Bambuzal do aeroporto de Salvador:nem tudo se acabou
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CRÔNICA

O velho do rio na velha Bahia

Janio Ferreira Soares

O avião (que não é o de Noé, do livro de Vita) pousou no Dois de Julho no começo da tarde de segunda-feira, 8 de dezembro, feriado de Nossa Senhora da Conceição da Praia e, enquanto taxiava, alguns quero-queros saltitavam tranquilamente nas bordas da pista, nem aí para turbinas em aceleração de subida ou reversos em procedimento de descida.

Num cálculo rápido estimo que eles pertençam a 6ª ou 7ª geração dos bandos que eu via no final dos 70, começo dos 80, quando o 737 da Varig chegava de Paulo Afonso com este que vos tecla a bordo, à época – ô saudades -, totalmente turbinado e com os flaps abertos para experimentar o variadíssimo cardápio de cores, sons e sabores que só a Bahia era capaz de proporcionar. Déjà vu total.

Ao entrar no charmoso túnel de bambus vergados me pego fazendo contas de há quanto tempo não visito a velha capital. “Um bom bocado de anos”, se antecipa aos cansados neurônios um impaciente botão de minha surrada camisa.

Dou trela ao sabichão e pergunto se ele também lembra os motivos dessa minha longa ausência, e agora é o do colarinho que lhe passa a perna e me sussurra que em poucos minutos as respostas surgirão enfileiradas na avenida, igual às pedrinhas deixadas por João e Maria para não se perderem no caminho de volta pra casa. Na mosca.

Assim que eu entro na Paralela algumas causas do meu consentido exílio começam a explodir em dezenas de outdoors.

De cara vários deles me avisam que neste dezembro em fase finda, baianos e turistas terão à disposição uma diversificada programação cultural, cujo menu é composto de: “A Sexta da Gatinha”, com o Parangolé; “Chupa Cabra Fest”, com Aviões, Pablo e Luxúria; “Bailão do Belo”, com o próprio, mais Robyssão e Senty o Drama, além de vários ensaios com o É o Tchan, Psirico, Léo Santanna e que tais. Assustado, desligo o celular, aperto o cinto e mapeio o caminho de volta.

Mais tarde vou comer algo num Shopping e paro diante de um coral cantando músicas pop em ritmo natalino. A plateia, em sua maioria, parece gostar do que vê, embora, no fundo, tenha no semblante a urgência da levada de Bell e Cia. Nada contra, pelo amor de Deus; apenas sou de um tempo em que o chiclete que me seduzia era o delicioso Ping Pong.

No dia seguinte, depois dos compromissos agendados, penso em ligar para velhos e queridos amigos que há muito não vejo – e para alguns novos que eu só conheço através de e-mails -, mas, sei lá, prefiro não incomodá-los com essa minha insistente pressa em encontrar as pedrinhas que me levarão de volta ao bambuzal – hoje, quem diria, portal da minha alegre partida.

A todos minhas desculpas e prometo que um dia irei visitá-los com o coração completamente vazio de expectativas passadas e com a mente, se não aberta às sofrências da hora, pelo menos preparada para, como escreveu o diretor de teatro Fernando Guerreiro na orelha do livro de Jolivaldo Freitas, Histórias da Bahia, suportar “… uma marafona velha e grotesca arrotando pragas e desatinos com os dentes sujos de caranguejos comidos em enormes salões barulhentos, onde todos tentam buscar uma felicidade perdida nos alicates e papos sem graça”. Feliz Natal, e que os santos protejam o luminoso mar da Bahia.

Janio Ferreira Soares , cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

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Comentários

luís augusto on 21 dezembro, 2014 at 8:32 #

Caro Jânio, sua angústia (será isso?) com os outdoors é totalmente procedente e partilhada por muitos.

O teor da cultura imposta à nossa juventude, e até à velhitude, é de esfaquear a esperança.

Resta aguardar que possamos suturá-la um dia e reduzir a sangria.


vitor on 21 dezembro, 2014 at 12:31 #

Isso mesmo, Luis. Na mosca!. Mas nada disso desculpa o “velho do rio”ao deixar seu exílio voluntário na beira da cachoeira e ao pé do Raso da Catarina , visitar a soterópolis e não fazer uma ligação para os amigos. Nem para o Solar Itaigara (redação do BP que ele abrilhanta com a sua sempre aguardada colaboração). Garanto que Margarida teria preparado um belo escaldado de maxixe, à moda de Irecê, com cerveja gelada “caindo lágrimas, como vc pedia a Naná, para a gente beber , comer e estimular lembranças dos melhores tempos de Salvador e das farras na beira do sagrado Rio São Francisco. Janio fica devendo esta!.


Janio on 21 dezembro, 2014 at 21:41 #

Vitor, meu querido mestre, se avexe não. Qualquer dia irei aí desarmado das roupas e das armas de Jorge, para que nossos inimigos não nos vejam e nem nos alcancem. (Será que Claudinho é da Capadócia?). Luiz Augusto, abração.


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