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Chacrinha e a mandioca de Maria Bethânia

Janio Ferreira Soares

No palco do Vivo Rio, Maria Bethânia calcula sílabas, dramatiza gestos e dispara canções milimetricamente planejadas para seduzir milhares de abelhinhas sorvendo o néctar que passarinho não bebe e polinizando o ar com seus diversos feromônios, que vão de chaneis de variados números a jequitis de múltiplas prestações, passando por toques amadeirados de dedos nicotizados pelo martírio do vício, cujos donos não resistem à tentadora combinação álcool/tabaco e debandam atrás de aflitas baforadas, mesmo correndo o risco de perder versos de Fernando Pessoa seguidos de sutis gingados estilo David Carradine em atitude gafanhoto, que deixam a velha baiana com ares de uma mestra-shaolin-reconvexa preparando-se para mandar ver naquela canção do Roberto.

A poucos quilômetros dali, no Teatro João Caetano, Stepan Nercessian encarna um Chacrinha quase tão perfeito, que muitas vezes tem-se a impressão de ser o próprio balançando a pança, buzinando a moça e comandando a massa, em sua maioria composta por senhorinhas que à época eram loucas para agasalhar Fábio Jr. quando este vivia pedindo colo, e por seus grisalhos acompanhantes com taxas prostáticas a caminho dos dois dígitos, por sua vez relembrando solitárias orgias proporcionadas por Gretchen cantando Freak Le Boom Boom e por Rita Cadilac sacanamente atiçando as entranhas da imaginação com seu dedinho indicador em pequenos movimentos giratórios ao som de roda, roda e avisa.

Pois muito bem, depois de assistir a esses dois grandes momentos nas quebradas da Guanabara, restou a este velho zangão lubrificar as entrevadas asas e dar um breve bordejo sobre as begônias de seus longínquos jardins, retornando exatamente aos tempos das tiradas impagáveis do Velho Guerreiro, a propósito, recentemente reprisadas pelo Canal Viva.

“Alô dona Marieta, como vai sua caderneta?”. “Alô, atenção! A Beatriz é aquela que dá e não diz”. “Quem vai querer a mexerica de Elba Ramalho?”. “Alô dona Raimunda… como vai, vai bem?”. “Quem vai querer a banana do Chico Anísio?”. E cantava: “Maria sapatão, sapatão, sapatão, de dia é Maria, de noite é João”. E jogava pirulitos para a galera: “Alô, atenção! Quem chupa mais, o homem ou a mulher?”. E balançava um enorme aipim: “Quem vai querer a mandioca de Maria Bethânia?”.

Embora sem informações a respeito, não creio que os personagens citados se incomodassem com essas brincadeiras. É que os tempos eram outros e as pessoas viviam numa dimensão meio sépia, meio analógica, onde notícias sobre abdomens trincados, amores roubados e celebridades de araque ainda eram pesadelos distantes.

Pra terminar, fico imaginando o quiprocó que seria se Chacrinha ainda estivesse em ação. “Quem vai querer uma delação premiada aí?”. “Alô dona Rousseff! Alô seu Gabrielli! Cuidado com a língua do Youssef”. “Alô, dona Dió, o Cerveró é feio de dar dó”. “Atenção seu Juvenal, tire uma selfie .

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, porta de entrada do Raso da Catarina, na margem baiana do Rio São Francisco.

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