Samba do cronista doido

Janio Ferreira Soares

São quase cinco horas da manhã de sexta-feira e sigo sem encontrar o mote perfeito para desenvolver este artigo, já que o malandro insiste em se manter entocado no meio da neblina que vez ou outra cisma em embaçar o lado fecundo do meu velho quengo. Pois muito bem.

Diante dessa malemolência criativa causada, creio, pelos exageros cometidos nos anos em que o trem da dona felicidade vivia batendo na minha porta – cheio de ioiôs, colares, cocares, miçangas, tangas e outras cositas mais -, dou um tempo na busca às insubordinadas palavras, ligo o rádio e uma velha canção dos Beatles me faz lembrar de um personagem de Big Jato, livro de Xico Sá, que viaja pelo sertão do Cariri na boleia de um caminhão limpa-fossa assoviando Hey Jude, Yesterday e afins.

“Pronto!”, penso alto e vibro com o achado. Graças ao título do livro de Xico e as substâncias malcheirosas transportadas nas carrocerias dos assuntos em questão, acho que o santo protetor dos cronistas quer que este velho do São Francisco fale algo sobre a Operação Lava-Jato, mas vou logo adiantando: não conseguirei dissertá-la a contento.

É que no exato momento em que eu ia começar o mantra da fácil indignação e da tola esperança de que tudo isso poderia muito bem embarcar nas asas de uma Panair imaginária e tomar o mesmo rumo do ocorrido nas campanhas da Itália, vejo que o loteamento dos ministérios entre os partidos da base continua a todo vapor e que as velhas raposas de sempre – no momento espertamente pisando em ovos sem quebrá-los nem comê-los – já estão fazendo escovas progressivas nas vastas caudas implantadas por um conceituado cirurgião capilar pernambucano, esperando apenas a hora de novamente cair de boca nos galinheiros que nunca secam, para depois saírem comemorando com os rabos cheios de cachaça e gel.

Sendo assim, chego à conclusão de que o melhor a fazer é não trocar o Paul de Liverpool (que, por sinal, continua mandando ver nas ondas curtas do meu velho Transglobe, numa perfeita sintonia com uns sanhaços que no momento trinam nos galhos de um ipê amarelo divulgando o nascer do dia) pelo Paulo da delação. “Good decision, old man the river”, acredito ter ouvido Lennon dizer no rádio.

Mais relaxado pela proximidade dos toques finais, desisto da fracassada tentativa de fisgar o mote pela cauda da cedilha – a esta altura, diga-se, sem a mínima importância para o desfecho da canção – e sigo em direção ao cheiro de café do cerrado mineiro, que neste exato instante atiça meu olfato de tal modo que minhas papilas estão completamente rasas d’água, como os olhos de Waldick ao enviar a sua famosa carta àquela ingrata que destroçou seu coração.

Pra concluir este samba do cronista doido, em tempos de patatis, patatás e galinhas pintadinhas, quero agradecer de coração a Chaves pelas horas e horas em que meus filhos ficaram na frente da TV se divertindo com suas deliciosas ingenuidades, até que o sono chegasse e os derrubasse feito pedrinhas do dominó mais lindo do mundo, permitindo que eu e sua mãe tivéssemos mais tempo para preparar um belo arroz de pato, sacar umas duas rolhas ou mais e, sem querer querendo, trocar olhares cúmplices de “isso, isso, isso!”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, no lado baiano do lado baiano do Rio São Francisco

Fiquem bem com a sambista baiana, enquanto parte da turma dos que pensam e fazem este site blog se desloca para um ponto qualquer do Litoral Norte de Salvador.Já mandamos gelar a cerveja. De lá, se e quando possível, mandaremos notícias e músicas.Até!!!

