“O Mundo de Mafalda”:exposição em São Paulo
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Tóffoli e Dilma: diplomação em Brasília

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ARTIGO DA SEMANA

Mafalda no Brasil: Visita na hora certa

Vitor Hugo Soares

Preciso reservar umas noites, nos próximos dias, para tentar conseguir “acessar” (é o novo jargão da moda digital) passagens do tipo “bate e volta” Salvador/São Paulo/Salvador. São “pechinchas” oferecidas via Internet , praticamente só possíveis de adquirir em horas mortas da madrugada. Principalmente para alguém – a exemplo do autor destas linhas – de ralo conhecimento específico e precárias habilidades no manuseio dos teclados e da pesca ágil e certeira nos sites especializados em vendas de bilhetes das empresas aéreas e afins.

O motivo do sacrifício é justo e de fortíssimo apelo pessoal – sentimental e politicamente falando. Para mim e Margarida, minha mulher. Leio no diário espanhol El Pais reportagem sobre a exposição “O Mundo Segundo Mafalda”, aberta esta semana em São Paulo. Vai até 18 de fevereiro do ano que está chegando.

Agradável notícia, no meio da geleia geral que as emissoras de rádio (sou viciado nelas, brasileiras e internacionais, desde a infância), TVs, blogs e jornais no Brasil anunciam nestes dias temerários de estranhas transações, fatos e boatos preocupantes deste incomparável final de 2014 que atravessamos, aos trancos e barrancos.

Tudo sem falar em situações insólitas e inesperadas (se isso ainda é possível por estas bandas dos trópicos). Visceralmente contaminadas pelo intuito servil, apressado e evidente de agradar aos poderosos da vez. Na solenidade de diplomação da presidente eleita Dilma Rousseff (PT), e seu vice Michel Temer (PMDB), quinta-feira, 18, por exemplo, em Brasília, tivemos o arrogante e estranho discurso político do ministro presidente do Superior Tribunal Eleitoral (TSE), Dias Tófolli.

Tóffoli discursou em seguida à fala da presidente já diplomada. Esta, eivada de retórica cor de anil , convocatória de militâncias partidárias para atuar na contra corrente da indignação da sociedade frente aos desmandos de corruptos e malfeitores – públicos e privados – na Petrobras, somada a precários apelos emocionais, além de proposta improvisada de “pacto nacional contra a corrupção”.

O condutor da justiça eleitoral brasileira completou a cena no salão, com palco e plateia lotados de cabeças coroadas da República e do poder da vez: chefes militares, juristas do Supremo (a começar pelo presidente da Corte, Ricardo Lewandowski, que parece candidato a arroz de festa do ano), advogados notáveis, nomes de políticos de proa, empresários e a alta hierarquia da burocracia nacional.

Cenário mais que perfeito para Tóffoli destrinchar seu notório e paupérrimo arrazoado verbal.

“As eleições (presidenciais deste ano) são “página virada”, começou. E foi em frente: “Não haverá terceiro turno na Justiça Eleitoral”, aduziu. E concluiu: “Não haverá espaço. Que os especuladores se calem. Já conversei com a Corte e é esta, inclusive, a posição do nosso corregedor geral eleitoral. Não há espaço para terceiro turno que possa cassar os votos desses 54. 501.118 eleitores (que elegeram Dilma)”, arrematou bombástico.

Nem o ex-presidente Lula, chefe maior do petismo, nem qualquer marqueteiro do Palácio do Planalto, ou o deputado Maia, relator da CPI da Petrobras no Congresso, teriam feito melhor. Fecham-se as cortinas, porque o resto do espetáculo é impróprio para menores de 18 anos.

Aos 50 anos, Mafalda, a eterna garotinha-cabeça de Buenos Aires, criada em 1964 pelo cartunista argentino Joaquim Salvador Lavado, o Quino, está finalmente no Brasil, depois de percorrer meio mundo, onde preserva força e prestigio por seu espírito crítico e incrível atualidade (há anos as tirinhas deixaram de ser produzidas pelo criador).

A fabulosa niña portenha, – das tirinhas de cartuns que viraram coqueluche e conquistaram milhões de corações e mentes (a começar por este jornalista), no começo dos anos 70, quando estive pela primeira vez na Argentina, enquanto o Brasil enfrentava a ferocidade do ditador Garrastazu Médici – não poderia ter escolhido um momento melhor para visitar a terra da Mônica.

Na abertura da reportagem do jornal espanhol, sobre a exposição inaugurada na capital paulista, assinada por Flávia Marreiro, a descrição de uma das tirinhas antológicas de Quino: Com um espanador na mão Mafalda pergunta , diante de um globo terrestre: “É para limpar todos os países ou só os mal governados?”.

Vou correndo batalhar a passagem Salvador/São Paulo/Salvador, referida no começo deste artigo, para rever Mafalda. Se não der, penso numa viagem a Buenos Aires, em fevereiro, durante o carnaval, para matar a saudade duplamente: da cidade e de sua garota-símbolo. Vou com Margarida, não sem motivo apelidada de Mafalda pelo jornalista Chico Ribeiro, desde a primeira vez, nos anos 70/80 em que pintou na redação de A Tarde, onde trabalhava, vestida em uma crítica camiseta com desenho inspirado nas tiras da garota portenha, comprada em Corrientes.

Feliz Natal a todos.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 20 dezembro, 2014 at 9:52 #

– Nem tudo que dela surge merece respeito.

Essa frase, triste, pôde ser ouvida na esquina da Avenida Sampaio Vidal com a Rio Branco, bem em frente ao Paço Municipal.

Marília, que não é mar, que não é ilha, tem esse karma. Tóffoli é mariliense. Comprova-se assim que acidentes acontecem, até mesmo a “Cidade Moça”, produz equívocos.

Da bravata togada resta apenas um efeito, deu-se por impedido para julgar algum eventual questionamento, não poderia, como magistrado, antecipar juízos. Deixou-se levar pela gratidão infinda, própria dos que alcançaram o que não fez por merecer.

Tóffoli passará a vida, curvado em agradecimento, torturando, a cada fala, a toga não merecida.

– Nem tudo que dela surge, merece respeito.

Pouco adiante, na esquina da Sampaio Vidal com a 9 de julho, o vento sempre constante, renova o ar, nos faz esquecer o cheiro da subserviência.

Tim Tim!


luís augusto on 21 dezembro, 2014 at 8:34 #

Lembro do dia em que Mafalda leva a sua casa a amiguinha Libertad. E os pais: “Olhe, como está magrinha…”, “olhe, como ela está maltratada…”

E Mafalda: “Chega! Eu trouxe uma amiga, não um panfleto”.


vitor on 21 dezembro, 2014 at 12:37 #

He he he. Maravilha de lembrança, Luis. Maravilha! Só vc e seu bom humor amarrado em texto imbatível e enxuto para me fazer rir tanto ao despertar neste primeiro domingo de verão no ano das nossas desesperanças.


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