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Tabaré Vazquez e Pepe Mujica:exemplares

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ARTIGO DA SEMANA

BRASÍLIA-MONTEVIDEU: VERGONHA E EXEMPLOS

Vitor Hugo Soares

Com a atenção dividida e sentimentos opostos acompanho fatos marcantes da semana no Brasil e no vizinho Uruguai. No segundo caso, um lugar de afeto, admiração e acolhimento no coração do jornalista, que só aumenta desde as primeiras e repetidas visitas nos anos de ditadura. Primeiro aqui, depois lá, quando a Operação Condor rondava o continente inteiro.

Aqui, nestes dias insanos de dezembro, as galerias fechadas e as pessoas que protestam cercadas pela polícia. Ameaçadas ou achincalhadas por parlamentares governistas na madrugada de barganhas e vergonha em Brasília.

No Congresso, sob o comando do senador Renan Calheiros e seus seguidores amestrados pelo Palácio do Planalto, com promessas generosas de grana e favores, às custas do aparentemente inesgotável “tesouro da viúva”, o “esforço” para aprovar o projeto que altera a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e, em cima do laço, livrar a presidente Dilma Rousseff (PT) de cumprir as metas fiscais para este ano e das penas da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Em Montevideu, na beira do Rio da Prata, vejo imagens bem diferentes que percorrem o planeta. A livre e democrática explosão de alegria popular, festa nas ruas na comemoração da vitória do médico oncologista, Tabaré Vazquez, de 74 anos. Ele acaba de vencer o segundo turno das presidenciais. Retorna ao cargo que ocupou entre 2005 e 2010, sem direito a reeleição.

Estive em Montevideo durante seu mandato e, agora, de longe, celebro com os uruguaios a volta ao palácio presidencial deste cientista sério e rigoroso. Ao mesmo tempo, gestor competente, inflexível nas questões éticas, de princípios, avesso a corruptos e corruptores, que não rouba nem deixa roubar.

Vasquez jamais abriu mão do consultório e das importantes pesquisas médicas que realiza (uma promessa em memória dos pais que morreram de câncer). Inimigo mais severo do cigarro e do tabaco (mal ou bem comparando) que o ex-governador de São Paulo e ex-ministro da Saúde, Jose Serra, tucano que acaba de ser eleito senador, com votação consagradora em seu Estado.

Com quase 54% dos votos de frente sobre o adversário conservador do Partido Nacional, Luis Lacalle Pou, o candidato da Frente Ampla de esquerda, sem reeleição (“a mãe de todas as corrupções”, segundo sentença do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa), Tabaré Vasquez retorna ao cargo que entregou ao seu correligionário José Mujica. Este, por sua vez, deixa a cadeira presidencial e retorna ao Senado de seu país, consagrado como o melhor gestor e mandatário da América Latina e um dos políticos mais acatados e populares do mundo.

O presidente que está de saída no país vizinho confessou, em entrevista ao diário espanhol El Pais, um dos poucos prazeres que pretende concretizar depois de terminar seu mandato em março do ano que vem: visitar a cidade basca de Muxica, na Espanha, de quase 1.500 habitantes, de onde partiu o seu bisavô rumo ao Uruguai no século XIX.

A vitória de Vasquez marca o fim do mandato de Mujica mas, seguramente, não de sua presença exponencial na política de seu país e do continente. No Brasil, por exemplo, o ex-presidente Lula provavelmente jamais imaginou que surgisse, tão cedo, no cenário da América Latina, um político capaz de superá-lo em prestígio e atenção e até de ofuscá-lo em termos de espaço no noticiário internacional.

Que grandes exemplos nos chegam, trazidos pela brisa do Rio da Prata, para os que gostam e acatam lições positivas: nos governos, na política, no poder e na vida.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta

E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

LUIZ GONZAGA DO PENEDO on 6 dezembro, 2014 at 7:00 #

Grande Hugo: como vc. tenho enorme fascínio pelo Uruguai e gostaria, um dia, de promover uma de suas idas até lá, juntos, para relembrarmos com alegria nossa viagem, em tempos idos, ao Penedo. Parabéns, mis uma vez, pelo brilhante comentário.


luís augusto on 6 dezembro, 2014 at 7:25 #

Caro Vítor, sua comparação é tão mais pertinente quando olhamos o mapa-múndi e vemos o tamanho do Brasil, sobressaindo ao lado de outros países gigantescos, como Canadá, Estados Unidos, Rússia e Austrália, que, com restrições aqui e ali, nos dão outros exemplos.

Digo isso porque, pelas dimensões territoriais, é o Uruguai, como seu vizinho quase homônimo, o Paraguai, deveria ser suscetível à implantação de uma republiqueta do nível a que o Brasil, lamentavelmente, chegou.


Graça Azevedo on 6 dezembro, 2014 at 20:10 #

Uruguai exemplo de ética, justiça social e democracia. É para lá que eu quero ir.
Fui conhecer e me apaixonei. Quero ser moradora!


Chico Bruno on 7 dezembro, 2014 at 15:01 #

Só quem é ruim da cabeça e doente do pé não gosta do Uruguai.


Douglas Dourado Cardoso on 7 dezembro, 2014 at 16:56 #

Montevidéu e Penedo, pedaços imbatíveis da memória, do conhecimento e do coração. Grande lembrança, Luiz Gonzaga!
Chico Bruno, vc tem razão.
Graça Azevedo: bela escolha!!!

Vitor


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