(Vitor, Margarida e Márcia)


Tabaré Vazquez e Pepe Mujica:exemplares

====================================


ARTIGO DA SEMANA

BRASÍLIA-MONTEVIDEU: VERGONHA E EXEMPLOS

Vitor Hugo Soares

Com a atenção dividida e sentimentos opostos acompanho fatos marcantes da semana no Brasil e no vizinho Uruguai. No segundo caso, um lugar de afeto, admiração e acolhimento no coração do jornalista, que só aumenta desde as primeiras e repetidas visitas nos anos de ditadura. Primeiro aqui, depois lá, quando a Operação Condor rondava o continente inteiro.

Aqui, nestes dias insanos de dezembro, as galerias fechadas e as pessoas que protestam cercadas pela polícia. Ameaçadas ou achincalhadas por parlamentares governistas na madrugada de barganhas e vergonha em Brasília.

No Congresso, sob o comando do senador Renan Calheiros e seus seguidores amestrados pelo Palácio do Planalto, com promessas generosas de grana e favores, às custas do aparentemente inesgotável “tesouro da viúva”, o “esforço” para aprovar o projeto que altera a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e, em cima do laço, livrar a presidente Dilma Rousseff (PT) de cumprir as metas fiscais para este ano e das penas da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Em Montevideu, na beira do Rio da Prata, vejo imagens bem diferentes que percorrem o planeta. A livre e democrática explosão de alegria popular, festa nas ruas na comemoração da vitória do médico oncologista, Tabaré Vazquez, de 74 anos. Ele acaba de vencer o segundo turno das presidenciais. Retorna ao cargo que ocupou entre 2005 e 2010, sem direito a reeleição.

Estive em Montevideo durante seu mandato e, agora, de longe, celebro com os uruguaios a volta ao palácio presidencial deste cientista sério e rigoroso. Ao mesmo tempo, gestor competente, inflexível nas questões éticas, de princípios, avesso a corruptos e corruptores, que não rouba nem deixa roubar.

Vasquez jamais abriu mão do consultório e das importantes pesquisas médicas que realiza (uma promessa em memória dos pais que morreram de câncer). Inimigo mais severo do cigarro e do tabaco (mal ou bem comparando) que o ex-governador de São Paulo e ex-ministro da Saúde, Jose Serra, tucano que acaba de ser eleito senador, com votação consagradora em seu Estado.

Com quase 54% dos votos de frente sobre o adversário conservador do Partido Nacional, Luis Lacalle Pou, o candidato da Frente Ampla de esquerda, sem reeleição (“a mãe de todas as corrupções”, segundo sentença do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa), Tabaré Vasquez retorna ao cargo que entregou ao seu correligionário José Mujica. Este, por sua vez, deixa a cadeira presidencial e retorna ao Senado de seu país, consagrado como o melhor gestor e mandatário da América Latina e um dos políticos mais acatados e populares do mundo.

O presidente que está de saída no país vizinho confessou, em entrevista ao diário espanhol El Pais, um dos poucos prazeres que pretende concretizar depois de terminar seu mandato em março do ano que vem: visitar a cidade basca de Muxica, na Espanha, de quase 1.500 habitantes, de onde partiu o seu bisavô rumo ao Uruguai no século XIX.

A vitória de Vasquez marca o fim do mandato de Mujica mas, seguramente, não de sua presença exponencial na política de seu país e do continente. No Brasil, por exemplo, o ex-presidente Lula provavelmente jamais imaginou que surgisse, tão cedo, no cenário da América Latina, um político capaz de superá-lo em prestígio e atenção e até de ofuscá-lo em termos de espaço no noticiário internacional.

Que grandes exemplos nos chegam, trazidos pela brisa do Rio da Prata, para os que gostam e acatam lições positivas: nos governos, na política, no poder e na vida.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta

E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


BOM DIA!!!

dez
06


O poeta de Fardão/O Globo

==================================

DEU NO UOL/FOLHA

Claudia Dias
Do UOL, no Rio

Aplaudido de pé por seus pares, familiares e amigos, Ferreira Gullar entrou na Tribuna da Academia Brasileira de Letras, precisamente às 21h de ontem, 5, dando início à cerimônia de sua posse na cadeira de nº 37, que foi anteriormente ocupada pelo também poeta Ivan Junqueira.

