O procurador Dallagnol apresenta detalhes do esquema.
/ STRINGER/BRAZIL (REUTERS)

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DEU NO DIÁRIO ESPANHOL EL PAIS (EDIÇÃO DO BRASIL)

A Procuradoria Geral da República denunciou 35 pessoas por corrupção, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro como parte da chamada Operação Lava Jato, em mais um passo de um processo longo e complexo relativo à corrupção na Petrobras – e que não para de crescer, à medida que surgem novos depoimentos e são revelados documentos apreendidos junto com delatores. Dos 35 denunciados, 22 trabalham para grandes empreiteiras brasileiras: OAS, Camargo Corrêa, UTC, Mendes Júnior, Engevix e Galvão Engenharia. A PGR, além disso, propõe que as seis empresas sejam condenadas a pagar uma indenização que supera 1 bilhão de reais pelo dinheiro desviado em subornos.

“Trata-se de um imenso esquema de corrupção, no qual eram pagos subornos de 1% a 5% do valor de cada contrato bilionário com a Petrobras”, afirmou em entrevista coletiva o procurador Deltan Dallagnol, segundo quem o esquema de lavagem de dinheiro teve seu apogeu entre 2004 e 2012, “continuando, no entanto, até 2014”. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, também presente na entrevista coletiva realizada em Curitiba, cidade-sede das investigações, declarou que os acusados “roubaram o orgulho dos brasileiros”. “Isso é apenas o começo de uma investigação. Uma fase a mais […]. A complexidade dos fatos nos leva a intuir a dimensão desta investigação”, afirmou, após prometer que “vamos nos portar de forma serena, mas firme e contundente. Cada pessoa responderá por seus atos”.

Nesta etapa foram denunciados 105 atos de lavagem de dinheiro, num valor de 75 milhões de reais, e 154 atos de corrupção, envolvendo 286 milhões. É apenas a ponta do iceberg, segundo fontes da Polícia Federal. À medida que vão sendo revelados documentos entregues por participantes do programa de delação premiada, aparecem novas conexões e obras executadas inclusive em outros países latino-americanos: dezenas de empresas fictícias que simulavam operações comerciais para justificar subornos e doações ilegais a partidos políticos. “Funcionavam como se fosse um campeonato de futebol, ou um bingo, embora, nesse caso, o jogo fosse de cartas marcadas, onde se sabia quem ganhava cada licitação”, disse Dallagnol em referência ao clube de grandes empresas que dividiam entre si as obras da Petrobras – um esquema descoberto graças às delações premiadas de dois diretores da empreiteira Toyo-Setal, do doleiro Alberto Youssef e do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa. Youssef e Costa também estão entre os denunciados à Justiça.
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Dallagnol destacou que as próprias empresas investigadas (algumas das maiores do país, que acumulam contratos com de dezenas de bilhões de reais com a Petrobras) estão envolvidas em outras obras públicas, e que a única forma de impedi-las de corromper é mantendo a prisão preventiva dos executivos. Muitos deles são acusados de mais de um delito: a pena individual por um só crime de lavagem de dinheiro ou formação de quadrilha varia de 10 a 20 anos. “O conjunto de funcionários da Petrobras corrompidos constitui o segundo núcleo desse gigantesco esquema criminal”, advertiu o procurador.

Já se passou quase um mês desde 14 de novembro, dia da Operação Juízo Final, quando o Brasil acordou com a notícia de que a Polícia Federal havia detido 23 altos executivos de grandes empreiteiras, na sétima fase da Operação Lava Jato. Nos próximos dias iria se esgotar o prazo para a denúncia à Justiça, sobretudo levando-se em conta o início das férias dos tribunais, no próximo dia 20.

As autoridades afirmam que a quantia total desviada pode alcançar os 10 bilhões de reais. Pelo ritmo das revelações, poucos atualmente duvidam das palavras expressas pela própria presidenta Dilma Rousseff em 16 de novembro: “Este caso pode mudar o Brasil para sempre”.

Depois desta esperada onda de denúncias à Justiça, espera-se que a PGR faça o mesmo com os ocupantes de cargos políticos protegidos por foro privilegiado, a serem julgados pelo Supremo Tribunal Federal, em Brasília. “Temos os que pagaram, faltam os que receberam”, dizia há alguns dias a este jornal um responsável pela investigação, em referência à ausência de deputados e senadores entre os denunciados. O relatório final da polêmica CPI do caso Petrobras, apresentado esta semana, não estabelecia acusação alguma, limitando-se a sugerir pessoas que deveriam ser investigadas. Destaca-se a absoluta ausência de políticos na lista da CPI. Além disso, o relatório recomenda alterar a lei de contratos com empresas estatais.

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