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Postado em 06-12-2014
Arquivado em (Artigos) por vitor em 06-12-2014 01:03


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DO DIÁRIO ESPANHOL EL PAIS (EDIÇÃO DO BRASIL)

Se contassem a um portenho que já não chove tanto em Buenos Aires por causa do desmatamento na Amazônia, ele diria que tal afirmação é uma loucura. Mas se surpreenderia ao se inteirar de que 19% das chuvas que caem anualmente na bacia da Prata, se originam da umidade gerada pela floresta amazônica e dispersada rumo ao sul. A situação é tanto incrível como alarmante: a Amazônia é um dos fatores fundamentais que regula o clima da região e está gravemente ameaçada pelas atividades humanas.

Imaginar como era há 50 milhões de anos é quase impossível. É um período 1.000 vezes maior do que o correspondente à história da humanidade no planeta. Esse foi o tempo que a Amazônia demorou para se formar. No entanto, em apenas meio século o homem devastou quase 20% dela (provavelmente muito mais de um milhão de quilômetros quadrados de floresta, afetando também rios e outros ecossistemas).

A floresta amazônica é tão extensa que se juntássemos os 28 países que fazem parte da União Europeia o espaço obtido corresponderia a apenas 64% desse bioma

Este dado é devastador. Para que seja mais simples visualizá-lo, pensem que só no Brasil cortaram 2.000 árvores por minuto durante 40 anos. Como explicaria graficamente o cientista Antonio Donato Nobre, esse terreno desmatado equivale a uma estrada de 2 quilômetros de largura construída da Terra até a lua. Mas isto também pode ser difícil de dimensionar. O problema da imensidade da Amazônia é que achamos que ela é inesgotável. E não é. Infelizmente.

A floresta amazônica, com seus rios e diversidade, é tão grande que se juntássemos os 28 países que fazem parte da União Europeia, o espaço obtido seria equivalente a penas 64% do território amazônico que é de 6,7 milhões de quilômetros quadrados. Esse conjunto de ecossistemas, mega diverso, dominado por florestas, se estende por nove países e nele vivem mais de 33 milhões de pessoas. Existem cerca de 350 comunidades indígenas, das quais em torno de 60 vivem em isolamento voluntário há séculos, para fugir das ameaças.
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A Amazônia abriga, provavelmente, mais de 10% da biodiversidade conhecida pelo homem e desemboca no mar quase 15% da produção de água doce do planeta. É a fonte principal de segurança hídrica, alimentícia e energética da América Latina, além de ser fundamental para garantir a saúde da região.

Apesar de tanta riqueza, a Amazônia enfrenta grandes pressões: estradas, pecuária, especulação imobiliária e ocupação ilegal, represas de hidrelétricas, plantações de soja, de palma, mineração, exploração petrolífera, tráfico de madeira e contaminação, só para nomear algumas. E para rematar, a mudança climática, o maior desafio ambiental de nossa história, intensifica as consequências das demais pressões.

Para o bem do mundo, conservar a Amazônia pode ser um ás na manga para reduzir o aquecimento da Terra e, mais ainda, para amenizar os impactos desse aumento de temperatura na América do Sul. É a região natural ideal para evitar ou reduzir as emissões de carbono mais rapidamente e de forma mais benéfica em termos globais. Graças a seu tamanho, sua estrutura ecológica e sua localização geográfica entre a Linha do Equador, a cordilheira dos Andes e o oceano Atlântico, cumpre uma função de reguladora do clima. É uma fábrica de produção hídrica: bombeia cerca de 20 bilhões de toneladas de água por dia, a melhor receita para enfrentar as secas.

Mas se floresta continuar a ser destruída, aumentarão as emissões de carbono (quando uma árvore é cortada o carbono que ela capturou durante toda a sua vida é liberado) e não haverá como fazer contrapeso às secas e a outros eventos climáticos mais intensos previstos pelo aquecimento global.

A combinação será devastadora e os países amazônicos, e toda a região, terão que enfrentar as consequências. Não se deve levar em conta apenas o quanto se devasta anualmente, mas o desmatamento agregado ao longo dos anos e os lugares onde a floresta está tão degradada que já não cumpre suas funções naturais. Já que a Amazônia funciona como uma região ecologicamente integrada, entre florestas, rios e atmosfera, sua degradação degenera os processos ecológicos e ela pode, não só deixar de ser benéfica para o clima continental e global, como também se tornar um problema. Não choverá como antes na bacia da Prata.

Mas há tempo para puxar o freio de mão e mudar de rumo. Podemos construir um modelo de desenvolvimento que entenda a conservação como uma oportunidade e não como um obstáculo. Precisamos fazer com que os países compreendam que as florestas e os rios amazônicos têm uma relação direta com a segurança climática.

Durante estas duas semanas o vento sopra a favor do complexo de florestas e rios mais importante do mundo. Ou, melhor, a favor da humanidade, que depende dela, de seus serviços, dos benefícios que rende. Este ano, se realiza, pela primeira vez, a Cúpula de Mudança Climática das Nações Unidas em um país amazônico. E embora as negociações sobre o clima sigam seu rumo independentemente de onde o evento ocorra, esse é o momento ideal para incluir a agenda amazônica nas negociações do clima. É o momento de os nove países que compartilham este ecossistema demonstrarem liderança e integração.

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