Tiago de Paula Carvalho / Divulgação
“Foi triste ele ter me traído. Descobri quando ainda estava casada”

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Entrevista com Rosane Malta publicada no jornal O Tempo, de Mininas Gerais, reproduzida no portal IG

iG Minas Gerais

Em “Tudo que Vi e Vivi”, Rosane relata a vida ao lado do ex-presidente durante os dias de glória e a queda com o impeachment. Garante que não escreveu nada para “destruir ninguém”, mas para ajudar em sua “batalha” na Justiça pela partilha dos bens de Collor.

O que levou a senhora escrever o livro?

Há nove anos luto na Justiça para ter os meus direitos. O meu livro tem um porquê. Tenho lutado para ter aquilo que eu construí com Fernando e, infelizmente, não estou conseguindo. A Justiça manda que a mulher tenha direito, no caso da pensão alimentícia, de 20% a 30% do que o seu ex-marido ganha. Eu ganho 2%. O livro foi uma forma de mostrar para as pessoas o que tenho passado e também porque muita gente contou o que queria, falou durante esse tempo todo a sua versão. Em nenhum momento fiz com intuito de destruir ninguém. Se quisesse fazer isso, já teria feito. Tanto é que eu acho que o Fernando foi injustiçado. Ele foi condenado e, depois, julgado.

A senhora acredita que o livro irá ajudar com a ação na Justiça pelo aumento da pensão alimentícia e pela divisão de bens?

Fiz o livro para que a Justiça veja o que nós construímos durante esses 22 anos de relacionamento. Fernando dizia que graças a mim estava vivo, que eu era uma mulher maravilhosa, companheira, guerreira, nordestina. É difícil, para uma mulher com 50 anos como eu, entrar no mercado de trabalho. Já entrei em depressão, sofri a morte da minha mãe, perdi meus dois irmãos, perdi meu pai recentemente. Foi uma coisa atrás da outra. Claro que quero trabalhar, claro que quero construir a minha vida. Ele acha que eu não tenho direito a nada? Vou lutar por aquilo a que tenho direito.

A senhora revela no livro outros episódios sobre a polêmica que levou ao impeachment de Fernando Collor?

Lancei o livro para que as mulheres fiquem atentas. É um alerta para que as mulheres não ajam com o coração, que ajam com a razão. Para que elas não passem pela mesma experiência que tive. Eu me dediquei a vida inteira a um homem. Fiz esse livro porque as pessoas julgam sem saber. Mostro no meu livro a verdade. Na hora em que tive que parabenizá-lo, dizer que Fernando foi um ótimo marido, eu fiz. Não o condeno.

Como a senhora encarou a traição no fim do casamento?

Foi triste ele ter me traído. Descobri quando ainda estava casada. Fernando ultrapassou todos os limites e não tinha nem recebido o processo de separação. Fernando levou essa pessoa com quem ele está atualmente, colocou dentro da minha casa (em São Paulo), com os meus empregados, dormiu na minha cama. Então, vou ser humilhada, massacrada e vou ficar quieta e não vou reivindicar? Não é justo. Preciso virar a página, escrever uma nova história. Quero ter a oportunidade de um recomeço assim como ele teve. Hoje ele é senador, tem mulher, tem duas filhas. Está usufruindo de tudo aquilo que a gente adquiriu durante os 22 anos.

Ainda guarda rancor de tudo o que aconteceu?

Não acredito que ninguém construa nada na vida destruindo quem quer que seja, mas Deus disse: “Vai, que eu te ajudarei”. Esse livro foi uma oportunidade de contar a minha história, de uma mulher que se apaixonou e viveu esse sonho e pagou um preço. Tentei me matar, tomei vários remédios. Não aguentava mais. Não é ficção, não, é a realidade, tudo isso tenho como provar porque tenho o mais importante: força para lutar.

A senhora largou os rituais de magia negra e se converteu à igreja evangélica?

Simplesmente resgatei algo que sempre existiu dentro de mim. Nasci em um berço católico e, por uma etapa na minha vida, entrei nessa coisa de macumba. Quando voltei dos EUA para morar no Brasil, resolvi que não queria mais aquele tipo de coisa. Não me arrependo, foi a decisão mais importante que já tomei na minha vida.

Como eram os rituais?

A magia negra que fiz foi de mandar de volta o que de ruim mandavam para a gente. Mas nunca participei de rituais. Aquilo lá (rituais) que ele (Collor) fazia, para mim, era uma proteção. Nunca mandei fazer para prejudicar ninguém. Só fiquei sabendo dos rituais com fetos humanos depois que me separei. As filhas de santo dela (a mãe de santo Célia) abortavam aquelas crianças para entregar para o inimigo (rivais). Dizia: “Como você (a mãe de santo) teve coragem?”. E ela me disse que se arrependeu e pagou um preço por isso.

O que aconteceu para que a senhora se convertesse?

A mãe de santo pegou uns ossos do cemitério e levou para casa. Quando tentaram raspar, não conseguiram. Não sei como era feito. Ela decidiu devolver os ossos, e foi aí que ela aceitou Jesus. Ela disse que ouviu uma voz que disse: “Em ossos de crente você não toca. Esse aqui era um servo meu” e realmente ela ficou muito assustada e se converteu. Hoje é pastora, vive de forma simples. Um pai de santo me disse: “Se você deixar esse lado, vou destruir a sua vida, vou fazer com que você se separe do Fernando”, e aconteceu.

Como começou a história de vocês?

Quando eu tinha 15 anos, Fernando me disse: “Você é minha princesa, e vou me casar com você”. E eu disse: “Você é meu príncipe, e eu vou me casar com você”. Só que esse príncipe transformou em sapo. Aí eu disse que agora eu quero um sapo porque transforma-se em príncipe.

A senhora se arrepende de algo que não contou à época?

Tem coisas que estão comigo e que vão morrer comigo. Elas vão ficar para o resto da vida. Disse aos meus advogados que, se tivesse de conseguir algo nesta vida destruindo Fernando, não faria. Por mais que Fernando tenha me magoado, não guardo ódio dentro do coração. Demorou, mas Deus tirou o ódio. Esse sentimento é uma coisa muito ruim, só faz mal a mim mesma. Tanto é que você vê o exemplo de Pedro Collor, como ele morreu. Jamais vou retribuir a Fernando da mesma forma que ele fez comigo. (LA)

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