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09


Irmãos Kouachi: história bem francesa

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DEU NO PÚBLICO, DE LISBOA

João Ruela Ribeiro

Os suspeitos pelo atentado ao Charlie Hebdo são dois órfãos franceses, já implicados em movimentos jihadistas. Tese do terceiro homem posta em dúvida.

Um pequeno descuido foi suficiente para minar o plano que culminou com a execução de 12 pessoas no atentado ao Charlie Hebdo. A carteira de identidade de um dos autores dos crimes deixado acidentalmente no Citröen negro em que seguiam deu às autoridades a pista crucial para a grande operação militar montada esta quinta-feira. Permitiu também conhecer o percurso dos irmãos Kouachi, que deixa um amargo dejá vu na história de radicalização dos jovens europeus.

Foi ao início da noite de quarta-feira, algumas horas depois do ataque sangrento à sede do semanário satírico, que os investigadores revelaram a identidade dos homens que procuravam: Chérif e Said Kouachi, de 32 e 34 anos. A implicação de um terceiro homem, como chegou a ser afirmado pelo próprio ministro do Interior, está ainda envolta em incertezas.

O bilhete de identidade encontrado pela polícia pertence a Said Kouachi, mas é o seu irmão mais novo que tem concentrado as atenções pelo seu históricol de ligações ao movimento jihadista. Ambos nasceram em Paris, mas foram criados em Rennes, num orfanato depois da morte dos seus pais, de nacionalidade argelina. Em 2003, Chérif regressa à capital com o irmão e divide-se entre empregos temporários como distribuidor de pizzas, lojista e funcionário na peixaria de um supermercado. Como o típico jovem suburbano, Chérif era um ocasional fumador de marijuana, ouvia rap e interessava-se por raparigas, sem pensar em casamento.

“Ele fazia parte de um grupo de jovens que estavam um bocado perdidos, confusos, não eram fanáticos no verdadeiro sentido da palavra”, contou ao Libération o seu ex-advogado, Vincent Ollivier. Pela mesma ocasião, Chérif começa a frequentar a mesquita Adda’wa, no bairro de Estalingrado, a norte de Paris, onde trava conhecimento com outro jovem praticamente da mesma idade. Trata-se de Farid Benyettu, o “ideólogo” fundamentalista que dava aulas na mesquita, a que Chérif frequentava com regularidade.

Benyettu liderava a chamada fileira do Buttes-Chaumont, uma célula de recrutamento que entre 2003 e 2005, segundo o Le Monde, conseguiu enviar uma dezena de jovens para o Iraque, onde se juntaram a movimentos jihadistas. Chérif Kouachi era um deles e foi precisamente quando se preparava para voar para a Síria – onde faria o transbordo para o Iraque – que foi interceptado pela polícia e detido, em Janeiro de 2005. O desejo dos jovens era movido pelas imagens da invasão norte-americana e britânica do Iraque e também pelas notícias que davam conta das cenas de tortura na prisão de Abu Ghraib.

Kouachi e os outros aprendizes mantinham-se em forma através de corridas no parque de Buttes-Chaumont, que deu nome à organização. Foram-lhes também dados alguns princípios básicos – através de desenhos, diz a Reuters – de como operar uma metralhadora Kalashnikov. O que interessava era a inculcação ideológica. Num documentário para o canal France 3, filmado pouco tempo antes da sua detenção, Chérif é citado acerca da sua aprendizagem: “Farid disse-me que os textos [sagrados] davam provas do benefício dos atentados suicidas.”

Três anos depois, Kouachi foi um dos jovens presentes a julgamento e deu graças por ter sido impedido de chegar ao Médio Oriente. “À medida que a data se ia aproximando, cada vez mais eu queria voltar atrás. Mas se eu recuasse corria o risco de ser visto como um covarde”, disse na época, perante os juízes. De nada valeu a argumentação e Chérif foi condenado a três anos de prisão, dos quais acabou apenas por cumprir 18 meses de pena suspensa, por já ter cumprido dois de prisão preventiva. Segundo o seu advogado, a estadia entre as grades mudou-o. “Ele já não falava. Já não era o mesmo”, recorda Ollivier ao Libération.

Kouachi voltou ao banco dos réus em 2010, desta vez com a companhia do irmão Said. Ambos eram acusados de terem conspirado para libertar um antigo dirigente do Grupo Islâmico Armado da Argélia (GIA), Smain Ait Ali Belkacem, condenado a prisão perpétua pela autoria de um atentado no metro de Paris que matou oito pessoas. Este grupo liderou nos anos 1990 uma tentativa de golpe de Estado na Argélia antes de se transformar em 2007 no braço da Al-Qaeda no Norte de África.

Os juízes decidiram pela não condenação dos implicados na tentativa de libertação por falta de provas. Num outro caso, Chérif foi indicado como “testemunha assistente” num caso que envolvia Djamel Beghal, outra das principais figuras do jihadismo em França. A sua implicação foi afastada, “apesar da sua imersão confessa no Islão radical” e “no seu demonstrado interesse em teorias que defende a legitimidade da jihad armada”, de acordo com o processo

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