Mauá do Porto da Barra: dias contados

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Imagem do artesanato do interior da Bahia,
do acervo do jornalista Reynivaldo Brito,
adquirida em uma feira de artesãos do Mauá.
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CRÔNICA

Pecado mortal

Gilson Nogueira

Duas mulheres deitadas. De uma vê-se a bunda, da outra o peito. A foto do Pão de Açúcar, publicada no Correio da Manhã, de 12 de novembro de 1959, dá-me essa impressão. Ela está reproduzida em um marcador de livros ganho como lembrança da mostra Capitais da Bossa Nova – Rio e Brasília nos anos JK, realizada no Arquivo Nacional, no Centro do Rio, em 2011. Encontrei o marcador folheando Balanço da Bossa, antologia crítica da moderna música popular brasileira, de Augusto de Campos, Editora
Perspectiva, São Paulo, 1968.

“E aí, qualé de mermo?”, pergunta-me o ex-vendedor de cerveja, no Porto da Barra. Encontrei-o, esta semana, indo visitar o Instituto Mauá, que fica ali. Fiz a visita para marcar meu adeus ao local, onde a Bahia está representada na arte de sua gente. O Mauá está com sentença de morte
decretada em um órgão oficial, informa o guru da Ribeira, escritor e jornalista Jolivaldo Freitas.

Que crime cometeu o Mauá?, pergunto. “Só deus sabe!”, exclamaria Jorginho, que não suporta
mais o sol a queimar-lhe os miolos e a areia quente a fazer-lhe pular mais que pipoca em frigideira. Saudade, mesmo, ele tem das bundas e peitos que admirava na
praia mais gostosa do mundo.

O certo é que, no início desta semana, deixei cair uma lágrima no chão do Mauá, como se estivesse depositando flores no túmulo da história da Bahia. Entrei e sai do prédio em menos de dez minutos. A emoção foi forte demais! Engoli o pranto, ao falar para o rapaz, que me fitava com o olhar dividido entre a beleza do mar atrás da vitrine e o movimento na loja, que éramos testemunhas de um crime.

Disse-lhe, quase chorando, que não acreditava no que estava acontecendo, a morte anunciada de uma instituição com 76 anos de serviços prestados á cultura e á arte da terra de Caetano e Gil.
Fiquei emocionado, com medo de ter um treco, e fui caminhar minha tristeza, tendo o Mauá no pensamento, seu acervo maravilhoso, sua nobre missão de manter viva a arte
de seu povo e de divulgar a alma da Bahia feita de barro, cobre, ferro, conchas, panos, couros, madeiras e tintas e outros materiais em suas peças artesanais. A Bahia segue
descendo a ladeira, reafirmo.

Em casa, de cara para o computador, fito um santo barroco, adquirido, há anos, no Mauá, e ouço, no coração, ele
dizer:“ Perdoai, filho, eles não sabem o que fazem!”

Gilson Nogueira é jornalista, colaborador do BP

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Comentários

Marusia Brito on 18 Janeiro, 2015 at 16:48 #

Trabalhei vários anos no Mauá e a nossa proposta eras que o Mauá fomentasse o artesanato tradicional da Bahia, aquele que é encontrado nos vãos de serra do interior. Não o trabalho manual usual, assunto do SEBRAE. Fundamos o Mauá Pelourinho onde há um acervo com peças, biografia e toda a documentação do modo de fazer daquela peça para a arte não morrer. Mas, vinculado à incapacidade da Setras de entender que artesanato não é só meio de vida mas manifestação da cultura popular, foi difícil ir adiante com a proposta e me desliguei. Centenas de pessoas ficarão sem o meio de vida pois dependiam do Mauá ir buscar nos lugares mais desertos a produção e vendê-la nas feiras e lojas. Esse pessoal vai passar fome sobretudo com as secas que assolam o Sertão. Só uma mente estreita pode acabar com um órgão desse e não transformá-lo numa atração turística e cultural da Bahia


vitor on 19 Janeiro, 2015 at 2:50 #

Marusia
Perfeito seu depoimento. Lembro de você no Mauá, quando Ivete Oliveira era Secretária do Trabalho (Setrabes) e Roberto Santos governava a Bahia. Gostaria muito de ter um artigo seu sobre o Instituto Mauá para publicar no BP. Seria possível?E-mail: vitors.h@uol.com.br
Em tempo: Fui aluno de seu pai na faculdade de Jornalismos da UFBA e sempre admirei o Professor Milton Cayres de Brito desde o tempo das lutas dele como deputado constituinte por São Paulo.Sou casado com Margarida, tambem jornalista, que trabalhou como assessora na equipe de Ivete na Setrabes. Acho que falei demais, mas é isso. Alegre com o reencontro, aguardo resposta.

Vitor Hugo


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