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CRÔNICA

Os limites do humor
Janio Ferreira Soares:

A frase é manjada, mas sou capaz de perder um amigo (ou a vida, sabe-se agora), mas nunca a piada. Nem que ela seja apenas insinuada através de um toque para alguém na hora de sua ocorrência – ou então compartilhada somente com a minha ladina consciência -, a verdade é que, por uma questão genética, a gaiatice prevalece no meu DNA e, ligadíssima, definitivamente não suporta condescendências ao cinismo.

Agora mesmo, num evento de fim de ano, me apareceu um padre vezeiro na arte de empurrar coroinhas pras ribanceiras da perdição, se arvorando de já ter o seu lugar reservado num buzu com destino ao terminal celestial, muito provavelmente (matutei) com uma oportuna parada para um relaxamento corporal numa sauna a vapor na ala adolescente do purgatório.

Nesse mesmo dia, por tratar-se de um ato ecumênico organizado pelas correntes religiosas da liga dos funcionários municipais, um pastor também pregava sua intimidade com o Senhor e igualmente confirmava sua ida aos céus, porém, pelo que deu pra perceber, no lugar de um ônibus cheio de fiéis assistindo ao DVD do Irmão Lázaro, ele será transportado num jatinho cedido por Edir Macedo que, muito zeloso com suas ovelhas, faz questão de que elas cheguem diante do seu clone num estilo bem frescor pós-banho, tipo, sei lá, Luan Santana despertando numa manhã ensolarada na Provence. Mas vamos ao que interessa.

Um pouco antes dessa loucura envolvendo os humoristas franceses, Renato Aragão disse sentir falta do tempo em que podia fazer piadas com negros, gays e que tais, sem maiores consequências. Pois muito bem.
Quando eu já me preparava pra aplaudir de pé o nosso Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgino Mufumbo, eis que ele, na mesma entrevista, diz que o pessoal do Porta dos Fundos, às vezes, pega muito pesado. Qual é, Pissiti!

A questão não é se neguinho exagera ou não, pois numa democracia todas as ideias são permitidas e qualquer um pode divulgá-las da forma que quiser, cabendo ao distinto público usar a prerrogativa do livre-arbítrio (ufa!, desde os tempos em que eu abandonei a Faculdade de Direito da Ufba vivia doido pra usar esse termo, mas nunca tinha tido a chance. Valeu, Maomé!).
A questão é: nesses chatíssimos tempos onde qualquer um pode emitir e propagar sua opinião, até que ponto (e com quem) pode-se zonar publicamente? E, em se fazendo, quais serão as punições para o autor? Tiros? Regulação da mídia, como querem alguns setores do governo? Um domingão de Carnaval no circuito Barra/Ondina jogando as mãos pra cima ao comando de La Mercury?

Pra terminar, uma historinha real acontecida em Paulo Afonso na época em que cada um cuidava de sua vida.
Aniversário do Supermercado Pesqueira, o saudoso apresentador, Gilberto Leal, chama ao palco o ganhador de uma bicicleta. Sobe um menino franzino e ele diz: “ainda bem que o sorteado foi esse neguinho pobrezinho lá da Vila do Rato. Como é o nome do seu pai, meu filho?”. E o garoto: “Doutor Roque” (um querido “negão”, médico da Chesf). Pano rápido e Gilberto, numa velocidade impressionante, chama a próxima atração. Roque, ao saber do episódio, morreu de rir. Já o “incorreto” Gilberto, só morreu quando o ponteiro do seu Seiko pousou na sua hora.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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Comentários

Doutor Roque | ZÉducando on 1 Fevereiro, 2015 at 3:48 #

[…] Os limites do humor  […]


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