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Postado em 10-12-2014
Arquivado em (Artigos) por vitor em 10-12-2014 01:28

DEU NO BL0G POR ESCRITO

OPINIÃO
Devagar com o andor

Luis Augusto Gomes

A agonia do chamado “ciclo das festas populares de Salvador” é um fenômeno a ser estudado, diante da quase extinção de algo que, no passado, era anunciado com estardalhaço pela imprensa, com cobertura ao vivo das emissoras de rádio e TV.

Começava com a festa de Santa Bárbara e ia até o Carnaval, em três meses de intensa atividade festiva, lúdica e musical. Não havia somente o “dia principal”, os dias anteriores eram repletos de alegria e participação, um atrativo turístico portentoso que teve a cidade na época.

De cabeça, podem ser citadas ainda Conceição – cujo dia transcorreu anteontem (9) –, Bonfim, Boa Viagem, Ribeira, Lapinha, Santa Luzia, Rio Vermelho. De ponta a ponta, simpáticas barracas de comida e bebida, cada uma com programação visual própria, caprichosamente pintada pelos donos e agregados.

Festas que começaram apenas religiosas, mas pouco a pouco foram tomadas pelo profano, especialmente a partir da década de 60, quando passaram a ser um prolongado point de verão da juventude, afinal de contas um tipo de reunião permitida no regime militar, na qual se podia amar, beber, cantar e ainda discutir política.

Vivíamos a era da censura, quando o mundo experimentava as mais radicais mudanças propiciadas pelo salto gigantesco da ciência. O progresso da comunicação e do transporte encurtava distâncias, a revolução sexual nascia da pílula e a humanidade entendia, com a corrida espacial, que havia um universo a explorar.

O sonho de liberdade e democracia com a vitória dos “aliados” na Segunda Guerra havia sido frustrado pela Guerra Fria, e à juventude, com seus anseios e utopias, etariamente destinada a mover a história, coube reagir em todo o planeta. Em Salvador – por que não? –, as também chamadas “festas de largo” foram uma dessas manifestações.

O puritanismo exacerbado que vingava na sociedade, em que o palavrão era absolutamente banido das camadas de “melhor formação”, “bem educadas”, ruía em cada bairro onde se realizava a festa pelo canto contínuo das multidões dos mais grosseiros refrões pornográficos.

As mulheres, as grandes alforriadas daquele período difícil, em que uma desquitada era considerada moralmente uma prostituta, aproveitaram bastante – da exposição pública do desejo à providência indispensável de, sob certa proteção, urinar em qualquer lugar. Tá certo que não era grande coisa, mas era o que havia.

Hoje se lamenta a decadência das festas, mas não há por quê. As manifestações culturais descrevem sua trajetória e, a depender da profundidade das raízes, a curva poderá ser definitivamente descendente, pelo menos nos moldes em que as conhecemos no passado recente.

Mas todas brotaram da semente da fé. Mesmo desprovidas da grandiosidade que chegaram a ostentar, possivelmente não perderão jamais aquela pequena minoria de fiéis que, já na origem, séculos atrás, garantiam as oferendas e o carrego do andor.

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