Em seu discurso, além de agradecer a presença de toda a família – “apenas as bisnetas não estâo aqui”, o poeta destacou a participação dos acadêmicos em sua eleição e o apoio a sua candidatura.

“É com enorme alegria que assumo a condição de membro da Academia Brasileira de Letras. Agradeço a generosidade dos acadêmicos que votaram em apoio à minha candidatura, aceitando-me como seu companheiro nesta casa. Agradeço particularmente a alguns companheiros que durante anos insistiram para que eu me candidatasse, como Eduardo Portella, José Sarney e outros, além de amigos que já se foram, como o próprio Ivan Junqueira, a quem tenho a honra, mas não a alegria se substituir” , discursou.

Gullar recebeu a espada de imortal das mãos de José Sarney.

Eleição fácil

Por 36 votos a favor e um nulo, o escritor Ferreira Gullar foi eleito na tarde de 9 de outubro o novo imortal da ABL (Academia Brasileira de Letras). Na sessão, que aconteceu na sede da instituição no Rio, estavam presentes 19 acadêmicos, e outros 18 votaram por correspondência.

Poeta, crítico de artes e dramaturgo de 84 anos, Gullar é o novo titular da cadeira 37, ocupada anteriormente por Ivan Junqueira, que morreu no dia 3 de julho. Favorito, ele concorria com José William Vavruk, o escritor e historiador José Roberto Guedes de Oliveira, e o poeta Ademir Barbosa Júnior.

“Ele disse que vai ficar muito feio no fardão, mas todos nós ficamos com cara de periquito”, brincou o historiador Alberto da Costa e Silva, que há 14 anos ocupa a Cadeira 9. “Eu já me acostumei ao fardão, mas sofro nos dias de verão”.

Ferreira Gullar, na opinião do historiador, é “um grande poeta, o maior da minha geração”, disse ele ao UOL. “Ele não queria, mas acabou cedendo e entrando à casa de Machado de Assis e Joaquim Nabuco”.

“Sempre que escolhemos um companheiro na casa é um momento de alegria. Ele não deu entrada antes porque não quis, foi culpa dele”, disse Nélida Piñon. “A Academia acolheu com alegria a inscrição dele. Hoje ele quis e ganhou. Não foi difícil, ao contrário, foi facílimo”.

Divulgação Exposição em SP apresenta colagens coloridas de Ferreira Gullar
Erbs Jr./Folhapress Avaliado em R$ 70 mil, fardão de Ferreira Gullar está “80% pronto”
Julio Cesar Guimaraes/UOL

dez
06
Posted on 06-12-2014
Filed Under (Artigos) by vitor on 06-12-2014


=========================================================

DO DIÁRIO ESPANHOL EL PAIS (EDIÇÃO DO BRASIL)

Se contassem a um portenho que já não chove tanto em Buenos Aires por causa do desmatamento na Amazônia, ele diria que tal afirmação é uma loucura. Mas se surpreenderia ao se inteirar de que 19% das chuvas que caem anualmente na bacia da Prata, se originam da umidade gerada pela floresta amazônica e dispersada rumo ao sul. A situação é tanto incrível como alarmante: a Amazônia é um dos fatores fundamentais que regula o clima da região e está gravemente ameaçada pelas atividades humanas.

Imaginar como era há 50 milhões de anos é quase impossível. É um período 1.000 vezes maior do que o correspondente à história da humanidade no planeta. Esse foi o tempo que a Amazônia demorou para se formar. No entanto, em apenas meio século o homem devastou quase 20% dela (provavelmente muito mais de um milhão de quilômetros quadrados de floresta, afetando também rios e outros ecossistemas).

