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Postado em 05-01-2015
Arquivado em (Artigos) por vitor em 05-01-2015 12:15


Ilha de Itaparica vista do Solar do Unhão, em Salvador:sem ponte.
Foto: Gilson Nogueira

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Ubaldo: elo perdido de Itaparica

CRÔNICA

A ponte não

Gilson Nogueira

O bar de Vevé fechou. O de um amigo de um amigo, o velho Joca, idem. Imagino. Ambos, na Gamboa, em Mar Grande, no município de Vera Cruz, localizado na Ilha de Itaparica, aquela que não é mais a mesma, desde que o diabo resolveu viajar nos finais de semana e em períodos de férias para tomar banho de mar junto aos nativos e moradores sazonais, proprietários de casas na beira de suas praias, e veranistas, e uma tal de ponte ligando-a a Salvador pariu o caos antes da hora.

O sonho acabou, no ritmo do axé. A violência engoliu a paz que reinava ali e João Ubaldo, o inesquecível Jotaú, faz uma falta tão retada que não há mais lágrima para chorar sua ausência. Sem ele, a Ilha não é mais a mesma. O seu sorriso ia de uma ponta a outra de minha alegria por sabê-lo perto. Era uma alegria oceânica. De todos!
Não mais a paz pisando o chão de areia, a sombra das mangueiras aliviando os passos do banhista que não mergulhava no mar da Baía e, sim, na poesia viva de um lugar mágico que Deus criou para ser preservado até o fim dos tempos.

Não há mais a distância que afastava o estresse, a ilusão do paraíso, o brilho distante do progresso, a certeza de uma soneca sem assaltos, o peixe vermelho de olho grande e vivo, o siri dançando no cesto de palha e Brígido prometendo mangas maduras como presente divino, após a feijoada embaixo dos coqueiros que dançavam ao vento de um gênio chamado Dorival.
Não há mais o bába com Chico dando toques de trivela e a lancha de Horacinho deslizando sonhos. Mar Grande de boi passeando na frente da igreja. Nem sinal de uma roda de conversa com um homem de cabeça branca no centro do círculo aquático a comandar o papo com a autoridade natural de um líder de verdade que projetou a Bahia no campo político como nenhum outro.

E procissão de gente indo buscar quem chegava na ponte do Duro para festejar a amizade e as novidades da terra lá longe. O amor pelos caminhos, as casas de telha vã espiando a rotina e o silencio. A Bossa na mesa do barzinho do Galeão e a radiola do operário da palavra tocando o Tamba..

Mar Grande, ontem, visto do Solar do Unhão, durante mais uma Jam no Mam, ao mergulho do Sol, parecia-me dizer, “ Por favor, por favor, a ponte não, a ponte não, seo Migué!!!”

Gilson Nogueira é jornalista, colaborador da primeira hora do BP, batizado “Migué” pelo saudoso radialista e conselheiro do Tribunal de Contas da Bahia, França Teixeira, na época de ouro do rádio esportivo baiano.

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