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ARTIGO DA SEMANA

Ubaldo no Leblon, Wagner na Defesa, Dilma na Base de Aratu

Vitor Hugo Soares

Quinta-feira, 25, feriado de Natal. Começo a ler “Noites Lebloninas”, o livro póstumo de João Ubaldo Ribeiro. Precioso presente recebido na véspera com afetuosa dedicatória de uma querida amiga de décadas de jornadas compartilhadas, embates intelectuais e políticos, paisagens diversas, mesas fartas, vinhos, cervejas a rodo, música e muitos carnavais: em Salvador, São Paulo, Paris, Londres, New York, Praga, Budapeste, Buenos Aires…

Mais recentemente, passadas as presidenciais de novembro, para esfriar a cabeça, dias memoráveis passados ao pé da vulcânica Cordilheira dos Andes, em Santiago do Chile a quatro graus centígrados em algumas noites. Apesar do frio, faíscas no ar em volta da mesa da calçada no bar na praça boêmia do bairro Las Condes, onde ainda se pode escutar a moça cantando “Te Recuerdo Amanda” e outras canções de amor e protesto de Victor Jara e Violeta Parra.

Na bem escrita e erudita apresentação do livro ,sob o título “As mil e uma noites de João Ubaldo”, o escritor Geraldo Carneiro fala sobre o singular bairro do Leblon. Segundo ele, uma invenção carioca recente, “cujo nome, como se sabe, é controverso”. E as hipóteses e dúvidas são expostas com conhecimento e graça, bem ao modo do filho ilustre da ilha de Itaparica contar suas histórias.

Prefiro não me meter neste pedaço da polêmica. Afinal, sou baiano da beira do Rio São Francisco, removido há anos para as franjas da Baía de Todos os Santos, a poucos quilômetros da ilha onde nasceu o filho de Manoel Ribeiro, meu saudoso professor de Filosofia do Direito.

Na verdade, eu bem poderia ser incluído no rol do tamanho do Brasil dos adoradores intelectuais do fabuloso enclave urbano do Rio de Janeiro. Frequentador bissexto do Bar Clipper e apreciador dos desfiles da incrível fauna humana que circula noite e dia pela Avenida Ataulfo de Paiva. Praia não vou mais (do Leblon ou outra qualquer) por proibição da dermatologista.

“Noites lebloninas” é ficção. O apresentador explica que ficção, como todos sabem, depende da suspensão da descrença. “Mas não há suspensão da descrença que resista caso não haja entre o leitor e o texto o pacto da verossimilhança”. Para celebrar este pacto em Noites Lebloninas, depois de muito meditar, Ubaldo construiu seu narrador. Ele é o porteiro de um edifício de alta classe média, nascido na Bahia, mas morador do Leblon há muitos anos, como o próprio Ubaldo.

Geraldo Carneiro assinala que a dupla identidade garante a verossimilhança de sua fala aqui, “no Rio de Janeiro, que é minha segunda pátria e hoje posso dizer que sou um carioca e quem me vê assim me toma por carioca, isto aqui é minha casa, não saio daqui nem deportado”.

Paro aqui e mais não digo sobre o livro que ora devoro, para não virar um daqueles chatos estraga prazeres que vibram ao contar o final das histórias de ficção científica, romances policiais ou filmes de suspense. Fecho o exemplar por alguns momentos, mas o espírito luminoso e incandescente do filho mais célebre da famosa ilha baiana parece seguir sobrevoando em volta de mim e de “cidade de todos os santos e de quase todos o pecados” (na expressão perfeita do jornalista e cronista Nelson Gallo), de onde escrevo estas linha de final de 2014. Que, a exemplo do simbólico 1968, parece decidido a não terminar.

Acompanho pelas emissoras de rádio, TVs, sites e blogs locais, que a reeleita presidente da República, Dilma Rousseff, acompanhada de seis familiares, desembarca na capital baiana no começo da tarde do feriado do Natal. Chegou para mais uma temporada de “descanso de fim de ano, antes da posse em seu segundo mandato”. Está hospedada mais uma vez no pedaço de paraíso público privado da Praia de Inema, enclave de luxo na ultra-vigiada Base Naval da Baía de Aratu.

Com segurança provavelmente redobrada: governador da Bahia em sua última semana de mando no Palácio de Ondina, o petista Jaques Wagner, que recepcionou Dilma na chegada à Base Aérea de Salvador, acaba de ser nomeado ministro da Defesa pela visitante mandatária. Isso depois de um tampo de suspense relativamente largo e de muitas especulações, que diminuíram, mas não cessaram de todo. Até viraram ultimamente motivo de galhofa para oposição no estado.

Afinal, no período de espera, o coordenador vitorioso da campanha de reeleição de Dilma no Nordeste, que de quebra ainda elegeu no primeiro turno seu sucessor no governo do estado (considerado até por alguns aliados pouco mais que um poste) foi apontado como “Pule de 10” para quase tudo no primeiro escalão do segundo governo da petista hospedada em Aratu: Presidente da Petrobras, ministro da Fazenda, da Casa Civil, dos Transportes, das Comunicações…

Mas o ex-sindicalista pouco apreciado pelos militares nos tempos de lutas contra a ditadura, da fundação do PT e das greves no Polo Petroquímico de Camaçari, foi parar na Defesa. No jornal A Tarde, em exclusiva conversa com o repórter Biaggio Talento, Wagner desabafa ao tempo em que faz revelações, à guisa de explicações. Sobre a “novela do ministério”, resume:

“Na verdade, o primeiro a sugerir (o Ministério da Defesa) para ela (presidente Dilma Rousseff) fui eu. Primeiro tenho uma relação boa com eles (militares). Estudei no Colégio Militar do Rio de Janeiro e até iria seguir carreira, mas depois daqueles episódios todos de 1968, acabei não indo. Acho que os militares são extremamente importantes. Na carreira de Estado, as mais perenes são eles e o Itamaraty (diplomatas)”.

O escritor e polemista de mão cheia, João Ubaldo Ribeiro, depois de Antonio Carlos Magalhães foi provavelmente o maior adversário que Jaques Wagner já enfrentou desde que anunciou a faraônica ideia de construir uma ponte sobre a Baía de Todos os Santos, ligando Salvador a Itaparica (sonho de dez em cada dez empreiteiros) , deve estar soltando sua inimitável gargalhada na dimensão em que estiver agora. E, provavelmente, tão curioso quantos os viventes da Bahia, Rio de Janeiro e Brasília, para saber onde esta história vai dar.

Reabro “Noites lebloninas” para ler Ubaldo com saudades. Feliz Ano Novo a todos.

Vitor Hugo Soares, jornalista, é editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luís augusto on 27 dezembro, 2014 at 8:43 #

Seja eu o primeiro a saudar o autor pela beleza do texto, no qual destaco não apenas “o paraíso público privado” de Inema, como também a condição dos “adoradores intelectuais”.

Caetano perguntou “quem lê tanta notícia”. Eu digo que é você, em “rádios, TVs, sites e blogs”. Isso faz a amplitude dos seus comentários.

Abraços, e parabéns a Margarida, que é do mesmo dia de Vera, minha irmã mais velha.


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