A floresta amazônica é tão extensa que se juntássemos os 28 países que fazem parte da União Europeia o espaço obtido corresponderia a apenas 64% desse bioma

Este dado é devastador. Para que seja mais simples visualizá-lo, pensem que só no Brasil cortaram 2.000 árvores por minuto durante 40 anos. Como explicaria graficamente o cientista Antonio Donato Nobre, esse terreno desmatado equivale a uma estrada de 2 quilômetros de largura construída da Terra até a lua. Mas isto também pode ser difícil de dimensionar. O problema da imensidade da Amazônia é que achamos que ela é inesgotável. E não é. Infelizmente.

A floresta amazônica, com seus rios e diversidade, é tão grande que se juntássemos os 28 países que fazem parte da União Europeia, o espaço obtido seria equivalente a penas 64% do território amazônico que é de 6,7 milhões de quilômetros quadrados. Esse conjunto de ecossistemas, mega diverso, dominado por florestas, se estende por nove países e nele vivem mais de 33 milhões de pessoas. Existem cerca de 350 comunidades indígenas, das quais em torno de 60 vivem em isolamento voluntário há séculos, para fugir das ameaças.
mais informações

A Amazônia abriga, provavelmente, mais de 10% da biodiversidade conhecida pelo homem e desemboca no mar quase 15% da produção de água doce do planeta. É a fonte principal de segurança hídrica, alimentícia e energética da América Latina, além de ser fundamental para garantir a saúde da região.

Apesar de tanta riqueza, a Amazônia enfrenta grandes pressões: estradas, pecuária, especulação imobiliária e ocupação ilegal, represas de hidrelétricas, plantações de soja, de palma, mineração, exploração petrolífera, tráfico de madeira e contaminação, só para nomear algumas. E para rematar, a mudança climática, o maior desafio ambiental de nossa história, intensifica as consequências das demais pressões.

Para o bem do mundo, conservar a Amazônia pode ser um ás na manga para reduzir o aquecimento da Terra e, mais ainda, para amenizar os impactos desse aumento de temperatura na América do Sul. É a região natural ideal para evitar ou reduzir as emissões de carbono mais rapidamente e de forma mais benéfica em termos globais. Graças a seu tamanho, sua estrutura ecológica e sua localização geográfica entre a Linha do Equador, a cordilheira dos Andes e o oceano Atlântico, cumpre uma função de reguladora do clima. É uma fábrica de produção hídrica: bombeia cerca de 20 bilhões de toneladas de água por dia, a melhor receita para enfrentar as secas.

Mas se floresta continuar a ser destruída, aumentarão as emissões de carbono (quando uma árvore é cortada o carbono que ela capturou durante toda a sua vida é liberado) e não haverá como fazer contrapeso às secas e a outros eventos climáticos mais intensos previstos pelo aquecimento global.

A combinação será devastadora e os países amazônicos, e toda a região, terão que enfrentar as consequências. Não se deve levar em conta apenas o quanto se devasta anualmente, mas o desmatamento agregado ao longo dos anos e os lugares onde a floresta está tão degradada que já não cumpre suas funções naturais. Já que a Amazônia funciona como uma região ecologicamente integrada, entre florestas, rios e atmosfera, sua degradação degenera os processos ecológicos e ela pode, não só deixar de ser benéfica para o clima continental e global, como também se tornar um problema. Não choverá como antes na bacia da Prata.

Mas há tempo para puxar o freio de mão e mudar de rumo. Podemos construir um modelo de desenvolvimento que entenda a conservação como uma oportunidade e não como um obstáculo. Precisamos fazer com que os países compreendam que as florestas e os rios amazônicos têm uma relação direta com a segurança climática.

Durante estas duas semanas o vento sopra a favor do complexo de florestas e rios mais importante do mundo. Ou, melhor, a favor da humanidade, que depende dela, de seus serviços, dos benefícios que rende. Este ano, se realiza, pela primeira vez, a Cúpula de Mudança Climática das Nações Unidas em um país amazônico. E embora as negociações sobre o clima sigam seu rumo independentemente de onde o evento ocorra, esse é o momento ideal para incluir a agenda amazônica nas negociações do clima. É o momento de os nove países que compartilham este ecossistema demonstrarem liderança e integração.

  • Arquivos