar…


luiz alfredo motta fontana on 7 Fevereiro, 2015 at 11:04 #

Cara Mariana, o pior é o carnaval em cordas, espremendo e ordenhando turistas e desavisados, a Praça loteada entre axés.

Vendem nossa liberdade, taxam nosso ir e vir, Aratu continua refúgio. Almirantes armam quiosques, Brigadeiros sobrevoam, Generais perfilam.

Quando Mercadante é Rei Momo, matracas marcam o ritmo, carpideiras entoam o refrão:
-Vai Juro, Vai Juro, vem roubar o meu pirão!

Resta a quarta-feria em cinzas!

– Valei-me Caymmi, nessa ciranda não vou não!


luiz alfredo motta fontana on 7 Fevereiro, 2015 at 11:08 #

Grande Janio!

Okamoto, ao que parece, continua vigilante.

Rose não pia nem desfila.

Será que ameaça?


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